20/12/2009

Entrevista - José Maria Castillo

O poder da Igreja de hoje me dá pena e coragem, diz teólogo espanhol

José María Castillo é um dos grandes da Teologia na Espanha e no mundo. É um teólogo de fibra, que sabe combinar perfeitamente o ensaio profundo, o livro sério, com a divulgação. Por isso, se converteu em um teólogo de referência, tanto a nível clerical como a nível das bases. Há alguns anos deixou a Companhia de Jesus. Dizia, naquela época, que para se sentir mais livre. É um teólogo, como todos os que estão em campos de fronteira, perseguidos pela Congregação para a Doutrina da Fé (com vários monitums [advertências] contra ele), mas que segue na luta. Não se queimou. É daqueles que seguem dando o pão de seus livros às pessoas. Por exemplo, seu novo ensaio editado pela Trota: La humanización de Dios. A entrevista é de José Manuel Vidal e está publicada no sítio espanhol Religión Digital, 09-12-2009. A tradução é do Cepat.
Fonte: UNISINOS


José María, bom-dia. É um prazer que estejas conosco.

Muito prazer, obrigado.

É um duplo prazer, porque contamos também com teu blog, que dignifica ainda mais a nossa página.

Isso para mim também é um presente. Me sinto bem à vontade, e o considero uma generosidade da parte de vocês.

Qual é a tese fundamental do teu novo livro?

Creio que a tese está suficientemente indicada no título. Deus, na história das religiões, é considerado como um ser transcendente e, portanto, distante e inalcançável. Em uma ordem completamente diferente e inacessível ao ser humano. Portanto, as religiões ao máximo que chegam é falar da relação do homem com Deus. A originalidade do cristianismo está em que fala da união do homem com Deus. E a partir desse momento é preciso se perguntar se é o homem que deve ser elevado à condição divina, ou se Deus desce e se identifica com a condição humana.

Como o texto dos Filipenses?

Claro, porque não há um termo médio. É preciso optar por um ou outro. É verdade que a definição dogmática do Concílio de Calcedônia, no século V, optou por uma solução que parecia intermediária: dizer que Deus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, mas que Nele há uma única pessoa que é divina. Dessa maneira, sem dizê-lo, está dizendo que é mais Deus que homem.

E pretendes dar a volta?

Pretendo simplesmente tomar como ponto de partida um mistério central do cristianismo: a Encarnação. Que Deus se faz carne, como diz o Novo Testamento. E fazer-se carne é descer e identificar-se com o mais profundamente humano. Deste ponto de vista, temos todo o direito do mundo para dizer que Deus, em Jesus, se humanizou. E, portanto, se identifica com tudo o que é humano. Ao extremo de poder dizer, no famoso texto do Juízo Final: “O que fizestes a um destes pequeninos foi a mim que fizestes”.

Mas isso também é doutrina da Igreja?

Isso está no Evangelho, e por isso a Igreja tem o dever sagrado de ensiná-lo, defendê-lo e explicá-lo.

E no Credo.

Sim, mas acontece que o Credo, tanto em sua fórmula curta (do Concílio de Nicéia) como na mais longa (do I Concílio de Constantinopla) foi redigido em condições marcadas por uma forte influência política. Dos imperadores. Não esqueçamos que os quatro primeiros Concílios da Igreja não foram convocados pelos Papas, mas pelos imperadores. Foram pagos, aprovados e promulgados por eles. E que até Teodósio I (final do século IV) utilizavam o título de Sumo Pontífice.

Ou seja, que a nossa fé descansa sobre os imperadores romanos?

Não diria tanto, mas que os imperadores tiveram uma influência determinante na formulação daqueles Concílios. A ponto de que um dos grandes temas que se estuda sobre aqueles tempos é o cesaropapismo, que foi o fato da intervenção dos imperadores na teologia, impondo seus critérios e seus pontos de vista. Eu, no livro, dou o exemplo muito eloquente e atual: imaginemos que Obama convoque um concílio ecumênico na Casa Branca. Que reúna ali todos os bispos do mundo, custeie sua estadia, aprove os documentos e os promulgue. Muita gente ficaria com reservas.

Evidentemente.

É verdade que não se pode transpor o século IV ou V para o século XXI, porque seria uma injustiça histórica e uma ingenuidade pedagógica. Mas não esqueçamos que há grandes paralelismos entre uma coisa e outra.

Então, esse cesaropapismo arrastou a definição de Cristo mais para o divino, em detrimento da parte humana.

Efetivamente. O empenho de Nicéia contra o imperador Constantino foi afirmar como dogma a identidade de substância, de ser, de Jesus Cristo com Deus, com o Pai. Nesse sentido, se salvou a divindade de Cristo, ao afirmar que a sua natureza era a mesma que a do Pai. Mas se carregou tanto a mão nos séculos seguintes no aspecto da divindade (e aqui aparecem os Padres da Igreja), que aquilo terminou em que no Concílio de Calcedônia o que se teve que defender foi a humanidade. Porque o que o monofisismo do monge Êutiques defendia era que Jesus não era um ser humano como os outros. Divino, mas não humano. E isso a Igreja também condenou.

Acontece que a Igreja segue tendo um monofisismo eterno oculto, dissimulado. Há muitas pessoas que estão convencidas de que Jesus Cristo é Deus. Santo Tomás, na Suma Teológica, se pergunta se Jesus fazia as necessidades humanas.

Se ia ao banheiro como qualquer ser humano.

Claro. Um velho professor meu dizia que isso que Santo Tomás disse é uma estupidez, porque Jesus era um ser humano, e tudo o que é humano é próprio de Jesus.

Dá a sensação de que a Igreja tem certa vergonha dessa realidade. Não só esse tema, mas o do desejo sexual de Cristo. Teve ou não desejos sexuais?

Se isso é humano, teve que tê-los.

E por que esse medo de reconhecê-lo?

Porque há certas constantes na experiência humana. Nos séculos I, II e III era o agnosticismo, que antepunha o divino ao humano. Espírito-matéria, sobrenatural-natural. Depois, essa tendência foi reaparecendo de diferentes formas. No fundamentalismo e nas tendências mais liberais.

A Igreja continua tendo medo da humanização de Cristo?

E não apenas de Cristo, que era plenamente humano, mas de Deus. A chave está na pergunta de Felipe na Última Ceia, quando disse a Jesus: “Senhor, mostra-nos o Pai”. Jesus lhe responde: “Felipe, ainda não me conheces?”. Se eu fosse Felipe lhe teria dito: “Sim, eu te conheço. O que quero é conhecer Deus”. Mas é que Jesus acrescentou, sem que esta intervenção fizesse falta: “Aquele que me vê, vê o Pai”.

Ver Jesus era ver Deus. Ouvi-lo era ouvir Deus. Tocar Jesus era tocar Deus. Portanto, desde o momento em que Deus se humaniza, se funde com a carne. Com o mais frágil da condição humana.

Assumindo todas as consequências.

Toda a fraqueza, menos o pecado. Menos a maldade, que é desumana, desumanização. Assume tudo o que é plenamente humano.

Mas também teve que se zangar.

Claro que sim. Na sinagoga, no episódio do coxo, perguntou se a religião permitia salvar ou condenar uma vida. Aqueles que queriam colocá-lo à prova se calaram, e o Evangelho de Marcos diz que Jesus lhes dirigiu um olhar de ira. Ira, não indignação!

Na famosa cena do Templo, que se coloca às vezes como exemplo disso, quando pega o chicote, sentiu indignação ou também ira?

Provavelmente as duas coisas, porque haviam convertido o Templo em uma cova de ladrões.

A humanização segue trazendo problemas? José Antonio Pagola é um exemplo atual claro disso.

Evidentemente. Há uma resistência não confessada, mas muito forte. Porque o humano é a coisa mais básica da nossa condição, anterior ao cultural, ao religioso, etc. E Deus se identifica com isso. Deus se encontra sobretudo no laico, no comum a todos os seres humanos. Estas foram as grandes preocupações de Jesus. E para isso apelava a Deus. Porque Jesus sabia muito bem que sem fé, sem profundas convicções, a condição humana não é capaz de nada. Porque o desumano predomina em nós. O Pecado Original. Então, me parece que a originalidade do meu livro está em dizer que devemos buscar a Deus, sobretudo, no humano. E que o cristianismo existe para nos humanizarmos.

Isso não quer dizer que negues que Deus era também perfeito?

Não, de jeito nenhum. Estou afirmando: o perfeito Deus se expressa, se revela, na perfeita humanidade. Este é o grande mistério de Jesus.

E uma das questões pendentes da teologia é a perfeita humanidade. Por que se pesquisou pouco nessa área?

É que os teólogos muitas vezes dão a impressão de que conhecem mais a Deus do que o homem. Prova disso é que se perguntam: “Jesus é Deus?”. Se analisam essa pergunta, te dás conta de que no fundo estão dizendo que sabem o que é Deus. E perguntam se isso se pode aplicar a Jesus. Eu perguntaria a quem faz essa pergunta: “Você sabem quem é Deus? O viu, o conhece?”.

Conhecemos Jesus pela história evangélica. Pode-se discutir sobre o valor histórico, mas aí há a realidade de um galileu, trabalhador do século I, que viveu de determinada forma, teve tais convicções, fez tais coisas e morreu de tal maneira; sabemos disso com muita segurança. A partir daí temos que conhecer a Deus.

Seria mais fácil conhecer o Jesus homem do que o Jesus deus?

Claro. A partir do Jesus homem podemos começar a conhecer o Jesus deus. Porque se eu vou diretamente ao deus em si, o que posso saber? Disse-o Aristóteles, é a metafísica dos gregos. A especulação dos intelectuais merece respeito, mas o Evangelho tem mais credibilidade.

Ou seja, o que sabemos de Deus sabemo-lo porque Jesus o disse?

Evidentemente. Por isso, ele é revelador e revelação de Deus. É a imagem de Deus invisível. Ou, como diz a Carta aos Hebreus, “Deus finalmente nos falou em seu Filho”. Por meio de seu filho, que é Jesus.

Uma lacuna que assinalas na cristologia é a cristologia política da Igreja antiga. O que queres dizer com isso?

Me refiro ao cesaropapismo, à influência dos interesses políticos na teologia. Compreende-se que isto tenha acontecido, porque era o tempo da decadência do Império. Aquilo estava naufragando e se agarraram ao que era possível. Como viram que o cristianismo estava crescendo, se agarraram a ele. Mas, claro, não lhes interessava um Deus crucificado. E o problema com o qual se defrontaram foi que o cristianismo pregava que o deus no qual acreditavam era um crucificado. E isso significava um escravo, ou um estrangeiro, ou um subversivo. Como resolveram isso? Criando um deus Todo Poderoso. Um pantocrator, que era um título imperial, que colocaram em Jesus Cristo. Mas o Deus que emerge dos Evangelhos é um Deus misericordioso.

“Todo Poderoso”.

É isso. As pessoas não necessitam de poderes que as dominem, mas compreensão, misericórdia, respeito, tolerância, ajuda para a nossa debilidade. Este seria o melhor serviço que a Igreja poderia prestar.

E isso a igreja do poder, identificada com o Vaticano, pode cumprir? Olhando para o Vaticano dá a sensação de que estamos diante de um grande poder.

