04/07/2010

Entrevista - Faustino Teixeira

Teologia Pluralista e Teologia da Revelação.

O Prof. Dr. Faustino Teixeira (foto) é coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). O teólogo é também pesquisador do ISER-Assessoria (RJ) e consultor da Capes. Fez o doutorado e o pós-doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Itália). Fonte: UNISINOS



IHU On-Line – Que avaliação você faz do desenvolvimento da teologia do pluralismo religioso e do diálogo inter-religioso dos últimos anos? Quais os principais avanços e limites?

Faustino Teixeira – A teologia do pluralismo religioso vem buscando responder a um dos mais importantes desafios do século XXI: como acolher com respeito a pluralidade religiosa. Aos poucos vem firmando a convicção de que o pluralismo religioso é uma realidade de princípio, não um dado contingencial, inserindo-se no misterioso desígnio de Deus para a humanidade. Temos um núcleo de teólogos que defendem com firmeza esta perspectiva, entre os quais podemos destacar o pioneirismo de Raimond Panikkar, Edward Schillebeeckx, Jacques Dupuis, Claude Geffré, Michael Amaladoss, John Hick, entre outros. É um tema que vem envolvendo também a reflexão da teologia da libertação, e o fruto mais decisivo nesse sentido é a coletânea de cinco volumes, Pelos muitos caminhos de Deus, organizada pela ASET.

O fato do Congresso da SOTER organizar uma mesa sobre o tema, agora em julho, é uma expressão viva desse novo interesse. Gosto de utilizar uma metáfora de Christian Ducquoc para situar a questão: a “sinfonia adiada”. Trata-se de um recurso por ele utilizado para romper com a ingênua idéia de um plano divino magistral que estaria conduzindo as outras tradições religiosas para um único aprisco. No âmbito da teologia católica conhecemos de perto esta perspectiva de uma “teologia do acabamento”, que não consegue ver nas outras religiões senão “marcos de espera” para uma inserção “purificadora” no cristianismo. Esta “obsessão pela unidade” pode, em verdade, obstruir ou ocultar o caráter enigmático que preside a diversidade inter-religiosa. De fato, a verdade da religião não se condensa numa única tradição religiosa, mas na sinfonia que preside a sua interação.

O estar sintonizado com a reflexão mística inter-religiosa tem-me ajudado muito a lidar distintamente com essa diversidade religiosa, com abertura, acolhida e delicadeza. Sigo as pistas abertas pelo grande místico sufi andaluz, Ibn´Arabi (1165-1240), que nos adverte para o risco de nos fixarnos exclusivamente num credo particular, sem atenção devida aos sinais de Deus que acontecem por todo canto e a todo momento. A seu ver, com esse fechamento acabamos deixando escapar inúmeros bens, ou mesmo a própria “Ciência da Verdade”. Há um ponto luminoso que preside toda diversidade religiosa, e não podemos perdê-lo de vista exclusivizando nosso olhar numa única perspectiva. A questão do diálogo interreligioso está intimamente vinculada a essa questão. Defendo a idéia de que a abertura ao pluralismo de princípio é um requisito essencial ao diálogo inter-religioso. Não se pode apagar o “mistério pessoal intransponível” que habita o mundo do outro. Há algo de irredutível e irrevogável no âmbito da alteridade, e o diálogo interreligioso traduz o aprendizado ou o intercâmbio de dons que acontecem nessa “viagem fraterna” de interlocutores distintos em sua busca pelo Mistério sempre maior.

IHU On-Line – Considerando a persistência e, às vezes, aumento dos conflitos étnico-raciais no mundo, quais as chances de eficácia dos múltiplos esforços pelo diálogo inter-religioso nos últimos anos?

Faustino Teixeira – Em obra recente sobre a globalização, democracia e terrorismo (2007), o historiador britânico, Eric Hobsbawm, mostrou com pertinência que o século XX foi “o mais mortífero de toda a história documentada”. Assinala que o montante de mortes causadas pelas guerras do período ou a elas associada vem estimado em 187 milhões de pessoas. Foi também um século marcado por fome, violência e devastações: uma história perturbadora de trânsito de grandes contingentes humanos fugindo da pobreza, da repressão e das guerras. Não há mudanças substantivas em nosso século XXI e agora acrescentam-se novos e complexos desafios como os relacionados à escassez da água e de alimentos e a afirmação crescente de identidades que se revelam agressivas (ou mesmo mortíferas) e impermeáveis. Nada mais atual que o princípio programático defendido por Hans Kung e levado à frente pela Fundação Ética Mundial: “Não há paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não há paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões.