Não é apenas uma sensação, é uma realidade. A cúpula da Praça de São Pedro, a imponência de um cardeal revestido com todos os seus ornamentos, são uma expressão simbólica de uma realidade. A Igreja prega constantemente o Evangelho. Há muitas pessoas na Igreja que pregam e vivem e sofrem por causa do Evangelho. Há bispos e sacerdotes e religiosos e religiosas em lugares onde não vai ninguém. Por exemplo, na América Latina. Padres que estão nos piores lugares. Mas isso não é notícia em nenhuma parte. O que é notícia são as grandes reuniões na Praça de São Pedro ou em qualquer lugar para onde o Papa vai para ser recebido como um grande deste mundo, como um chefe de estado.

E as pessoas não são esclarecidas. Porque, como juntar essas imagens com o que se lê no Evangelho? Jesus também deu muita importância a isto. E quando mandou os apóstolos a evangelizar, lhes disse: “Não levem dinheiro, nem bastão, nem sandálias; não levem duas túnicas”. Porque assim se evangeliza. Eu creio que São Francisco de Assis evangelizou mais na sua humildade e na sua simplicidade – ou a boa gente por aí perdida, padres, freiras, leigos... – que estes personagens que aparecem com essa pompa. Muitos ficam desconcertados e a outros causa mal-estar. Mesmo que haja grupos que sentem necessidade disso.

E o pior, do meu ponto de vista, é que essa tendência está crescendo ultimamente. Vamos rumo a uma Igreja da pompa e da liturgia e nos afastamos dos pobres.

Claro, porque a Igreja, à medida que vai perdendo poder no tecido social, se aferra a essas coisas.

Pela perda de influência?

Sim. Já está perdendo influência por toda a Europa; em todas as partes do mundo, à medida que a cultura vai avançando. Por isso, a Igreja se agarra ao integrismo dogmático, à política, etc., pensando que com isso vai compensar as carências em outros âmbitos. Que são os decisivos. Decisivo é o Sermão da Montanha, que determina a convivência entre as pessoas. Por isso, não se transmite, não se contagia a opinião pública, o povo.

Vês alguma saída? Há alguma possibilidade de que esta crescente involução seja reversível? É a Igreja uma instituição sábia? Se soubesse equilibrar, ao passar para um lado, o movimento pendular teria que ir para o centro, para admitir a todos.

Bom, a esperança que temos é que vão esbarrar neste limite, que vão se dar conta de que por aí já não se avança mais. Há muita gente convencida disso, não apenas entre leigos e seculares, mas também entre os bispos. Acontece que nos ambientes clericais há muito medo. E, portanto, falta de liberdade.

Medo da perda do poder?

Sim. E das reprimendas que vêm de Roma. Quando era jesuíta, um bispo me falou com toda a confiança. Estava em uma diocese da Espanha e me contou como são controlados por Roma, mediante um monitum, uma advertência. E me contou o exemplo do cardeal de Barcelona, que morreu há alguns anos, a quem mandavam monitum após monitum por coisas muito estranhas. Até que um dia se cansou, tomou um avião, foi a Roma e perguntou: “O que está acontecendo aqui?”.

Na época de Paulo VI ou de João Paulo II?

Creio que de Paulo VI.

A coisa já começou aí?

A coisa vem de muito tempo atrás, de muito longe. O mundo interno na Cúria romana é um mistério, inclusive para os que estão dentro dela. O caso é que procuraram, e descobriram que aqueles monitums vinham de Roma para o cardeal de Barcelona nada menos que por denúncias de um sacerdote que estava em um hospital psiquiátrico.

Que barbaridade.

Claro. E se em Roma dão atenção a um anônimo ou a uma denúncia de um demente para intimidar um cardeal, há algo que não funciona bem.

Há medo entre os teólogos que estão na fronteira?

Sim.

E autocensura, portanto?

Acontece que muitos de nós estamos conscientes do medo. Há uma afirmação de um psicanalista francês que diz: “A obra-prima do poder consiste em fazer-se amar”. E se o poder é religioso, se faz amar muito mais. Amamos a quem nos controla, a quem nos proíbe, nos ameaça e não nos deixa pensar com liberdade.

E isso impede a rebelião.

Claro. Eu penso, por exemplo, em Santo Antonio de Pádua. Eu recomendaria a muitos bispos e sacerdotes ler seus sermões. Ou o Tratado de Consideratione de São Bernardo. Ou Santa Catarina de Sena. E não estou citando teólogos da Libertação, mas santos dos séculos XII e XIII, místicos da Idade Média.

É esse círculo que rompes quando decides que não há espaço suficiente para respirar (dentro da Companhia de Jesus)?

Sim, isso me influenciou notavelmente para tomar a decisão que tomei e que, aos 78 anos, não é fácil tomar. Tive dificuldades para pensar com liberdade e dizer livremente o que pensava. E falei para mim mesmo: “O pouco tempo de vida que me resta, que não será muito, quero poder pensar e falar com liberdade, até onde me seja possível”.

E isso é algo que se agradece, porque há poucas vozes absolutamente livres, que possam expressar o que sentem. Porque na Igreja se murmura muito, se critica por baixo, mas há poucas pessoas que se atrevem a dizer publicamente, por exemplo, o que tu estás dizendo.

O que eu sinto é que há pessoas que podem se escandalizar. Que vão se irritar ou sentir mal lendo meus livros ou esta entrevista. Mas também penso que nos Evangelhos (Deus me livre de nem sequer querer assemelhar-me ao Senhor) Jesus escandalizou muita gente. E Monsenhor Romero, ou Dom Hélder Câmara, também escandalizaram muita gente. Lembro dessa frase tão conhecida: “Quando eu dou de comer aos pobres, me chamam de santo. Quando eu pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista!” Quer dizer, se escandalizam. Mas eu creio que isto é inevitável.

Mas os simples não se escandalizam. Quem se escandaliza, ou diz que se escandalizar, são os talibans que defendem a Igreja esclerosada.

É verdade. Eu sempre digo uma coisa: Jesus foi extremamente tolerante. Mas foi intolerante com os intolerantes. Essa é a razão da dureza e da firmeza com que trata a escribas e fariseus, segundo os relatos evangélicos.

Uma questão de atualidade. Houve nomeações, uma muito polêmica: a do Monsenhor Munilla para San Sebastián, sem consultar a diocese, etc. Quem manda na Igreja espanhola neste momento?

O cardeal Antonio María Rouco [presidente da Conferência Episcopal Espanhola] tem um poder muito grande.

Sem contrapesos?

Ele os tem, mas estão ocultos, segundo dizem aqueles que conhecem o mundo interno da Conferência Episcopal. Rouco se deu conta de que a linha que ele tomou é bastante similar àquela que domina atualmente no Vaticano. Alguém dirá: “Mas é isso que tem que ser feito”. Mas eu diria: “Cuidado”. Porque essa linha é coincidente com o fundamentalismo religioso mais taxativo, e com a direita política.

Eu respeito o fato de que querem seguir essa linha, são livres para fazê-lo. Mas que não queiram impô-la a todos. Porque há muitas pessoas de uma esquerda saudável, de uma postura mais respeitosa, liberal e tolerante do ponto de vista religioso, que são bons cristãos. Mas na Espanha se tem a impressão de que, como não te identificas com a direita para além da qual já está a parede, como dizia alguém outro dia, não podes identificar-te com Roma.

E isso inclusive fecha o “mercado religioso”, o potencial. Se a Igreja somos todos, sejamos todos, não?

Uma das esperanças que tenho é que se vejam cada dia mais angustiados economicamente. Porque a cruz vai colocar cada vez menos gente na casinha da declaração de renda, porque cada vez menos gente vai à Igreja e, portanto, as doações diminuem vertiginosamente. E se verão numa situação em que não lhes resta outro remédio – e é duro e desagradável dizê-lo – que rever muitas coisas.

Deveriam rever muitas coisas por esgotamento? O celibato dos padres, a ordenação de mulheres, que me parece...

...vidente. Começando porque Cristo não ordenou mulheres, mas tampouco homens. Cristo não ordenou ninguém. Outro dia, no blog de Rebelión Digital, coloquei uma entrada sobre isso: a ordem não é bíblica nem evangélica, é uma instituição política do Império. Havia três ordens: a dos cavaleiros, dos senadores e da plebe. E isso foi tomado pelo clero no século III. Dizer que Jesus ordenou os apóstolos sacerdotes é um despropósito teológico e histórico. Portanto, por que não vão poder ordenar mulheres para sacerdotes? O Concílio diz que o povo cristão tem direito a que seja atendido com a pregação da Palavra e a administração dos sacramentos pela Hierarquia. Hoje, mais da metade das paróquias do mundo não tem pároco, porque não há sacerdotes suficientes. Acima do direito da Igreja de impor sacerdotes célibes ou só homens, está o direito dos fiéis de serem atendidos. Porque a Comunidade está em primeiro lugar.

Outro assunto que o cardeal Rouco trouxe novamente à pauta são as aulas de religião. Diz que estão marginalizadas, que os acordos Igreja-Estado não estão sendo cumpridos, que não há alternativa... As aulas de religião nas escolas públicas devem continuar?

Do jeito que a questão está colocada, as aulas de religião (para isso é preciso ver os livros e manuais usados pelos colégios, censurados pela Conferência Episcopal), creio que também teria que haver aulas de religião para os muçulmanos, para os budistas, etc. Ou seja, se a Constituição diz que as crenças religiosas são livres e que o Estado não é confessional, não pode converter-se em um assunto tão importante como é o ensino. A Igreja quer obrigar o Estado a ensinar religião porque ela se sente incapaz de transmiti-la aos jovens. Então, são adoutrinados no colégio.

Que opinião tem sobre o Papa Ratzinger?

E primeiro lugar, não deveríamos nunca esquecer que a Igreja é uma instituição de mais de um bilhão de crentes. E, para governá-los todos, colocar um homem com essa idade, com um cargo vitalício que pode prolongar-se como nos últimos papados, como João Paulo II, que, devido à idade e à saúde, não podia mais governar, em uma instituição de poder centralizado, nenhuma outra instituição no mundo o faria. Nem o faz.

A igreja lança mão do Espírito Santo quando lhe convém. Caso contrário, oculta padres pederastas. O Espírito Santo também inspira isso? Vamos ser coerentes. Eu creio que o Papa Ratzinger foi um grande teólogo, mas que já não está, devido à idade e à saúde, em condições de ocupar o cargo que ocupa, dado o sistema organizativo que a Igreja tem, de um poder concentrado todo em um só homem.

Vês que a Igreja é capaz de mudar o sistema? Por exemplo, apresentar a renúncia, dar passagem a outros...

Não creio que o faça.

Não é nem o tempo nem a pessoa?

Não. Pode nos preparar uma bela surpresa no dia em que menos esperamos, mas não creio. A mudança na Igreja não virá de cima. A renovação também não virá pelos movimentos antieclesiásticos (como os Pobres de Lyon e todos aqueles grupos da Idade Média). Por aí, também não. A mudança na Igreja tem que vir em comunhão com a Igreja.

Reivindicando a partir de dentro?

Todos se tornando responsáveis por sua caminhada. Na paróquia e nas dioceses. Acontece que as pessoas foram educadas para ficarem caladas. Para que vão à missa no domingo e digam que o resto é “coisa de padres”.

E os movimentos mais reivindicativos dentro da Igreja são estigmatizados, taxados de “vermelhos”, marginalizados...

Sim, complica-se a vida deles. Não são ouvidos. Eu gostaria que os bispos em cada diocese recebessem cada movimento como recebem os kikos [referência a Kiko Argüello, fundador do Caminho Neocatecumenal]. Me parece bem que sejam recebidos com entusiasmo, porque são pessoas de muita generosidade religiosa e de muita entrega, que merecem todo o respeito. Mas os bispos não deveriam esquecer que também há muitas pessoas que, por motivos que nem eles mesmos se atrevem a confessar, estão aí, marginalizados. Não são nem ouvidos nem recebidos. Tenhamos magnanimidade de coração. Jesus comia com os pecadores, recebia pessoas mais marginalizadas e pior vistas, colocava um samaritano como modelo, acolhia um centurião romano, não fazia diferenças...

E deixava as 99 [ovelhas] para ir atrás da desgarrada.

Claro. Se perdia uma, ia em busca dela. E agora, a impressão que se tem é que quem está perdido é o bispo.

Mas, então, “largo me lo fiáis” [que prazo me dais]. Há esperança de uma mudança real próxima?

A curto prazo, não. Seria preciso convocar um novo Concílio, mas hoje, assim como é a política de nomeações de bispos de Bento XVI, e assim como foi a de João Paulo II, daria na mesma. Porque na maioria das dioceses colocaram homens orientados numa linha que um concílio não poderia mudar. Seria preciso pensá-la.

João XXIII o fez numa época tão difícil ou mais que a nossa.

É verdade, mas há uma diferença. Pio XII foi um Papa de uma mentalidade muito tradicional e conservadora, que tentou degolar os movimentos renovadores, por exemplo, a Nouvelle Teologie, dos anos 1940-50. E aqueles grandes teólogos, como Karl Rahner, foram condenados. Mas Pio XII, sendo tão conservador como era, não teve medo de nomear grandes personalidades como bispos e cardeais. E por isso o Concílio foi possível. Porque não deu tempo para João XXIII renovar o episcopado nem de mudá-lo. O Concílio veio na sequência. Entretanto, os dois últimos papas tiveram esse medo.

Preferem nomear bispos mais facilmente controláveis?

Preferem homens submissos.

E Jesus nunca foi um submisso.

Não! Também não foi um revolucionário alegremente, nem muito menos perigoso. Andava sempre com os últimos. Foi um homem de uma liberdade absoluta e surpreendente.

Eu lembro da passagem do Evangelho de Lucas em que conta que Pilatos havia degolado alguns galileus que estavam oferecendo um sacrifício no templo ou num lugar sagrado. Então, certa ocasião queriam colocar Jesus à prova, e Jesus nada disse. O que disse foi: “Se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo”.

Jesus interpelava à conversão de cada um. A conversão aos valores do Sermão da Montanha e de suas parábolas. Que os últimos são os primeiros, que os frágeis, as crianças, as mulheres, os pecadores, os excluídos e os indefesos são os que mais necessitam de cuidados.

Uma Igreja assim, teria hoje um poder e uma força incríveis. E o que me dá pena e às vezes coragem é que se agarram a poderes deste mundo.

José María, foi um prazer. Quem quiser aprofundar o seu pensamento teológico, pode comprar o seu ensaio de cristologia. E quem quiser, pode diariamente acessar o seu blog Teología sin censura, no sítio do Religión Digital.

17/12/2009

Antônio Cechin e Jacques Alfonsin


Os nossos mártires da caminhada


Artigo de Antonio Cechin, irmão marista e militante dos movimentos sociais; e, Jacques Távora Alfonsin,  advogado do MST e procurador do Estado do Rio Grande do Sul aposentado.
Fonte: UNISINOS


A UNISINOS está celebrando, neste ano de 2009, o 20° aniversário do martírio de uma leva de militantes cristãos da Universidade Centro Americana (UCA). São os padres Jesuítas Ignácio Ellacuria, Segundo Montes, Ignácio Martín-Baró, Amando Lopez, Juan Ramón Moreno e Joaquín López y López, e a cozinheira da residência Elza Julia Ramos, juntamente com sua filha Celina, de 15 anos. A Comunidade inteira foi chacinada pelo governo salvadorenho de maneira brutal, no dia 16 de novembro de 1989. Fazia parte ainda dessa comunidade de Jesuítas o teólogo Jon Sobrino que, por se encontrar em viagem na Tailândia, sobreviveu ao massacre.

Quando iniciamos de maneira concreta a opção pelos pobres, propugnada no Brasil e depois em toda a América Latina por Dom Hélder Câmara, recuperamos a palavra Caminhada. Embora eminentemente bíblica, perdera-se na poeira dos tempos. O Homem Jesus de Nazaré se apresentara como o Caminho, a Verdade e a Vida. Na Igreja dos primórdios, descrita nos Atos dos Apóstolos, os cristãos, especialmente durante as perseguições implacáveis que lhes infligiam os imperadores romanos, se declaravam Seguidores do Caminho, em vez de “Seguidores de Jesus Cristo” a fim de não correrem riscos desnecessários de serem presos e condenados à morte.

Nada melhor que a palavra Caminhada para expressar o que é a inserção: ir para o meio dos pobres, nas periferias dos campos e das cidades e tomar como ponto de partida para qualquer trabalho, a situação bem concreta em que se encontram os excluídos, e junto com eles, desencadear um processo de mudança, passo a passo, rumo a uma fé adulta e a uma autêntica cidadania, criando assim Comunidades Eclesiais de Base. É o novo jeito de ser Igreja, outra expressão nova, inventada pelo Cardeal Aloísio Lorscheider, para designar a base da nova Igreja e ao mesmo tempo a base da nova sociedade com que sonhamos.

Dom Pedro Casaldáliga, devotíssimo de nossos mártires, erigiu em sua diocese, o santuário dos Mártires da Caminhada. na cidade de Ribeirão Bonito, no lugar exato em que sofreu o martírio outro jesuíta, o padre Burnier, De então a esta parte, todos os que sofrem o martírio pela justiça, são os mártires da CAMINHADA ou também mártires das Comunidades Eclesiais de Base, ou da Teologia da Libertação, ou mesmo dos Movimentos Populares.

O mesmo arcebispo Dom Hélder Câmara, por ocasião do Concílio Ecumênico Vaticano II, lutou bravamente para que a Igreja, como um todo, passasse a ser, mais do que Igreja dos pobres, uma Igreja pobre. Enquanto o Concílio encerrava suas atividades na Praça São Pedro no Vaticano, em solenidade transmitida pela mídia do mundo inteiro, Dom Hélder, acompanhado de várias dezenas de bispos, foi para debaixo da terra, nas catacumbas romanas. Com os Irmãos bispos que o acompanharam, celebrou o chamado Pacto das Catacumbas. Esse gesto tinha também o significado de uma reconciliação da Igreja de hoje com a Igreja das Catacumbas, que foi também a da CAMINHADA inicial, com seus milhares de mártires. Estava Dom Hélder profetizando também que o pós-concílio para nossa Igreja Latino-americana seria igualzinha àquela, com nova leva de mártires. Ontem eram os mártires por ódio explícito à fé cristã e hoje mártires pela justiça, em prol da libertação dos irmãos..

Em seus sermões e homilias, Dom Hélder costumava se referir ao martírio como “coisa fina, mas que é para poucos, pois Deus reserva esse privilégio só para pessoas muito especiais.” Dom Pedro Casaldáliga costuma dizer: “uma Comunidade que esquece seus mártires, não merece continuar existindo!” O Mestre Jesus mostrou que o ponto mais alto a que pode chegar um discípulo seu “é testemunhar o maior amor possível, dando a própria vida em favor dos outros”.

Em Roma, no começo da Igreja, quando tombasse algum cristão, vítima dos imperadores que se tinham na conta de deuses, os irmãos na fé imediatamente resgatavam o corpo do mártir, em geral à noite, o sepultavam com todas as honras nas catacumbas, invocando-o imediatamente como santo protetor. A fé lhes dizia que todo mártir era santo, sem necessidade de canonização oficial por parte da Igreja, convictos que estavam, de que Jesus ainda em vida, já canonizara todos os que o imitassem dando a própria vida em favor do próximo. Não tinham nenhum escrúpulo em transformar a pedra que cobria o tumulo em pedra de altar sobre a qual celebravam a missa. Até o Vaticano II, portanto durante 20 séculos, não se podia rezar missa sem ter a chamada pedra “ara” (de altar) dentro da qual tinha que haver uma relíquia de mártir.

O que é de todo estranho em nossa Igreja Católica de hoje, é que não tenhamos nenhum mártir da teologia da libertação reconhecido oficialmente como santo, pela cúpula da Igreja. O direito canônico continua dizendo que só há martírio, com direito a canonização imediata, quando a morte foi infligida por explícito ódio à fé. Ora, não raro, quem mata nossos irmãos mártires da caminhada, são governos, militares, ou pessoas que até fazem questão de se afirmar como cristãos. Nada estranho que isso aconteça, porque o próprio Senhor Jesus Cristo nos preveniu quando disse: “Haverá pessoas que vos hão de matar pensando fazer um bem.

Acontece que o martírio pela Justiça está exaltado em todas as páginas da Bíblia. Por isso, nosso bispo Casaldáliga, sem escrúpulo nenhum, costuma chamar o bispo Romero, mártir centro-americano, de San Romero de América. E como Roma se nega até hoje em canonizar os mártires da Caminhada, nosso bispo-profeta, na Agenda Latino-Americana com edição anual, no calendário de cada dia, não faz preceder a nenhum nome o designativo são ou santo.

Já que estamos falando em mártires da Caminhada, ou mártires da Libertação, ou mártires pela Justiça, nossa Igreja que está no Rio Grande do Sul, nesse ano quatrocentão do início das Missões Jesuíticas, está com uma dívida para com o povo guarani e para com os pobres do Rio Grande do Sul. A consciência popular, tanto dos índios quanto do povão, canonizou Sepé Tiaraju, logo que foi abatido pelas armas assassinas dos exércitos de Espanha e Portugal no ano de 1756. Assim como Santo Estevão foi o protomártir cristão, São Sepé é o nosso protomártir pela Justiça, lutando bravamente em prol de Justiça e Paz para seus irmãos guarani. Nossos movimentos populares que lutam por Terra, Saúde, Habitação, Educação, de há muito viram em São Sepé, o mártir por excelência a indicar o caminho das transformações sociais de que todos estamos necessitados. Ele é “nosso Facho de Luz” como bem significa a palavra Sepé.

Na falta de beatificação ou canonização oficial de nossos mártires da Caminhada, por parte do Vaticano, corretíssimo está nosso bispo-profeta Dom Pedro Casaldáliga quando, todos os anos nos fornece sua “Agenda Latino-Americana” aonde no calendário de todos os dias nos fornece o nome dos santos, tanto dos antigos quanto dos da Caminhada. Na frente de todos nenhum adjetivo. Nem são, nem santo, a fim de marcar absoluta igualdade em santidade. Por exemplo, no dia 15 de dezembro, lá está: Valeriano e em 1975, Daniel Bombara, membro da JUC, mártir dos universitários comprometidos com os pobres da Argentina. Hoje, dia 16 de dezembro: Adelaide e em 1984, Eloy Ferreira da Silva, líder sindical, São Francisco, Minas Gerais. Em 1991, indígenas mártires do Cauca, Colômbia.