Não há diálogo entre as religiões sem uma busca dos fundamentos das religiões”. Temos hoje importantes iniciativas no campo do diálogo interreligioso (DIR). Em âmbito mais institucional temos, no lado católico, a atuação do Pontifício Conselho para o Diálogo Interreligioso (PCDI), e citaria aqui o papel do Comitê conjunto para o DIR deste Conselho com o Comitê Permanente de Al-Azhar. Da parte dos muçulmanos, menciono a importante Mensagem Interreligiosa de Aman e outras iniciativas como a carta dos 138 teólogos muçulmanos a Bento XVI e os responsáveis cristãos. Em âmbito acadêmico, podem ser lembradas as atuações da Fundação Ética Mundial e do Grupo de Pesquisa Islamo-cristão (GRIC), fundado na França em 1977. Outras iniciativas acontecem no âmbito do diálogo da experiência religiosa: o Diálogo Interreligioso Monástico, o Caminho da Paz (envolvendo Dalai Lama e Laurence Freeman), a Comunidade de Santo Egídio (Itália). No Brasil temos o singular trabalho exercido pelo CESEP, com importantes incursões no campo do DIR, e o bonito trabalho realizado pelo Programa Gestando o Diálogo Interreligioso e o Ecumenismo (GDIREC), da Unisinos. Podemos também lembrar a atuação de expoentes dialogais como Monja Coen e Marcelo Barros. Mas há ainda muito o que fazer no Brasil nessa área.

O sucesso do empreendimento dialogal vai depende do efetivo empenho dedicado a seu favor. As chances são imensas, apesar das resistências ao contrário. É sempre difícil criar uma sensibilidade dialogal em tempos de acirramento identitário. Mas pistas importantes vão sendo levantadas. O fundamento teológico do DIR está no mistério do Deus criador e de sua acolhida amorosa. Busca-se recolher “todas as riquezas da sabedoria infinita e multiforme” do Deus da Vida, escondidos na criação e na história (DM 41 e 22). O DIR revela-se essencial para a vida cristã, e por duas razões fundamentais. É imprescindível para a paz no mundo e uma forma precisa de colocar em prática a lei mais essencial do cristianismo: amar o próximo como a si mesmo (Lc 10,27). É curioso perceber que em iniciativas recentes do DIR, como a Mensagem Interreligiosa de Aman, assinalou-se como traço comum das tradições religiosas proféticas a unidade do amor a Deus e do amor ao próximo.

Em sua encíclica Deus caritas est (2005), Bento XVI enfatizou o nexo indivisível entre esses dois amores. E assinalou que “a afirmação do amor a Deus se torna uma mentira, se o homem se fechar ao próximo ou, inclusive o odiar”. E há hoje que acrescentar o amor à natureza e toda a criação. Deus manifesta-se presente em “toda a vida e no inteiro universo”, é o maravilhoso dinamismo que o sustenta e movimenta a partir de dentro. Como sublinha Hans Kung, Deus é “a inapreensível ´dimensão infinita`em todas as coisas”. Somos nós, em nossa contingência, que não conseguimos captar essa presença. Há que educar o olhar para adentrar-se nesse mistério e nessa maravilha. E aqui toco num campo fundamental para o DIR que é a espiritualidade. É ela que faculta o trabalho interior de desapego e abertura, essenciais para um verdadeiro encontro inter-religioso.

O diálogo deve começar no interior de cada um, criando e favorecendo espaços de hospitalidade. Como mostrou com acerto Leonardo Boff em recente artigo, a espiritualidade é gestadora de uma paz novidadeira, que vem do âmbito da profunidade. É uma paz que “irrompe de dentro, irradia em todas as direções, qualifica as relações e toca o coração íntimo das pessoas de boa vontade. Essa paz é feita de referência, de respeito, de tolerância, de compreensão benevolente das limitações dos outros e da acolhida do Mistério no mundo. Ela alimenta o amor, o cuidado, a vontade de acolher e de ser acolhido, de compreender e de ser compreendio, de perdoar e de ser perdoado”.

IHU On-Line – Que lugar as bandeiras da ética, do futuro sustentável e da paz mundial encontram no fazer teológico latino-americano atual?

Faustino Teixeira – Penso que a reflexão teológica latino-americana deve seguir as inspiradoras pistas lançadas pela Carta da Terra. Ali se diz que “devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz”. Não há meio termo nessa luta essencial: ou formamos essa nova aliança global para cuidar de nosso planeta e lutar contra a dor dos humanos ou arriscamos nossa própria destruição. E aqui acrescento o desafio do diálogo interreligioso e do respeito à diversidade das opções espirituais, religiosas ou não. Há diversos caminhos que conduzem o ser humano ao seu destino e eles devem ser respeitados. Temos que recuperar o significado etimológico de salvação, entendida como uma dinâmica positiva de preservação da integridade do ser humano. Como nos mostra Adolphe Gesché, “salvar é levar alguém até a própria meta, é permitir que ele se realize, que atinja o seu objetivo”. E esta é uma aspiração legítima de todos e não se restringe ao campo das religiões. Trago também à baila a importante declaração em favor de uma ética mundial, lançada no Parlamento da Religiões Mundiais, em 1993 (Chicago). Falou-se ali que a humanidade precisa não apenas de reformas sociais e ecológicas, mas também de uma renovação espiritual, que possa favorecer à vida dos seres humanos uma “fidelidade de fundo” e um “horizonte de sentido”. A nossa reflexão teológica deve estar atenta a tudo isso e aperfeiçoar seu instrumental para avançar nessa direção.