14/12/2009

Irmã beneditina quer imepdir vacina contra a gripe A


A irmã beneditina Teresa Forcades, doutora em medicina, começou um movimento civil na Internet para impedir que a vacina contra a gripe AH1N1 seja obrigatória e contra a gestão da doença. Em um vídeo que ela postou na rede, essa irmã faz um chamado à participação popular para que ninguém possa ser forçado a ser vacinado na Espanha e para que aqueles que sejam vacinados não percam seu direito a exigir responsabilidades se sofrerem efeitos colaterais. A reportagem é de Gaspar Hernández, publicada no sítio Religión Digital e no jornal catalão El Periódico, 08-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS


Teresa Forcades é autora de "Los crímenes de las grandes compañías farmacéuticas", um livro em que denuncia como o poder político e econômico que as grandes empresas farmacêuticas adquiriram serve-lhes para garantir enormes benefícios econômicos, mesmo às custas da saúde da população.

A freira e doutora explica que a vacina contra a gripe AH1N1 é obrigatória por causa da declaração de pandemia por parte da Organização Mundial da Saúde, já que, segundo lembra, desde 2005 a OMS pode dar ordens aos governos sobre vacinas em casos de pandemias.

Forcades explica em seu vídeo (clique aqui para assistir, em espanhol) que "a nova gripe"não é nova porque é do tipo A, nem por ser do subtipo H1N1. A única coisa que é nova é pertencer à cepa S-OIV. Ela lembra que a epidemia de gripe de 1918 foi do tipo AH1N1 e que, desde 1977, os vírus AH1N1 fazem parte da temporada de gripe de cada ano.

A religiosa destaca que, desde que essa enfermidade começou a ser detectada em abril de 2009 e até o dia 15 de setembro de 2009, morreram 137 pessoas na Europa e 3.559 em todo o mundo, quando, por sua vez, por causa da gripe estacional, falecem entre 40.000 e 220.000 pessoas.

Multiplicação de efeitos secundários

A doutora também alerta que a maioria dos laboratórios projetam vacinas em duas doses, que devem se somar à vacina da gripe estacional, algo que nunca se fez e que multiplica por três os possíveis efeitos secundários.

Ela também revela que os laboratórios que fazem vacinas usam coadjuvantes muito potentes para estimular o sistema imunitário, e que a vacina que o laboratório Glaxo-Smith-Kline está fabricando contém um, denominado AS03, que multiplica por dez a resposta imunitária, o que poderia provocar doenças autoimunitárias graves ao cabo de um tempo.

As empresas farmacêuticas, segundo essa freira, estão exigindo que os Estados firmem acordos ed imunidade para que, em caso de as vacinas terem mais efeitos secundários dos previstos, a indústria fique isenta de toda responsabilidade.

Eis a entrevista.

O que faz uma freira falando na Internet sobre os perigos da vacina da gripe A?

Nossa regra prescreve cinco horas de oração e seis de trabalho. Ora et labora. Eu dedico as horas de trabalhas em parte à pesquisa médica. Sou doutora em medicina e, em 2006, publiquei o estudo "Los crímenes de las grandes compañías farmacéuticas".

Quando decidiu que tinha que falar sobre a gripe A?

Em maio deste ano, me pediram uma conferência sobre a vacina do papiloma e fiquei muito impactada pela falta de base científica das recomendações oficiais. Ao final de alguns dias, falei com na TV-3 sobre essa vacina e, a partir daí, fui recebendo pedidos para que opinasse sobre a vacina da gripe A.

A Organização Mundial da Saúde não merece confiança?

Não entendo os motivos que levaram a OMS a atuar da maneira absurda que está agindo.

Absurda?

Sim. Em maio passado, a OMS mudou a definição oficial de pandemia: passou de uma definição lógica (uma pandemia é uma infecção de alcance global e de grande mortalidade) para uma definição ilógica (uma pandemia é uma infecção de alcance global).

Que consequências tem essa mudança?

Segundo a nova definição de pandemia, a gripe de cada ano cumpre com acréscimo os requisitos para ser pandemia. Vamos declarar o mundo em alerta sanitário a cada outono? Além de absurdo do ponto de vista científico, isso tem graves consequências financeiras e políticas.

A senhora não confia na vacina. Por quê?

Diferentemente da vacina da gripe de cada ano, a vacina da gripe A contém substâncias coadjuvantes tão potentes que podem chegar a multiplicar por dez a resposta imunitária normal. Além disso, ela é recomendada em duas doses, que devem ser recebidas após a injeção da gripe estacional, que também contém coadjuvantes, mesmo que de menor potência. Nunca antes se injetaram essas substâncias três vezes seguidas na população geral, começando por crianças, doentes crônicos e grávidas.

Que efeitos pode provocar?

A estimulação artificial do sistema imunitário pode provocar doenças autoimunitárias. O mesmo prospecto de duas das vacinas da gripe A que foram aprovadas na Europa (Pandemrix e Focetra) indica que se espera que, de cada milhão de pessoas vacinadas, 99 podem experimentar uma doença autoimunitária conhecida como paralisia ascendente de Guillain-Barré.

Se isso acontecer, as indústrias farmacêuticas irão receber denúncias...

Mas nos Estados Unidos já foi aprovado um decreto que exime os políticos e as indústrias farmacêuticas de toda responsabilidade.

A senhora sugere que as indústrias farmacêuticas trabalharam irresponsavelmente?

O que fizeram foi trabalhar a favor de seus interesses.

Pode-se obrigar alguém a se vacinar?

No ano 2007, a OMS aprovou uma normativa que estabelece uma exceção. Em todos os casos, exceto um, a OMS emite recomendações e só em um caso ela pode dar ordens que invalidem a soberania dos países membros.

Esse caso é o da pandemia.

Exato. Em caso de pandemia, a OMS pode obrigar por lei que os países membros vacinem uma parte de sua população ou toda ela. Os governos desses países estariam obrigados, então, a impôr multas ou outras sanções aos cidadãos que se neguem a se vacinar.

A senhora acredita em conspirações mundiais?

Acredito que há interesses em jogo que não são o bem da população. Como justificar o dinheiro investido na aquisição de vacinas, se a gripe A é mais benigna do que a gripe de cada ano? Gastar tanto dinheiro em vacinas e em medidas profiláticas sem a base científica suficiente é um escândalo, e devem ser pedidas responsabilidades.

O que as suas coirmãs dizem sobre o vídeo e suas afirmações?

Uma irmã de quase 90 anos me objetou que o tema da gripe A era muito sério e que eu não podia falar contra a vacina sem ter argumentos muito bem fundamentados.

E?

Após ler meu informe, ela se aproximou de mim na saída da oração de Vésperas e simplesmente me disse: "Compreendido".

A senhora não tem medo?

Às vezes.

Reza muito?

Tanto quanto posso.

03/12/2009

Antonio Cechin e Jacques Távora Alfonsin


Entre o Menino Jesus e o Papai Noel

"Em que lugar, hoje, Maria e José obteriam acolhida para o parto iminente do filho esperado? Se estivesse nascendo agora, com qual criança mais se assemelharia o Menino Jesus? Às vésperas do seu aniversário, parece de todo oportuno procurar-se responder tais perguntas, já que o natal é a celebração de um nascimento que mudou a história da humanidade toda", escrevem Antônio Cechin e Jacques Távora Alfonsin, lembrando o Natal que se aproxima. Cechin é irmão marista, miltante dos movimentos sociais. Távora Alfonsin é advogado do MST e procurador do Estado do Rio Grande do Sul aposentado.
Fonte: UNISINOS


Em que lugar, hoje, Maria e José obteriam acolhida para o parto iminente do filho esperado? Se estivesse nascendo agora, com qual criança mais se assemelharia o Menino Jesus? Às vésperas do seu aniversário, parece de todo oportuno procurar-se responder tais perguntas, já que o natal é a celebração de um nascimento que mudou a história da humanidade toda.

Pela sua conhecida pobreza, a mãe o pai procurariam, quem sabe, a emergência de algum hospital que atenda pelo SUS. Ansiosos, são recebidos no balcão de informações, em meio a um grupo grande de gente doente e triste, cabeça baixa, esperando chamada, com uma senha na mão.

Começa, mais de dois mil anos depois, a histórica desculpa: “Não. Lamentamos. Vocês terão de procurar outro hospital. Vejam que até os nossos corredores estão lotados. Não temos um leito sequer, disponível, nem médicos e enfermeiras suficientes para tanta gente.”

Sem o dinheiro que, como se sabe, dificilmente deixa de abrir qualquer porta, batem na sacristia de uma Igreja. “Não. Aqui não se pode hospedar ninguém. A gente batiza, reza missa todos os domingos, faz a catequese da primeira eucaristia, celebra casamentos, exéquias de pessoas falecidas. Uma vez por mês reunimos a comunidade num almoço. É verdade que temos hospitais, também, mas eles são obrigados a cobrar internações porque os subsídios públicos nunca chegam em dia e os atrasos estão levando todos eles à falência.”

A preocupação e a angústia crescendo, José meio desesperado, Maria sentindo as primeiras contrações, resolvem tomar o rumo da periferia urbana para, quem sabe, em algum galpão abandonado, a mulher consiga parir, quando menos, abrigada.

Lua que se acende e apaga no andar das nuvens, por ela conseguem entrever algumas luzes, ouvir algumas vozes numa corrente de barracas de lona preta estendida na beira da estrada. Denunciados pelo latido dos cachorros, chegam muito envergonhados numa delas. Um casal tão pobre como os recém chegados, levanta o candeeiro para identificá-los e pede para eles entrarem imediatamente, pois já adivinhou que a urgência não admite outro gesto.

Maria, já sem tempo, consegue se deitar num acolchoado velho que, no chão da barraca, serve de cama para o casal. Três crianças, duas meninas e um menino, dormem profundamente, recolhidas num canto mais abrigado. Os visitantes mal conseguem se apresentar. “Eu sou Laurindo. Prazer.” “Eu sou Joana, prazer”. Juntamente com José, passam a se movimentar ligeiro, como se tivessem ensaiado, pois a coisa toda não pode acabar mal. Os homens reavivam brasas que já estavam agonizando num fogo de chão, achegam gravetos que sobraram do uso anterior que cozinhou só feijão, por sinal queimado, pelo cheiro que ainda se sente. A fumaça toma conta do ambiente e faz arder os olhos de quem espera, agora, numa ansiedade do tipo que afoga. A mulher conseguiu ferver água e escaldar uma faca de cozinha, à vista de Maria, mal coberta por um lençol surpreendentemente limpo que uma vizinha, avisada do caso, lhe alcançou.

O homenzinho se livrou do ventre materno, separado pela faca de Dona Joana, a um choro alto e forte, de quem sorve o primeiro ar e reclama a primeira mamada.

Uma alegria aliviada se desata. Serena, se apossa de todos. Os ocupantes das outras barracas, tudo gente sem-terra e sem-teto, que também ainda não encontrou lugar para ficar, como o pai e a mãe do recém nascido, acorrem pressurosos em ajudar. Laurindo e Joana honrados, Maria e José confortados, há um que de solidariedade amorosa, feita de palavras e gestos, todo o mundo querendo repartir o pouco que tem com o casal de viajantes que festeja a chegada do primeiro filho.

No outro lado da cidade, muito longe dali, um foguetório faz-se ouvir, a noite se enche de sons, risos, as ruas, as árvores e os edifícios cobertos por milhares de pequenas lâmpadas coloridas, piscando, são cercados por gente que troca presentes, se abraça, anda atrás de um papai noel arquejante, vermelho na roupa e no rosto, o cabelo e a barba branca artificiais mal dependurados num gorro já meio caído, pelo peso de um saco que ele balança nas costas, cansado de representar, apenas, um papel.