Nesse sentido, penso que o tema do Congresso da Soter foi muito feliz e oportuno. É um tema de grande atualidade e os teólogos não podem passar à margem de suas exigências. Estou muito motivado para participar do evento, verificar as pistas que vão se abrindo na reflexão teológica latino-americana a respeito e partilhar com os amigos as reflexões que venho fazendo nos últimos anos. Estou também animado a participar da mesa específica sobre a teologia do pluralismo religioso junto com Vigil e Queiruga. Estamos juntos nessa desafiadora tarefa de construir uma teologia do pluralismo religioso em sintonia e abertura ao caminhar da teologia da libertação.

José María Castillo

O Deus dos ricos não está em crise

Uma das notícias que mais se comenta hoje na mídia é o surpreendente aumento do número de ricos, em todo o mundo e especificamente na Espanha: 16.000 a mais que em 2008. Ou seja, os ricos aumentaram, em 2009, 12,5% em relação ao ano anterior. O relatório da Merril Lynch Global Health Management entende por ricos os que têm, ao menos, um milhão de euros, sem contar a residência e os gastos de consumo. A reflexão é de José María Castillo e está publicada em seu blog Sin Censura, 23-06-2010. A tradução é do Cepat.
Fonte: UNISINOS



Portanto, quando a crise mais aperta os pobres e os trabalhadores, quando mais aumenta o número de desempregados, acontece que os ricos têm mais sorte e, pelo que dizem os que sabem do assunto, os ricos são cada dia mais ricos.

Dizer isto é o mesmo que dizer que aumenta a violência, a crueldade, a desumanização, o sofrimento e a desesperança de milhões de criaturas. Isto é o pior de tudo. Mas, além disso, o aumento do número de ricos é também um patético indicador religioso. Os cristãos sabem que Jesus disse: “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”. E a razão é clara: “Ninguém pode servir a dois senhores. Com efeito, ou odiará um e amará o outro, ou se apegará ao primeiro e desprezará o segundo” (Mt 6, 24).

A consequência – se é que Jesus tinha razão – é que o Deus dos ricos não está em crise. O que está em crise são a economia e as vítimas da economia de mercado. Mas, o que mais chama a atenção é que precisamente quando o Deus dos pobres se vê mais excluído e desautorizado, o Deus dos ricos está cada vez mais robusto e é mais generoso com os seus fiéis.

E, enquanto isso, a Igreja está pedindo dinheiro. Vemos isso na televisão e o ouvimos nas mensagens publicitárias veiculadas pelas rádios. Os bispos pedem às pessoas para que coloquem o dinheiro na caixa postal da Igreja. É verdade que a Igreja afirma que esse dinheiro é para as suas obras assistenciais e de caridade, que são muitas. Mas, não é só para isso. Sabemos que os bispos que conseguem generosos empréstimos dos bancos, nestes tempos de penúria, para fazer enormes construções, para suas obras enormes. Como os tempos mudaram!

Nos séculos III e IV, o bispo era o encarregado de administrar os bens da comunidade. Mas o bispo (todo bispo) sabia que o sujeito de domínio dos bens da Igreja eram os pobres e desamparados: assim aparece no cânon 25 do Concílio de Antioquia (341). O Papa Gelásio repete a mesma legislação, no final do século V, numa carta aos bispos da Sicília (PL 59, 57). E, sobretudo, a Igreja era, naqueles tempos, sumamente zelosa com algo que agora nos parece incrível: cada bispo era proibido de aceitar doações daqueles que cometiam injustiças. São Basílio não aceitou a oferenda de um prefeito injusto (PG 36, 564). E Santo Epifânio enuncia o princípio geral: “A Igreja aceita as oferendas daqueles que não fizeram mal a ninguém ou não cometeram nenhum crime, mas que se comportam com justiça” (PG 42, 832).

Mas mais exigente que tudo isto é o que ordenava a Didaskalia, documento litúrgico e canônico do século III que dava normas para o comportamento na liturgia e na vida das comunidades. O princípio geral era que “o altar de Deus são as viúvas e os órfãos” (II, 26, 3). Por isso, a obrigação principal do bispo era vigiar com sumo cuidado para que aqueles que cometiam maus-tratos e injustiças não se aproximassem do altar; nem, portanto, podiam dar esmolas para os pobres (II, 17, 1). Nem os que se aproveitavam dos pobres, nem os que pagavam diárias injustas, nem os que tratavam mal os seus trabalhadores..., de nenhum desses indivíduos, o bispo podia aceitar ajudas ou esmolas. Porque “do dinheiro que provém da injustiça, não pode viver o altar de Deus" (IV, 5, 2). Daí que, dos poderosos e dos ricos, que eram os que se ofereciam para dar esmolas, de tais pessoas não se aceitavam ajudas para a comunidade (IV, 8, 3). E esta convicção chegava ao extremo de que, segundo se dizia na mesma Didaskalia, “é preferível morrer de fome do que receber dos iníquos e dos que cometem injustiças” (IV, 8, 2). Este preceito é repetido pelas Constituições Apostólicas, no Oriente, e pelos Statuta Ecclesiae Antiqua, no século V.