Comparadas essas pessoas, comparados esses lugares, será aqui, ou lá, que o Menino Jesus nasceria hoje? Entre a pobreza e a escassez de lá, ou a fartura e até o desperdício daqui? Por tudo o que a criança viveu e ensinou depois, soube-se que ela acabou sendo perseguida, tanto pelo poder político, como pelo econômico e, até, o religioso. Acabou morrendo numa cruz, resultado de um julgamento no qual nem o direito de defesa lhe foi garantido.

A semelhança do seu nascimento e da sua vida com o nascimento numa barraca e a luta que empreendeu depois em favor das/os pobres, não nos deixa duvidar de que, hoje como ontem, são milhares as crianças que nascem nas condições miseráveis nas quais nasceu o Menino Jesus, e são muitas/os as/os adultas/os sem-terra e sem-teto que morrem por defender a mesma Justiça que Ele defendeu.

Entre a devoção que se presta ao Papai Noel e ao Menino Jesus, então, há uma distância que beira ao escárnio. Substituir esse por aquele, no natal, é como dar-se preferência às coisas, às mercadorias, aos símbolos do consumo, do que às pessoas, aquelas que conosco vivem, especialmente as que, como a Tal Criança, é necessitada e pobre.

Há um tal poder de repressão a esse povo pobre, do qual Ela fazia parte, que até as farmácias caseiras e as escolas itinerantes que, por força de sua própria condição humana, ele é forçado a criar, em defesa de sua dignidade, são destruídas pela perseguição que contra ele movem forças públicas e privadas. Não raro, como aconteceu recentemente aqui no Rio Grande do Sul, algum/a dos/das seus/suas integrantes derrama o seu sangue sobre a terra que lhe é negada, como negada foi a hospedagem “normal” para José e Maria.

Como Jesus Cristo, esse também é um povo crucificado. Em vez de andar atrás de um velho ridículo, então, o natal nos convida mesmo é a descer esse povo da cruz, incorporar o seu sofrimento, servindo-o ao ponto de enxugar-lhe os pés, assim seguindo o exemplo de Quem nasceu, viveu, amou e morreu por ele.

20/11/2009

"Construindo pontes de justiça e equidade"


Sob o lema “Construindo pontes de justiça e equidade” o Seminário Evangélico de Teologia, de Matanzas, Cuba, abrigou encontro nacional de reflexão bíblico-sócio-teológico e pastoral a respeito de temas pontuais como a perspectiva de gênero, a problemática da mulher, a masculinidade. A reportagem é de José Aurelio Paz e publicada pela Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação - ALC, 19-11-2009.
Fonte: UNISINOS
Foto: Ivonte Gebara


O evento, encerrado na quinta-feira, 12, integrou a Década de Luta contra a Violência, instituída pelo programa de Mulher e Gênero do Conselho de Igrejas de Cuba (CIC).

Propostas e desafios atuais da teologia feminista na América Latina e Cuba” foi o tema que reuniu as teólogas Ivone Gebara, do Brasil, Rebeca Montemayor, do México, a doutora Ofélia Ortega, de Cuba, e a pastora Miriam Laranjeira, da Igreja Presbiteriana Reformada de Cuba.

Ivone Gebara destacou que é importante trabalhar o tema voltado às massas, também para analisar as novas identidades femininas, “já que construímos a identidade desde o patriarcado, mas ao mesmo tempo construímos outras, para as quais temos que achar um significado”.

Em entrevista para a ALC, Gebara disse que “vivemos um momento crítico de dogmatismo e autoritarismo nas instituições religiosas”.

A teologia feminista no continente, disse, não se considera que ande muito bem, sobretudo dentro das igrejas onde quase não a suportam “porque significa aceitar uma crítica ao poder hierárquico que se concentra em mãos de uma elite masculina”, assim como os conteúdos, que “também estão no poder hierárquico”, afirmou.

É insuportável ouvir que a teologia é obra criativa somente dos homens, declarou. “Se a teologia é uma maneira de pensar os valores que constroem a vida, por aí vai a teologia feminista”, agregou.

A maior parte da produção teológica cubana sobre gênero não está nos livros, mas em artigos de revistas ou em teses do Seminário Evangélico de Matanzas, arrolou Ofélia Ortega.

O encontro também se dedicou a projetar as perspectivas teológicas e pastorais do futuro, de prática e raiz ecumênica, que leve em conta a problemática feminina, as masculinidades e as relações de gênero.

Pe. John W. O'Malley


Um novo horizonte católico

Publicamos a seguir a resenha crítica do novo livro do vaticanista norte-americano John L. Allen Jr., "The Future Church: How Ten Trends Are Revolutionizing the Catholic Church" [A Igreja do futuro: Como dez tendências estão revolucionando a Igreja católica] (Ed. Doubleday). O artigo foi escrito por John W. O'Malley, padre jesuíta, historiador da Igreja e professor de teologia da Georgetown University, de Washington, nos EUA. O'Malley é autor de"What Happened at Vatican II" [O que aconteceu no Vaticano II] (Ed. Harvard) e "A History of the Popes" [Uma história dos Papas] (Ed. Sheed and Ward). O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 10-11-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS


Perceptivo, imparcial, provoca o pensamento, expande horizontes, incrivelmente bem informado – palavras como essas pulam em minha cabeça enquanto leio o novo livro de John L. Allen Jr., "The Future Church: How Ten Trends Are Revolutionizing the Catholic Church". Eu pensei em ter detectado em sua introdução uma nota de desculpas por escrever como "um jornalista, não um padre, um teólogo ou um acadêmico". Suas credenciais, como os leitores do NCR sabem, são muito boas. Se você tem dúvidas, o livro irá dissipá-las.

O título é provocativo por prometer mais do que qualquer um pode oferecer. Allen tem muito senso para tentar oferecer isso. Ele não fornece nenhum plano para o futuro, nenhum projeto de Igreja. Ele faz exatamente o oposto.

Suas análises das tendências deixam duas coisas claras. Primeiro, estamos à beira de mudanças que, tomadas em conjunto, irão remodelar radicalmente a Igreja. "Revolucionar" é a palavra de Allen. Segundo, as tendências irão seguir seu próprio curso, interagindo entre si e com a cultura em geral, de forma que é impossível dizer quais poderão ser os resultados finais da revolução. Um revolução radical até que ponto? Essa é a dúvida de qualquer um, suponho. As tendências apresentam desafios cuja novidade e magnitude fazem o coração falhar uma batida. Elas, em sua importância cumulativa – falo como historiador – pressagiam mudanças nos padrões católicos sem paralelo no passado. Allen traça essas tendências imparcialmente e, como ele diz, descritivamente, não prescritivamente. Com isso, ele se refere ao fato de não apresentar as tendências nem como boas, nem como más para a Igreja. Ele as apresenta simplesmente como a forma pela qual as coisas estão se movendo.

As tendências, claro, não estão desrelacionadas entre si. "Igreja mundial", não surpreendentemente a primeira tendência com a qual Allen lida, está intimamente relacionada com "A nova demografia", com "Multipolaridade" e com "Globalização".

Até a metade do século, Nigéria, Uganda e a República Democrática do Congo estarão entre os 10 países mais católicos do mundo, tirando a Polônia e a Espanha da lista. Mas essa recente Igreja mundial, um resultado, em parte das mudanças demográficas, é afetada pela globalização. Ela eleva à proeminência valores e prioridades culturais diferentes daqueles do mundo do Atlântico Norte que ainda demarcam as nossas sensibilidades católicas, o que causa a questão multipolar. Uma tendência ameniza ou intensifica a outra, assim como a globalização faz com a afirmação dos valores e prioridades indígenas.

"Catolicismo evangélico" e "Pentecostalismo" também estão intimamente relacionados e, de certa forma, se relacionam com "Islã". Essas três tendências juntas fazem com que o futuro pareça mais conservador em questões sexuais e de gênero. Mas então existe a "Revolução biotécnica", que, junto a outros desenvolvimentos no mundo científico como o "Universo em expansão", desafia os princípios fundamentais da doutrina católica da forma como a conhecemos. Além da clonagem humana, da pesquisa com células-tronco embrionárias e outros assuntos relacionados que geralmente ouvimos falar, a revolução biotécnica cava fundo nos fundamentos da própria religião quando aquela pensa que descobriu um gene de Deus. Em comparação, a tendência "Ecologia" pode parecer inofensiva, mas, como Allen demonstra, ela também derruba padrões estabelecidos de pensamento, de comportamento e teológicos.

Os leitores podem se surpreender ao encontrar "Papéis dos leigos em expansão" entre as tendências, o que levanta a questão de como uma tendência chega às 10 principais. Allen desenvolveu seis critérios: uma tendência deve ser global, deve ter impacto nas bases, deve envolver lideranças oficiais, deve ter potencial para explicar uma ampla variedade de fatores, deve conter poder preditivo e não deve ser movida ideologicamente. Esses critérios permitiram que Allen eliminasse alguns suspeitos habituais, como a crise dos abusos sexuais, João Paulo II e as mulheres. O capítulo sobre "Tendências que não estão", embora curto, irá envolvê-lo tanto quanto os outros.

Para as tendências que estão, Allen divide cada um dos 10 capítulos em duas seções. A primeira, "O que está acontecendo", faz o que promete. Apresenta e analisa informação. Essas seções são, para mim, o que há de mais satisfatório e impressionante no livro. Allen fez a sua lição de casa. Ele estimula o leitor em um curso intensivo sobre o que está acontecendo não apenas na Igreja, mas também na economia, na diplomacia, na política mundial e em temas semelhantes. Eu não sei como os especialistas irão julgar as análises de Allen nesses campos. Tudo o que eu posso dizer é que aprendi muito e acho que você também irá aprender.

A segunda seção, "O que isso significa", especula sobre as consequências das tendências em ordem decrescente de certeza – de quase certo, provável, possível, a poucas chances. O modo subjuntivo domina essa seção. "Poderia" e "deveria" aparecem frequentemente, junto com seus companheiros de viagem "talvez" e "possivelmente". As tendências demográficas podem parecer sólidas, mas elas se reverteram no passado. Uma pandemia ou duas poderiam fazer o mesmo no futuro.

A dieta subjuntiva pode se tornar cansativa. Mas ela deixa claro que forças estão em jogo lá fora, de uma forma totalmente imprevisível. Elas são forças verdadeiramente grandes, com uma mudança errática em seu núcleo. Curingas e cartas surpresa abundam nesse jogo. Talvez essas tendências não irão, no fim, gerar o equivalente eclesial ao Big Bang, mas certamente devem chegar perto.

O livro validou o que eu acredito ser o significado mais duradouro do Concílio Vaticano II (1962-65). Em seu maior objetivo, o Concílio tentou fazer com que a Igreja enfrentasse o mundo da forma como ele é e então lidar com ele da forma como é. Ele tentou desfazer a nostalgia das "idades da fé" medievais, da ordem do mundo perfeito que prevaleceu antes da Revolução Francesa e de outras ilusões históricas.

A Igreja decidiu encarar os fatos do "mundo moderno", incluindo o pluralismo cultural e religioso e todos os enigmas que a ciência moderna nos impôs com relação a nossas origens, nossa sobrevivência e nosso bem-estar.

Enfrentar os fatos é exatamente o que Allen está pedindo que a Igreja faça – que nós façamos.