Mas os tempos mudaram. Nossa Igreja recebe agora dinheiro de quem quer que seja. E quanto mais, melhor. Evidentemente, o sujeito de propriedade desse dinheiro já não são os pobres. Agora, os pobres estão na porta da Igreja pedindo esmola. O problema está em que cada dia menos gente vai às igrejas de nossa Igreja. O Deus da Igreja está tão em crise quanto os pobres. As pessoas agora vão aos novos templos do Deus dos ricos. Esses templos são os bancos, que, segundo dizem, estão bem protegidos, são seguros e não cambaleiam.

A coisa está clara: o Deus dos ricos está no auge, precisamente quando o Deus dos pobres se debate entre as dúvidas, o descrédito e o ressentimento de muitos cidadãos. Tudo isto tem muito a ver com o sistema econômico que manda em todos nós. Mas aqueles que vão com mais preocupação e fervor aos bancos que às igrejas também têm a sua parte de responsabilidade. E, de passagem, que se perguntem os bispos se eles se sentem sucessores daqueles antigos bispos que preferiram morrer de fome antes que aceitar o dinheiro dos que oprimem os pobres. Continuaremos crendo no Deus de Jesus? Ou já trocamos de Deus e encontramos outro mais cômodo e menos exigente, por mais que seja cruel com os mais infelizes?

Já termino. Aos que dizem de mim que ataco a Igreja, eu pergunto (e me pergunto) se é melhor continuar calando e tornar-se cúmplice destas coisas ou, ao contrário, dizer o que precisa ser dito, mesmo que dizemos isso daquela que dizem que é a “nossa mãe”. Prefiro que me chamem de “traidor” em vez de dizerem que a minha boca está selada pelo vil dinheiro. Em qualquer caso, a minha convicção é que Jesus e seu Evangelho estão acima de tudo, também da Igreja.

24/05/2010

Milhões de fiéis oram pelo fim do tráfico de pessoas no mundo

Fonte: ADITAL



Em todo o mundo, pelo menos 50 milhões de fiéis estão rezando pelo fim do tráfico de seres humanos, crime que faz milhares de vítimas ao redor do mundo. A oração atende a um apelo do Papa Bento XVI, nas intenções do mês maio, para o Apostolado da Oração: "Para que se coloque fim ao triste e iníquo tráfico de seres humanos que infelizmente envolve milhões de mulheres e crianças".

O tráfico de pessoas é combatido em todos os continentes, por governos, entidades da sociedade civil e instituições religiosas, pela amplitude e complexidade do problema. Há uma grave violação dos direitos fundamentais da pessoa e de seu direito à segurança e à proteção

A situação de vulnerabilidade socioeconômica e o sonho de uma vida melhor é o que tem feito tantas vítimas caírem na armadilha deste delito. As mulheres e as crianças são os grandes alvos de traficantes e aliciadores. Geralmente, essas vítimas servem ao comércio de exploração sexual e à prostituição em diversos países. A rede organizada desse crime obtém lucros exorbitantes através da exploração de pessoas, que são tratadas como objetos negociáveis.

Para enfrentar e combater o tráfico de pessoas, muitas entidades investem na prevenção, alertando as vítimas em potencial, sobre os perigos e as constantes ameaças de quem cai nas mãos de aliciadores. Mas não é apenas a pobreza, a falta de estrutura e a migração ilegal que devem ser combatidas. A demanda pela exploração de mulheres, de crianças e da mão-de-obra barata, no caso do trabalho escravo, também deve ser fortemente combatida e punida.

Já que a rede criminosa do tráfico de pessoas age em âmbito global, de maneira silenciosa, enganando as vítimas com falsas promessas de trabalho, é necessário que também se tenha uma rede de governos e entidades que atuem conjuntamente para acabar com este crime, que é considerado a escravidão dos tempos modernos.

23/05/2010

Luiz Paulo Horta

Tempestade sobre Roma

Artigo de Luiz Paulo Horta, jornalista, membro da Academia Brasileira de Letras, publicado no jornal O Globo, 23-05-2010.
Fonte: UNISINOS


A mística continua. Se você for a uma cerimônia na Basílica de São Pedro, dificilmente deixará de se impressionar com a majestade do lugar. E a eleição de um novo Papa sempre será capaz de desencadear maratonas jornalísticas.

Mas o clima em Roma, e em outras cidadelas do catolicismo, é de inquietação.

Há uma crise do catolicismo, e a tendência é que, antes de melhorar, ela piore.

A questão da pedofilia é só uma mancha num cenário bem mais vasto.

Representantes da Igreja de Roma podem até dizer que houve excessos nos ataques à Igreja; que em outros estratos da sociedade o índice de pedófilos é maior; que a maioria dos casos registrados é antiga, quando o Vaticano prestava atenção relativa ao assunto. Mas as feridas no vasto corpo da Igreja estão à mostra; e doem.

Por toda parte, caem os índices de adesão a Roma. Na Europa, isso é tão sério que já estão vendendo igrejas, por falta de uso.

No Brasil, dados sociológicos poderiam ser citados como atenuantes.

A “esmagadora maioria de católicos” de décadas passadas era uma ficção estatística. Cem anos atrás, o Brasil era maciçamente positivista, e só as mulheres iam à igreja. Mas rapazes de origem humilde ainda buscavam o sacerdócio como forma de afirmação social e tranquilidade econômica.

Hoje, o que vale mais a pena: enfrentar cinco, seis anos de seminário e a obrigação do celibato, ou entrar num curso rápido de formação de pastores, sem nenhuma obrigação maior e com retorno financeiro quase certo? No Brasil de hoje, em plena transformação, as comunidades evangélicas dão às pessoas deslocadas da cidade grande um ambiente afetivo, uma sensação de belonging. E você sai das reuniões com a Bíblia na mão, e amplas sugestões de abordagem para o Livro dos Livros.

Encontrar algo parecido, nos meios católicos, exige um certo esforço. A paróquia tradicional, muitas vezes, não é acolhedora, e o padre tem de dividir-se entre um excesso de tarefas. Há hoje, no Brasil, cerca de 15 mil padres para 180 milhões de habitantes, enquanto os pastores, segundo se diz, já passam de 50 mil. Quem vai ganhar essa corrida? A Igreja Católica já foi a alma da civilização ocidental. Depois, muita coisa aconteceu — começando com o próprio “racha” do cristianismo.

A reforma luterana bateu tão forte, que instalou-se um clima geral de desconfiança (regado a cachoeiras de sangue). A Igreja de Roma, que já mantinha a Bíblia a uma certa distância (por ser um livro difícil), passou a ser a Igreja do catecismo — a fé trocada em miúdos, para que todo mundo soubesse em que acreditar. A intenção era boa. Mas o legalismo e o juridicismo tomaram o lugar da experiência da fé. E esse é um caminho que terá de ser refeito. Ninguém adere a um determinado credo porque ele oferece um livro de normas bem explicadinhas.

O que provoca a fé é o encontro com uma realidade que extrapola os limites da razão; que se apresenta como uma experiência transformadora Esse encontro nunca foi exclusividade do cristianismo; mas, dentro da Igreja de Roma, o que se pode chamar de misticismo já teve momentos gloriosos, na vida de um São Francisco, de uma Teresa d’Ávila. É essa “novidade” da fé que contagia, que comove, que liberta da mediocridade.

A Igreja de Roma continua a ter trunfos poderosos. Por exemplo, a missa católica, que não encontra paralelo nos cultos evangélicos. Não apenas ela é uma obra-prima em termos de arquitetura, de organização, como ela se propõe a reencenar o sacrifício do Calvário. Nas mãos de um padre Pio, ou de outros santos, era isso mesmo o que ela significava, e o impacto era esmagador.

Esse sentido do mistério é que teria de ser recuperado nos cultos católicos de hoje, que às vezes parecem tão displicentes, e sem maior significação — um simples encontro de pessoas que concordam em pertencer à mesma denominação.

Uma outra riqueza da Igreja é a tradição, palavra que se tornou malvista, mas que significa, basicamente, transmissão - transmissão de uma mensagem que vem do fundo dos séculos.

Esse conhecimento comum, partilhado, está presente na vida dos santos, que nunca pensaram em reinventar a teologia: eles se limitavam a reativar, em suas vidas, os tesouros de uma experiência milenar. Mesmo quando erravam, ou perdiam o caminho — no Antigo Testamento, a história do rei Davi —, eles sabiam por onde regular as suas bússolas.

Há uma história moderna que ilustra essa aventura: a do cardeal Newman, que lá por 1830, ainda jovem, era a luz mais brilhante da Igreja Anglicana. Aos seus sermões em Oxford acorria a elite da Inglaterra, que estava conquistando o mundo mas não queria perder a pista das velhas crenças. Até que,um dia , Newman se põe a refletir sobre as bases da sua fé; entra numa grande crise pessoal, estuda a tradição cristã, e chega à conclusão de que o fio de ouro dos tempos apostólicos passava por Roma. Em nome desse reencontro com o catolicismo, ele abre mão de todos os títulos, de todas as honras; torna-se quase soldado raso num ambiente que custou a aceitá-lo definitivamente.

É o fascínio de Roma, que não morreu.