O livro também confirma uma verdade básica sobre a trajetória histórica da Igreja: o que acontece fora da Igreja é mais importante para ela do que aquilo que acontece dentro. As reformas da Igreja como a Controvérsia da Investidura do século XI, o Concílio de Trento no século XVI e o Vaticano II no século XX foram mudanças introduzidas na vida e na prática da Igreja pelos líderes da Igreja e operacionalizadas por eles. Essas mudanças, embora importantes, podem parecer quase insignificantes em comparação com o impacto de coisas como o reconhecimento da Igreja por Constantino no século IV ou algo tão mundano no século XIX como a invenção do telefone.

"The Future Church" não é uma leitura casual para a hora de dormir. Sua mensagem requer uma mente alerta, disposta a digerir informações e a compreender complexidades. Allen acredita, e eu também, que o impacto dessas tendências, independentemente de como elas irão ocorrer concretamente, requer um novo tipo de coragem de nossa parte. Ele requer coragem "para pensar além dos interesses de nossa própria tribo católica", a coragem de se levantar para um novo horizonte, que também é católico. Ler o livro é, em si mesmo, um primeiro passo.

John L. Allen Jr.


A dimensão horizontal da Igreja

Publicamos a seguir um trecho do livro do vaticanista norte-americano John L. Allen Jr. (foto), intitulado "The Future Church: How Ten Trends Are Revolutionizing the Catholic Church" [A Igreja do futuro: Como dez tendências estão revolucionando a Igreja católica] (Ed. Doubleday Religion, 2009). O texto foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 10-11-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS



O jesuíta e sociólogo norte-americano Pe. John Coleman observou que, apesar de seus ricos recursos intelectuais e humanos, o Catolicismo desempenhou um curioso papel "subalterno" em grande parte dos debates contemporâneos sobre globalização, com a única exceção talvez no Jubileu do ano 2000, com a campanha pelo cancelamento da dívida. Na tentativa de dar conta desse desajuste entre o potencial da Igreja e seu impacto real, Coleman cita um estudo sobre ONGs de 1998, intitulado "Activists Beyond Borders" [Ativistas além das fronteiras], de Margaret Keck e Kathryn Sikkink, que defende que hoje os atores mundiais de sucesso geralmente são redes políticas frouxamente organizadas e sem múltiplas camadas de comando. Talvez, sugere Coleman, o modelo de organização hierárquico do Catolicismo não possui a flexibilidade necessária para se manter no intenso ritmo em que as coisas mudam em um mundo globalizado.

Para ser franco, o Catolicismo tem sim uma ampla variedade de atores horizontais de sucesso, na forma de ordens religiosas, movimentos leigos e uma ampla variedade de coalizões de base. Quando esses sujeitos somam forças, eles podem produzir resultados surpreendentes. Um exemplo disso surgiu nos debates nos Estados Unidos sobre o destino de Terri Schiavo, a mulher da Flórida em um estado vegetativo persistente que morreu em 2005 depois que seu suporte vital foi removido. Grande parte da energia católica em favor de manter Schiavo viva veio não das lideranças oficiais da Igreja, mas sim de uma ampla variedade de grupos pró-vida e movimentos formados largamente pela Internet para esse fim. Independentemente do posicionamento que se possa ter sobre essa instância, o fato ilustra a capacidade de um Catolicismo horizontal energizado mobilizar opiniões e obter resultados. Nesse caso, o movimento não evitou a morte de Schiavo, mas gerou um exame de consciência nacional em torno de questões sobre o fim da vida, que ainda é um trabalho em andamento.

Porém, Coleman indica que essa dimensão horizontal do ativismo católico continua subdesenvolvida, pelo menos em comparação com as estruturas verticais da Igreja. Remediar esse déficit não é primeiramente uma tarefa para a hierarquia. De fato, em muitos casos, sua contribuição mais valiosa pode ser ficar fora do caminho. A construção de um setor horizontal mais convincente e articulado na Igreja sobre questões esboçadas acima depende de uma parcela crescente de católicos leigos, especialmente da ampla maioria que não pertence a nenhum movimento ou grupo formais, que assumam sobre si a tradução de sua fé em ação. O autêntico Catolicismo horizontal não pode vir à existência por meio de um "fiat" hierárquico. Ele deve brotar das bases, refletindo uma determinação popular para que algo seja feito.

Esperar que o Vaticano ou os bispos ajam, ou culpá-los por fazer da forma errada, não é suficiente. É o cúmulo do clericalismo acreditar que tudo na Igreja depende de seu clero, ou que nada de útil pode ser feito até que Roma vire uma nova página. Essa posição lê erroneamente tanto a teoria quanto a prática de como a mudança funciona na Igreja. Quando todo o resto é removido, a responsabilidade principal da hierarquia é assegurar que, quando Cristo voltar, a fé ainda possa ser encontrada sobre a Terra. Por definição, de muitas maneiras, esse é um papel conservador, cauteloso, defensivo. Esperar também que a hierarquia seja o "agente de mudança" primordial no Catolicismo, a fonte principal de sua visão e de sua nova energia, é tanto injusto quando irreal. Emprestando-me de uma metáfora esportiva, é como esperar que a defesa marque todos os pontos. Quando um bispo se apresenta como um visionário, deveríamos receber isso como uma graça, mas esperar que isso seja o curso normal dos fatos é uma prescrição de azia.

Na realidade, a mudança no Catolicismo infiltra-se tipicamente pelas bases e então é sujeita a um longo período de discernimento teológico e espiritual em múltiplos níveis, bem antes de ser ratificada e assimilada pela hierarquia. A Igreja gerou ordens medicantes nos séculos XII e XIII, por exemplo, não por causa de um decreto papal que assim determinou, mas porque indivíduos criativos como São Domingos e São Francisco viram uma necessidade emergente e responderam a ela. Da mesma forma, a grande explosão de novos ensinamentos e ordens missionárias no século XIX foi o trabalho de católicas e católicos visionários que aproveitaram a iniciativa, geralmente lutando pelas suas vidas com superiores e bispos recalcitrantes, preocupados sobre aonde as coisas iriam parar.

A realidade simples é que, se o Catolicismo deve gerar a imaginação requerida para enfrentar os desafios das tendências que pesquisamos, essa não é principalmente uma tarefa para a hierarquia. Ela deve ser desenvolvida em comunhão com as lideranças da Igreja, claro, mas não pode depender delas. Pensar de outra forma é sucumbir a uma espécie de "eclesiologia lilás", na qual a Igreja é reduzida aos seus bispos. Sim, os bispos às vezes podem abusar de sua autoridade e podem reprimir artificialmente energias criativas. Sua precaução natural às vezes se traduz em rigidez ou fechamento. Em última instância, porém, o tempo e as marés não podem ser parados, e as boas ideias irão perdurar independentemente de qual seja a sua recepção inicial pelos poderes.

A questão real, entretanto, não é se os bispos estão à altura dos desafios do século XXI. A questão é se o resto de nós está.

15/11/2009

'Dom Romero e tu': Carta de Jon Sobrino a Ignacio Ellacuría


Publicamos aqui a carta póstuma do jesuíta e teólogo espanhol Jon Sobrino a Ignacio Ellacuría, um dos seis jesuítas assassinados em El Salvador, há 20 anos. Na verdade, segundo ele, esta é uma homenagem principalmente a Julia Elba e Celina, a funcionária da residência dos jesuítas e sua filha de 15 anos, que também foram assassinadas naquele 27 de outubro de 1979, na UCA, Universidad Centroamericana José Simeón Cañas. "Elas são o símbolo de centenas de milhões de homens e mulheres que morreram e morrem inocente e indefesamente aqui, no Congo, na Palestina, no Afeganistão, sem que ninguém faça muito caso delas", afirma. A carta foi publicada no sítio Religión Digital, 27-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto Fonte: UNISINOS


Dom Romero e tu

Querido "Ellacu": Este ano é o 20º aniversário do seu martírio e logo chegará o 30º de Dom Romero. Cabe-nos falar de vocês com frequência, com responsabilidade especial e também com algum escrúpulo. Vocês, os jesuítas, são mártires bem conhecidos, mas Julia Elba e Celina, nem tanto. Porém, elas são o símbolo de centenas de milhões de homens e mulheres que morreram e morrem inocente e indefesamente aqui, no Congo, na Palestina, no Afeganistão, sem que ninguém faça muito caso delas.

Praticamente, elas não existem, nem em vida, nem em morte, para as sociedades da abundância. E a instituição Igreja também não sabe o que fazer com tantas pessoas que morreram assassinadas. Se é difícil que canonizem um mártir da justiça como Dom Romero, muito mais difícil é que canonizem esses homens e mulheres que viveram e morreram em pobreza e opressão. E, no entanto, muitas vezes te ouvi dizer que eles são "os preferidos de Deus".

Deveria escrever-te, pois, sobre Julia Elba e Celina, mas conheço pouco delas. De Julia Elba, sei que passou trabalhando toda a sua vida nas podas, na cozinha. E tudo isso desde que tinha 10 anos. Não sei muito mais sobre ela. Sim, me perguntei "quem é mais mártir, Ellacuría ou Julia Elba", e seria terrível que os mártires jesuítas fizessem esquecer dessas duas mulheres que morreram assassinadas a 50 metros do jardim de rosas. Nesses dias, escrevi que "Ellacuría não viveu nem morreu para que o esplendor de sua figura opacasse o rosto de Julia Elba". Ellacu, este é o escrúpulo.

Mas Julia Elba e muitas mulheres salvadorenhas como elas me perdoarão, talvez até se alegrarão, pelo fato de que nesta carta eu te fale sobre o nosso Monsenhor, pois elas não têm ciúmes de uma pessoa muito querida. E eu a intitulei: "Dom Romero e tu". Minha intenção é ajudar as novas gerações, àqueles que não sobra orientação cristã e salvadorenha. Que saibam que uma vez houve um país e uma Igreja extraordinária: a de Dom Romero. E tu és um mistagogo de luxo para introduzir-nos em sua pessoa. Por isso, vou recordar como vocês dois se relacionaram.

As pessoas sabem que os dois foram eloquentes profetas e mártires. Mas gosto de lembrar outra semelhança importante sobre como começaram. Os dois receberam uma tocha cristã e salvadorenha e, sem discernimento algum, fizeram a opção fundamental de mantê-la ardendo. Monsenhor recebeu-a de Rutilio Grande na noite em que o mataram. E, morto Monsenhor, tu a retomaste. É verdade que tu já tinhas começado antes, mas após seu assassinato tua voz ficou mais poderosa e começou a soar mais como a do Monsenhor. Ouvi uma senhora dizer na UCA: "Desde que mataram o Monsenhor, ninguém aqui no país falou como o Pe. Ellacuría".

O que me interessa recordar e reforçar é que, em El Salvador, existiu uma tradição magnífica: a entrega e o amor aos pobres, o enfrentamento aos opressores, a firmeza no conflito, a esperança e a utopia que passavam de mão em mão. E, nessa tradição, resplandecia o Jesus do evangelho e o mistério de seu Deus. Não podemos dilapidar essa herança e devemos fazer com que ela chegue aos jovens.