Mas, para torná-lo efetivo num mundo como o de hoje, muito exame de consciência vai ser necessário, muita mudança de atitude. E a disposição de, como Newman, começar lá de baixo.

D. Dimas Lara Barbosa

Pedofilia, uma chaga social


Artigo de D. Dimas Lara Barbosa, secretário-geral da CNBB, publicado no jornal Folha de S. Paulo, 23-05-2010.
Fonte: UNISINOS



Nada atenua esses crimes; um só caso de pedofilia, praticado por um padre, um religioso ou uma religiosa é sempre demais, é abominável.

A Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República coordena, desde 2003, o Disque 100, serviço nacional de denúncia de violências contra crianças e adolescentes. Três anos antes, fora promulgada a lei nº 9.970/00, que instituiu o dia 18 de maio como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

A data foi escolhida porque, em 18 de maio de 1973, em Vitória, um crime bárbaro chocou o país, quando a pequena Araceli, de apenas oito anos, foi sequestrada, espancada, estuprada e assassinada.

Esse crime, apesar de sua gravidade, permanece impune. Segundo a referida secretaria, o Disque 100 já registrou 8.799 denúncias nos quatro primeiros meses deste ano, atingindo uma média de 73 denúncias por dia.

Os registros de violência sexual contra meninos e meninas representam 32% do total das 123.322 denúncias recebidas desde 2003. Das denúncias de violência sexual registradas no Disque 100 em 2010, 66% são de abuso sexual, e 33%, de exploração sexual. Em 2009, o abuso sexual representou 64% dos registros.

Pesquisas sérias têm registrado que a grande maioria dos agressores sexuais de crianças e adolescentes são adultos casados, aí incluídos os próprios pais, padrastos, tios, vizinhos e até os avós.

Ou seja, esse tipo de comportamento criminoso não está relacionado com o celibato. Trata-se de realidade preocupante, presente em vários segmentos de nossa sociedade, e que merece a atenção de todos para que possa ser revertida. Faz parte da caminhada da Igreja no Brasil o engajamento corajoso e sistemático na defesa dos direitos da criança e do adolescente.

A Pastoral do Menor foi protagonista importante na elaboração do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Além de ir ao encontro desses pequeninos que perambulam ou vivem pelas ruas e praças das grandes cidades, atua em abrigos, acolhendo adolescentes vítimas de abandono e violência e usuários de drogas.

Atua também na promoção e no controle de políticas públicas, marcando presença em nove conselhos estaduais e em mais de cem conselhos municipais. O número de crianças e adolescentes atendidos chega a 100 mil em todo o país.

A Pastoral da Criança, presente em 4.027 municípios, conta com mais de 230 mil voluntários e atendeu, em 2009, mais de 1,6 milhão de crianças e mais de 1,4 milhão de famílias em todo o Brasil.

O Regional Norte 2 da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), que inclui os Estados do Pará e do Amapá, apoiado pela presidência da conferência, empenhou-se decididamente pelo sucesso da CPI da pedofilia realizada na Assembleia Legislativa do Pará.

Paradoxalmente, a própria igreja vem sofrendo profundamente, nos últimos tempos, por causa de alguns de seus sacerdotes e religiosos, envolvidos em casos de abusos sexuais. Nada pode justificar nem atenuar esses crimes.

Um só caso de pedofilia, praticado por um padre, um religioso ou uma religiosa é sempre demais, é abominável. O papa Bento XVI tem manifestado publicamente sua dor, que é a de todos os católicos, pedindo perdão às vítimas e seus familiares, em nome da igreja, e estabelecendo normas precisas para a investigação e punição dos culpados.

A CNBB, em sua assembleia geral, realizada de 4 a 13 de maio deste ano, em Brasília, também refletiu amplamente sobre essa questão tão grave, estabelecendo metas concretas de ação. Que a Virgem Mãe Aparecida nos assista nesses momentos graves de nossa história.

20/05/2010

Nota da Comissão Pastoral da Terra


Judiciário: mais uma vergonha!


A Comissão Pastoral da Terra (CPT), reunida em seu III Congresso Nacional, em Montes Claros, Minas Gerais, com a participação de mais de 800 congressistas, no dia em que está celebrando os mártires da terra com uma grande caminhada pelas ruas desta acolhedora cidade mineira, recebe perplexa a notícia de que o senhor Regivaldo Pereira Galvão, foi colocado em liberdade. Diante disto manifesta sua mais profunda indignação por este ato da “justiça” paraense.

Regivaldo foi condenado no dia 1 de maio de 2010, a 30 anos de prisão, por ter sido um dos mandantes do assassinato de Irmã Dorothy Stang, ocorrido no dia 12 de agosto de 2005. Na ocasião de sua condenação lhe foi negado o direito de apelar em liberdade. Por incrível que pareça, 18 dias depois de sua condenação, uma liminar da desembargadora Maria de Nazaré Silva Gouveia dos Santos, do Tribunal de Justiça do Estado do Pará, lhe concede habeas corpus pondo-o em liberdade.

Regivaldo foi o último dos envolvidos condenado no caso do assassinato de Irmã Dorothy, cinco anos depois de sua morte. Usou de todos os instrumentos legais que foram protelando indefinidamente seu julgamento. Com sua condenação, pensávamos que a justiça tinha sido realizada, mas agora o criminoso volta à liberdade.

Mais uma vez se configura o que muitas vezes tem sido repetido pela CPT e por praticamente todas as instituições de Direitos Humanos: a cadeia foi feita exclusivamente para os pobres. Os que têm recursos financeiros sempre conseguem os “benefícios da lei” enquanto os pobres, presos sem terem qualquer acusação formal, permanecem anos e anos encarcerados sem terem acesso a qualquer julgamento! A impunidade continua alimentando a violência.

No dia 29 de abril passado, a CPT entregou ao Ministro da Justiça a relação de 1.546 trabalhadores e seus aliados assassinados em 1.162 ocorrências de conflitos no campo nos últimos 25 anos, de 1985 a 2009. Destas ocorrências, apenas 88 foram a julgamento, tendo sido condenados somente 69 executores e 20 mandantes. Dos mandantes condenados somente um encontrava-se preso, Vitlamiro Bastos de Moura, um dos responsáveis pelo assassinato de Irmã Dorothy. Regivaldo era o segundo que se encontrava preso até o dia de ontem.

Esta é a justiça que comanda este país! Se um caso que teve tamanha repercussão nacional e internacional é tratado desta forma, não é de espantar que a maior parte dos casos não mereça qualquer atenção.

Já dizia o profeta Isaias: “o juízo está longe de nós, e a justiça não nos alcança; esperamos pela luz, e eis que só há trevas; pelo resplendor, mas andamos em escuridão” (Isaias 59,9).

Os participantes do III Congresso do Nacional da CPT




13/05/2010

Pe. Alfredo J. Gonçalves

Mudanças e modismos
Fonte: ADITAL




A sociedade moderna impôs a mudança como valor primordial. No universo medieval, cultuavam-se as tradições, os valores estáticos, a ordem estabelecida, os antepassados. As inovações eram vistas com desconfiança, um risco freqüente à estabilidade. O olhar permanecia voltado para o alto e para o passado. Para o alto, porque a última referência vinha de Deus, do céu, do sagrado. Para o passado, porque o certo era seguir a sabedoria acumulada pela experiência.

No mundo moderno, cujo início remonta aos séculos XIII e XIV, com o incremento do comércio e a epopeia dos descobrimentos, cultua-se a novidade. A cada ano, a cada mês ou semana e até mesmo a cada dia, emerge algo novo e fascinante. Instala-se o dinamismo frenético da mudança, acompanhado pelos inventos tecnológicos e pela emergência da individualidade e da subjetividade. O olhar volta-se para o futuro e para o interior dos indivíduos e da sociedade. Os conceitos de razão, ciência, tecnologia, progresso e democracia formam o verdadeiro credo do pensamento moderno. Desvendam-se os mistérios, o antropocentrismo do ser humano emancipado e secularizado substitui a teocentrismo da Idade Média. O renascimento e o iluminismo culminam esse processo de amadurecimento da modernidade.

Com a consolidação da Revolução Industrial, a velocidade da produção e da produtividade sofre um salto gigantesco. As máquinas imprimem um ritmo sem precedentes na história da humanidade. Na abertura da encíclica Rerum Novarum, publicada no final do século XIX, o Papa Leão XIII se refere à "sede de inovações" e à "agitação febril" como marcas de sua época. O adjetivo febril pode ser interpretado de duas formas: em relação ao movimento alucinado das fábricas incipientes, simbolizado pela fumaça de suas chaminés; e em relação à febre progressiva por mudanças e novidades.

Para usar os termos de Hegel, estamos diante dos "tempos modernos". O filósofo identifica os "sinais precursores de que algo diferente se prepara". E diz que a aurora ilumina como um raio " a imagem de um mundo novo". Ainda segundo ele, "o espírito rompeu com o mundo anterior (...); o espírito certamente nunca permanece quieto, mas se acha sempre em movimento incessantemente progressivo" (Cfr. HEGEL, G. W. F. Fenomenologia del Espiritú, Fondo de Cultura Económica, México-Madrid-Buenos Aires, 1996, Intruducción).

Também os conceitos de tempo e espaço sofrem profunda transformação. Os avanços no campo dos transportes, das comunicações e depois na informática reduzem as distâncias, ao mesmo tempo em que aproximam pessoas, povos e culturas. Com a invenção da imprensa, do telégrafo e do telefone (depois o celular), do rádio e da televisão, do computador e da internet, chegamos à era da robótica e da informática. A comunicação via satélite torna-se simultânea aos eventos. Estes substituem a história como processo pelo conceito de história como espetáculo, feita de sensações e emoções. Segundos e centímetros quadrados se convertem em valiosa moeda de troca. Se "tempo é dinheiro", espaço é mercadoria!