O início de tua relação com Dom Romero não foi positiva. No começo dos anos 70, tu já eras conhecido como um perigoso jesuíta de esquerda por tua defesa da reforma agrária, o apoio à greve dos professores da Andes [Associação Nacional de Educadores Salvadorenhos] e a análise da fraude eleitoral de 1972. Mas com o teu livro "Teologia Política", de 1973, começaste a tocar temas mais explicitamente cristãos: salvação e história, o messianismo de Jesus, a missão da Igreja, violência e política... E mesmo que no país não se falasse ainda de teologia da libertação – e de como seus defensores eram perigosos –, os bispos se assustaram com o Ellacuría teólogo que emergia com força. E coube a Dom Romero escrever uma crítica de sete páginas sobre o teu livro. Fez isso em tom sério e educado, diferentemente da crítica que chegou de um teólogo de uma cúria romana, chamado Garofallo. O primeiro encontro entre vocês foi um choque.

As coisas seguiram seu curso. Tu, com ciência e profecia, e às vezes com humor e ironia. Em uma pequena revista da UCA, escreveste um breve artigo com este título: "Um bispo disfarçado de militar e um núncio disfarçado de diplomata" – os da minha geração saberão a quais hierarcas tu te referias. Não era o teu estilo, mas sim a tua convicção.

Assim chegou 1976. Dom Luis Chávez y González, benemérito e bom amigo, depois de 38 anos, deixava a responsabilidade da arquidiocese. Na ECA [revista da UCA], reunimo-nos para escrever um editorial sobre um assunto tão importante: "Quem será o novo arcebispo". Apoiamos Dom Rivera e nos distanciamos criticamente daquele que parecia ser um possível candidato: o bispo Oscar Arnulfo Romero. A eleição, certamente, deu errado para o Vaticano, e mais tarde tu escreverias que "Dom Romero não foi eleito para que fosse o que foi; foi eleito quase para o contrário".

Chegaram a conversão do Monsenhor e uma profunda mudança em tua relação com ele. Quando, em março de 1977, mataram Rutilio, tu estavas na Espanha e, de Madri, no dia 09 de abril, lhe escreveste uma carta, que chegou em minhas mãos, por casualidade, muitos anos depois. Publicamo-la em "Carta a las Iglesias", março de 2006.

"Tenho que vos expressar, em minha modesta condição de cristão e sacerdote de vossa arquidiocese, que me sinto orgulhoso de vossa atuação como pastor. Deste longínquo exílio, quero mostrar-vos minha admiração e respeito, porque vi, na ação de Vossa Eminência, o dedo de Deus. Não posso negar que vosso comportamento superou todas as minhas expectativas, e isso me produziu uma profunda alegria, que quero comunicar-vos neste sábado de gloria".

Ellacu, essa carta é um dos teus textos mais bonitos. Falas com Monsenhor com total verdade e te mostras em facetas desconhecidas para quem só te conheceu como professor e reitor. Depois do assassinato de Rutilio, lhe agradeces por "vossa valentia e prudência evangélicas diante de claras covardias e prudências mundanas", pelo acerto ao "ouvir todos, mas decidindo o que parecia ser mais arriscado a olhos prudentes". Referias-te à missa única, à supressão das atividades nos colégios católicos, a promessa do Monsenhor de não participar de nenhum ato oficial... Felicitas-lhe: "O senhor fez Igreja e fez unidade na Igreja". A maioria do clero, religiosos e religiosas se aglutinaram ao redor do Monsenhor. E tu voltas a lhe desejar no final: "Se conseguirdes manter a unidade de vosso presbitério mediante vossa máxima fidelidade ao evangelho de Jesus, tudo será possível".

Na carta, aparece a dialética evangélica e inaciana, recorrente em ti: "conseguistes não pelos caminhos da bajulação ou da dissimulação, mas sim pelo caminho do evangelho: sendo fiel a ele e sendo valente com ele". "Não poderíeis ter começado melhor a fazer Igreja". Eu também escrevi que, mesmo que tudo parecia ter começado muito mal para Monsenhor, tudo começava muito bem. E assinaste: "Este membro da arquidiocese, que agora se vê afastado contra a sua vontade".

Quando voltaste em 1978, te colocaste, com entrega e devoção, ao serviço do Monsenhor. Escreveste para a YSAX, a rádio do arcebispado, uma longa série de comentários à sua terceira carta pastoral, "A Igreja e as organizações políticas populares". Ajudaste-lhe a redigir a parte central sobre as idolatrias na quarta carta pastoral, "A Igreja na atual situação do país". Em suas últimas semanas, estiveste com ele na coletiva de imprensa depois da homilia dominical, e ele te dava a palavra quando lhe perguntavam sobre a situação política. Com ele estiveste na véspera de seu assassinato, depois daquela homilia irrepetível: "Em nome de Deus e em nome deste sofrido povo, cujos lamentos sobem até o céu, peço-lhes, rogo-lhes, ordeno-lhes, em nome de Deus: cesse a repressão!". E, no funeral, carregaste o caixão. Vemos-te com Walter Guerra, Jesús Delgado e Juan Spain.

O que fizeste pelo Monsenhor não foi simplesmente mais um de teus muitos serviços ao país. Também não o consideraste um serviço estratégico, dada a imensa influência de Monsenhor. Dom Romero chegou a ser para ti alguém muito especial, diferente de como havia sido Rahner ou Zubiri. Ele se meteu dentro de ti e tocou tuas fibras mais profundas. Eu tive essa sensação desde o começo. E ficou gravada para sempre em tua homilia na missa de funeral que tivemos na UCA. Nela, disseste: "Com Dom Romero, Deus passou por El Salvador".

Muitas vezes citei essas palavras, Ellacu. São muito tuas, pela precisão da linguagem e pelo peso do conceito. Conhecendo-te, estavas dizendo a verdade. E uma verdade teologal: neste El Salvador, massacrado e esperançado, teimoso e valente, cruel e generoso, sentiu-se a passagem do mistério. A passagem de Deus. Por isso, Dom Romero se converteu para ti em referência de Deus e em princípio e fundamento de tua teologia. Vou recordar disso brevemente.

Comecemos com a eclesiologia. O "povo de Deus" não era um tema qualquer e menos ainda quando o Vaticano II já estava em declive, e a hierarcologia voltava a ressurgir. Sobre ele, escreveste um artigo sistemático em 1983, mas antes, em 1981, tinhas escrito: "El verdadero pueblo de Dios, según Monseñor Romero". Não tentavas analisar as ideias de algum teólogo importante, mas sim ir ao fundo do problema a partir da fonte que tu tinhas mais à mão e que te parecia a mais frutífera.

Mencionaste quatro características do verdadeiro povo de Deus:

- A opção preferencial pelos pobres;

- A encarnação histórica das lutas do povo pela justiça e pela libertação;

- A introdução do fermento cristão nas lutas pela justiça;

- A perseguição por causa do reino de Deus na luta pela justiça.

Nem toda a novidade provinha do Monsenhor, mas a mais nova, por assim dizer, as três últimas características, provinham dele. Pelo menos, Dom Romero te fez aprofundar nelas.

Monsenhor te pôs na pista da "Igreja dos pobres", que nem sequer no Concílio teve êxito, apesar dos desejos de João XXIII, do cardeal Lercaro e de alguns poucos bispos. E certamente te inspirou a falar do martírio, realidade fundante para a Igreja, como a cruz de Jesus. Várias vezes citaste umas palavras escandalosas de Dom Romero: "Alegro-me, irmãos, que a Igreja seja perseguida. É a verdadeira Igreja de Cristo. Seria muito triste se, em um país onde está se assassinando tão horrorosamente, não houvesse sacerdotes assassinados. São o sinal de uma Igreja encarnada". Melhor e mais profundamente do que com muitos conceitos, Monsenhor define a Igreja a partir de duas relações essenciais: com o destino de Cristo e com o destino do povo. Alguém, com boa intenção, questionou uma vez o fato de que Dom Romero corresse tantos riscos, até de sua vida. Mas tu lhe respondeste: "Isso é o que ele tem que fazer". E isso é o que tu também fizeste com a tua vida. A eclesiologia não era um conjunto de conceitos tomados da realidade com alfinetes, mas sim surgidos dela.

Em cristologia, coincidiste com Monsenhor em muitas coisas. Só vou recordar uma, para mim a mais decisiva hoje, certamente no terceiro mundo, mas também no primeiro: ver Cristo no povo crucificado, considerar este como a continuação do servo de Javé. São hoje as centenas e milhares de milhões de pobres, famintos, oprimidos, mortos violentamente, massacrados, inocentes e indefesos, desconhecidos em vida e em morte. Com eles, comecei esta carta ao recordar de Julia Elba e Celina.

Em 1978, em preparação para Puebla, escreveste "El pueblo crucificado. Ensayo de soteriología histórica", em que analisas a realidade dos pobres e vítimas como o servo sofredor de Javé. Em 1981, em teu segundo exílio de Madri, escreveste "El pueblo crucificado como 'el' signo de los tiempos". No primeiro texto, reforças seu caráter salvífico. No segundo, seu caráter de revelação.

Dom Romero disse em 1977, em Aguilares, aos agricultores perseguidos e assassinados: "Vocês são o divino Transpassado". E, em uma homilia de 1978, mostrou sua alegria porque os estudiosos do Antigo Testamento não sabiam dizer se o servo, do qual Isaías fala, é "todo um povo" ou é "Cristo que vem libertá-los".

Não sei dizer "quem copiou quem" ou se aconteceu como com Leibnitz e Newton, que descobriram os fundamentos do cálculo infinitesimal independentemente um do outro. O que, sim, me parece certo é que vocês tiveram a mesma assombrosa intuição de equipar a humanidade sofredora com o crucificado e o servo de Javé. E, pelo que eu sei, só vocês dois. Isso não aparece em encíclicas, nem em concílios. Normalmente, também não nas teologias. E depois que vocês morreram, parece que não há vigor nem rigor para falar assim de um mundo que hoje está evidentemente crucificado.

E uma coisa mais. Em teu segundo exílio, escreveste outro breve texto ao qual deste muita importância: "Por qué muere Jesús y por qué lo matan". O título é mais do que uma demonstração de gênio. Trata-se de esclarecer o sentido transcendente dessa morte e de suas causas históricas. Em teologia, podem-se encontrar reflexões afins, mas não assim, certamente não com essa radicalidade, em textos oficiais da Igreja. Para o primeiro, é preciso ter presente, antes de tudo, o desígnio de Deus. Para o segundo, é preciso ter em conta a historicidade radical da vida de Jesus: defensor daqueles a quem os poderosos ofendem. Por essa razão, Jesus denunciou o poder, entrou em conflito com ele, perdeu e foi crucificado. Isso, tão evidente, costuma ser oficialmente silenciado – inclusive em Aparecida, um bom documento por causa de outros capítulos.

Dom Romero não silenciou isso. Na missa fúnebre de um dos sacerdotes assassinados, ele disse peremptoriamente: "Mata-se quem incomoda". E os que incomodavam não eram demônios ou poderes transcendentes, mas sim oligarcas, militares, órgãos de segurança, esquadrões da morte. Assim se entende o "por que mataram Jesus", como tu perguntavas.

Termino com a teologia, com Deus e com tua fé. Na primeira carta, te escrevi que a tua fé em Deus não pôde ser ingênua. Em 1969, falaste em Madri sobre as dúvidas de fé que Rahner levava com elegância – e entendi que dizias algo parecido sobre ti mesmo. Acredito que lutaste com Deus como Jacó, naqueles anos duros para a fé. E, aos teus 47 anos, Dom Romero "apareceu" a ti – e uso o termo "aparecer", opthe, conscientemente, para expressar o que houve nisso de inesperado, desorientador, questionador e bem-aventurado. Disso, só se pode falar com temor e terror, mas penso que, em contato com Monsenhor, tiveste uma experiência nova da realidade última, de Deus. E acredito que isso se notou em teu falar sobre Deus.

Escrevi que, para Jesus, Deus é "Pai" em quem se pode descansar, e que o Pai continua sendo "Deus", que não deixa descansar. Em Dom Romero, em sua compaixão para com os sofredores, sua denúncia para defendê-los, o amor sem arranjos, viste o Deus que é "Pai" dos pobres. Em sua conversão, em seu adentrar-se no desconhecido e no não controlável, em seu caminhar sem apoios institucionais eclesiásticos, em seu manter-se firme, fosse aonde o caminho fosse, viste o Pai que continua sendo "Deus". E talvez no Monsenhor também viste que, apesar de tudo, o compromisso é mais real do que o niilismo; o gozo, mais real do que a tristeza; a esperança, mais real do que o absurdo. Assim interpreto suas simples palavras: "Com esse povo, não custa ser um bom pastor". Nelas, surge a utopia.

Termino. Não era a primeira vez que te encontravas com alguém que ia influenciar importantemente em tua vida, como bem analisa Rodolfo Cardenal. No entanto, encontrar-te com Dom Romero significou algo diferente. E essa diferença radica no fato de que te encontraste com a profecia, com a entrega, a bondade do Monsenhor, mas sobretudo com a sua fé, o que configura toda a pessoa. Por isso, nunca te consideraste "colega" do Monsenhor. Nunca ouvi de ti, sendo tu de estilo crítico, uma crítica ao Monsenhor. E em teu nome e no da UCA, disseste que "Dom Romero já se havia adiantado a nós". E insististe: "Não há dúvida sobre quem era o mestre e quem era o auxiliar, quem era o pastor que marca as diretrizes e quem era o executor, quem era o profeta que desentranhava o mistério e quem era o seguidor, quem era o animador e quem era o animado, quem era a voz e quem era o eco". Dizias isso com total sinceridade.

"Dom Romero, um enviado de Deus para salvar o seu povo", escreveste. E o Monsenhor te falou sobre o que há, em Deus, de "mais aqui". Mas também te falou do que há, em Deus, de inefável, de mistério bem-aventurado, do que há, em Deus, de "mais além". "Nem o homem nem a história se bastam. Por isso, [o Monsenhor] não deixava de chamar à transparência. Em quase todas as suas homilias, saía este tema: a palavra de Deus, a ação de Deus rompendo os limites do humano". Dom Romero veio ser como o rosto de Deus em nosso mundo.

Ellacu, termino esta carta com as palavras com as quais terminaste teu último escrito de teologia. São para aqueles que não te conheceram, para todos os que te conheceram e especialmente para que ajudem que a Igreja retome o seu rumo.

"A negação profética de uma Igreja como o velho céu de uma civilização da riqueza e do império e a afirmação utópica de uma Igreja como o novo céu de uma civilização da pobreza é um clamor irrecusável dos sinais dos tempos e da dinâmica soteriológica da fé cristã historizada em homens novos, que continuam anunciando firmemente, mesmo que sempre às escuras, um futuro sempre maior, porque, além dos sucessivos futuros históricos, se vislumbra o Deus salvador, o Deus libertador".

Dom Vincenzo Paglia


Romero, santo pela liberdade

Dom Vincenzo Paglia, arcebispo de Terni, recém voltou de El Salvador. Lá naquele país de diversas belezas, os salvadorenhos vão agora às praças há meses. O que querem? Simplesmente, querem dar uma acelerada no processo de beatificação de Dom Óscar Arnulfo Romero. E sobre essa questão que envolve amor e liturgia, vão periodicamente às praças "para exigir que o Estado peça perdão publicamente pela morte assassina de Dom Romero". A reportagem é de Igor Man, publicada no jornal La Stampa, 13-11-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Fonte: UNISINOS


Como excelente diplomata, Dom Paglia diz e não diz, buscando tranquilizar um pouco todos. Romero foi nomeado arcipreste de San Salvador com a permissão das 14 famílias salvadorenhas que o consideravam um "padre alinhado". Mas um longo reconhecimento de fiéis de sua confiança o convenceu a descer à realidade – verdadeira –, e foi assim que a sua homilia dominical assumiu o papel de uma denúncia, mas cristã, de uma acusação dos parafascistas da Arena.

Em resumo: sob o impulso de uma opinião popular sempre mais forte, a homilia de Dom Romero se tornou uma espécie de apontamento da esperança, uma denúncia corajosa das intrigas do poder.

Nunca se havia visto a catedral transbordando em El Salvador, nunca a denúncia do celebrante foi tão participativa. O pequeno escritório de Romero na catedral se transformou em sucursal do Correio.

A quem lhe recomendava "prudência, prudência", Romero respondia sereno: "Mas no máximo poderão me tirar. E daí?". Embedidos de ódio, os neofascistas da Arena decidiram em um encontro mafioso que "apagariam a vela". E a morte de Romero foi marcado. No dia 24 de março de 1980, o major d’Aubuisson e dois assassinos irromperam na capela de uma clínica privada. Dom Romero não piscou e, exatamente enquanto elevava a hóstia da comunhão, o assassino disparou. Um só tiro, um só cartucho que acertou a veia jugular de Dom Romero.

O sacerdote curvou-se sobre si mesmo na vã tentativa de proteger a hóstia – e com ela entre os dedos, caiu. O seu sangue de agricultor manchou os paramentos.

A morte de Dom Romero foi o prelúdio, o longo prelúdio do retorno. Simplesmente para a liberdade. Teoricamente, a guerra prolongada saiu da porta de serviço, mas de fato não terminou.

El Salvador é um país mártir, porque, se é verdade que não se combate mais e que há um Parlamento etc., também é verdade que quem comanda são sempre as 14 famílias, habilíssimas em perpetuar uma espécie de pós-moderno medieval, em que imperam os senhores, e os agricultores labutam, labutam sempre, em troca de escassas mercadorias. E, lenta, aparece a justiça social.

Na sua última homilia na catedral, Dom Romero concluiu assim, com a voz destroçada de emoção: "Os Estados Unidos colocam as armas. A URSS coloca as armas. El Salvador coloca os mortos. Em nome de Deus: deixem-nos a sós".

No dia seguinte, 24 de março de 1980, o major d’Aubuisson o matava, durante a Elevação.

10/11/2009

Ignacio Ellacuría. Um pensador, negociador e cristão



No dia 09 de novembro de 2009, Ignacio Ellacuría, filósofo e teólogo jesuíta, assassinado como reitor da Universidade Centro Americana - UCA - de El Salvador, em 1989, completaria 79 anos. Ana Formoso, doutoranda em teologia e colaboradora do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, é autora do artigo "Na fragilidade de Deus a esperança das vítimas. Um estudo da cristologia de Jon Sobrino", publicado pelos Cadernos Teologia Pública, no. 29, que recorda a vida e o martírio de Ellacuría. O Instituto Humanitas Unisinos - IHU, celebrará a memória do martírio de Ignacio Ellacuría e companheiros e das duas mulheres, no dia 10 de dezembro de 2009, com a apresentação do debate "Memory and Its Strength: The Martyrs of El Salvador" [A memória e sua força: Os mártires de El Salvador], que irá ocorrer no Boston College, nos Estados Unidos, no dia 30 de novembro. Participam do debate Noam Chomsky, Jon Sobrino e J. Donald Monan.
Fonte: UNISINOS



No meio acadêmico, um importante filósofo e teólogo, na sociedade civil, um negociador para pôr fim à guerra, tudo isto por um homem que buscou a justiça junto com seu povo e sua comunidade acadêmica.

Ignacio Ellacuría, um homem que soube contribuir com as ciências, especialmente a filosofia e teologia, e, com lucidez, buscou junto à comunidade dar respostas aos desafios sociais de El Salvador. Não temos pessoas sozinhas, temos um grupo de pessoas que dedicaram tempo, estudo, reflexão, oração e escuta às pessoas mais injustiçadas. Como reitor, buscou conduzir a universidade com pesquisa, reflexão e, sobretudo, colaborar para resolver os problemas sociais.

Não se pode entender Ellacuría sem Xavier Zubiri e sem Karl Rahner. A filosofia de Zubiri ajudou a buscar sempre a relação que há entre a inteligência e a fé. A questão em Zubiri não consiste tanto em saber se nosso pensamento encontra algo que possa designar por Deus, mas em qual via concreta se coloca seu acesso e qual é o problema a que corresponde. As provas clássicas da existência de Deus se moviam em esquemas puramente objetivistas. Por isso, Zubiri sentiu a necessidade de uma nova fundamentação para o tema de Deus. Não é o espaço para um desenvolvimento do pensamento de Zubiri, mas compreender como este autor marcou o pensamento de Ellacuría. Para ele, o problema de Deus já está dado na realidade pessoal do homem. O homem descobre Deus a partir desta realidade e como meio de realização de seu viver. Desenvolve uma nova “via de religação”, da qual vislumbramos as verdadeiras consequências. Zubiri opõe-se a qualquer concepção de Deus como algo alheio ao mundo. Deus se manifesta no mundo, fundamentando a realidade última das coisas, e, ainda que racionalmente, é preciso estabelecer seu caráter transcendente. Trata-se de uma transcendência na realidade – nunca fora dela.

Karl Rahner (1904-1984) é considerado um dos maiores teólogos católicos do século XX. Seu pensamento se caracteriza pela seriedade do pensar, preocupou-se com definições de abertura ecumênica e diálogo inter-religioso. Os escritos de Ellacuría, de Sobrino e de Rahner refletem uma pergunta que tem que continuar sendo feita: O que é ser cristão/a e como se pode realizar esse estilo de vida com honestidade intelectual?

Zubiri, uma transcendência na realidade, Rahner escreveu um artigo memorável que “a realidade quer tomar a palavra”. Na expressão de Sobrino, se me permitem um jogo de palavras, se “a palavra se fez realidade (carne, sarx), a realidade quer fazer-se palavra” (Sobrino, p.76, 2007). Ellacuría insistiu que há sempre um sinal dos tempos que é principal: o povo crucificado. Este conceito tem um vigor conceitual hoje perdido na descrição da realidade, e, muitas vezes, banalizado. “Crucificado”, na realidade, tem a conotação de: a) conceitualmente morte, não simples dano, limitação ou carência; b) “provocar a morte” – não morte natural; c) uma “morte infame e injusta”; d) afinidade com Jesus e seu destino, importante a partir da perspectiva da fé, como o que se eleva à realidade última- teológica – a realidade de grande parte da humanidade .

A realidade dos povos crucificados nos interpela? A natureza que está sendo crucificada nos interpela? Assim podemos seguir fazendo-nos perguntas. O pensamento de Ellacuría nos interpela a olhar a realidade com honestidade intelectual e social.

Termino com as palavras de Ignacio Ellacuría que usou com precisão conceitual ao falar do que deve ser e fazer uma universidade:

A universidade deve encarnar-se entre os pobres intelectualmente para ser ciência dos que não têm voz, o respaldo intelectual dos que, na sua própria realidade, têm a verdade e a razão, embora, às vezes, seja à maneira de despojo, mas que não contam com as razões acadêmicas que justifiquem e legitimem sua verdade e sua razão” .