Evidente que semelhante mentalidade penetra em todas as camadas sociais, em todas as organizações e entidades, como também nas instâncias do poder e no cotidiano das pessoas. A cultura, a fé e as religiões não são imunes a esse novo modo de pensar e viver. Segundo J. B. Libanio, "a função que os santos cumpriam na Idade Média, e mesmo até há algumas décadas, de serem modelos de vida, força impulsora e motivadora de vocações, hoje é substituída por essas figuras da cultura de massa". O autor põe em contraste duas atitudes básicas: de um lado, figuras centradas em profunda meditação, firmemente enraizadas no terreno da história e no compromisso social. De outro, personalidades midiáticas, de notória superficialidade, voltadas sobre o próprio umbigo. Tão superficiais que, ainda de acordo com Libanio, "devem continuamente ser alternadas", pois "queimam como velas" (Cfr. LIBANIO, J. B. As Lógicas da Cidade, Edições Loyola, São Paulo, 2001, pág. 122).

Semelhantes celebridades constituem, não raro, a prova mais cabal da cultura do consumo e do descartável. Aqui a tecnologia de ponta impõe um círculo vicioso desvairado e devastador: produzir, vender, comprar e descartar. Descartam-se coisas, relações e pessoas com a velocidade de um toque na tecla do computador. O termo deletar transfere-se a outros campos do dia-a-dia: amizades, casamentos, namoros, compromissos, promessas, escritos... Tudo entra no frenesi do consumismo individualista, exacerbado e fortemente hedonista, o qual exige frequente troca de roupa e de moda, de eletrodomésticos, de carro até de comportamento. Ter, prazer e lazer formam uma trilogia de verbos indispensáveis. O culto do "eu" ou da personalidade ergue estátuas com a mesma prontidão com que as reduz a escombros e cinzas. Não é raro a mídia enaltecer para em seguida linchar figuras públicas: artistas, políticos, religiosos, atores, e demais personalidades.

A essa altura, porém, é necessário alertar para uma ambigüidade muito própria dos tempos modernos ou pós-modernos. A cultura ou civilização do consumismo, do hedonismo e do descartável tem seu lado negativo, mas carrega também um potencial positivo. Se, por uma parte, é verdade que essa mentalidade banaliza coisas, pessoas e relações, convivendo com uma superficialidade doentia, por outra parte, de tanto adquirir e descartar, o indivíduo acaba por saturar a própria existência de modismos que se revelam vazios e falsos. Quanto mais se enche de objetos, mais cresce o desejo. Entediado, o mesmo indivíduo pode abrir-se à busca de algo mais profundo e durável, para além das paixões, impulsos e necessidades imediatas. O convívio com o supérfluo pode gerar seu oposto, isto é, um processo laborioso de crítica construtiva e de interioridade reflexiva.

O lixo que o marketing e a publicidade depositam sobre nossas cabeças em avalanches diárias tem a capacidade de fermentar, o que significa destilar energias para a redescoberta de valores esquecidos. Reciclar determinados matérias do lixo é uma forma de questionar um padrão de vida banal e de constante desperdício. A mentalidade dos modismos diários e do desperdício carrega um potencial oculto: pode engendrar a contracultura de uma existência mais sólida e sustentável, mais frugal, sóbria e feliz.

[grifos do blog]

19/04/2010

Eduardo A. Esquivel

A Igreja Católica desce do pedestal
Fonte: ADITAL


Os insistentes noticiários sobre pedofilia cometida por padres católicos têm sido interpretados como expressões de anticlericalismo, abandono da religião ou até ateísmo. Pois a igreja católica é um baluarte do que há de mais valioso em nossas sociedades e, nesse sentido, toda a qualquer crítica a ela deve ser banida.

Quem assim pensa faz bem em situar os fatos que vivenciamos numa perspectiva mais ampla. Durante longos séculos, a igreja católica dominou a cultura ocidental e um dos instrumentos desse domínio foi o postulado de sua santidade intocável. Apenas cinqüenta anos atrás, o domínio do pensamento católico sobre as consciências ainda era tão poderosa que criticar um representante da igreja católica era quase o mesmo que criticar o próprio Deus. Como dizia o padre Cícero: ‘o padre é santo nem que o diabo não queira’. O postulado da santidade da igreja e de seus representantes era considerado um sustentáculo da fé.

Mas será que esse postulado tem raízes nos Evangelhos? O leitor atento dos mesmos poderá verificar que neles não se encontra nenhum argumento a favor da santidade da igreja. Pelo contrário, no Evangelho de Marcos, por exemplo, os discípulos de Jesus são apresentados como ‘maus exemplos’. Eles não conseguem compreender Jesus e, quanto mais este se aproxima da morte, tanto mais eles demonstram não entender nada. Enquanto Jesus caminha em direção a Jerusalém com plena consciência do perigo de vida que enfrenta, seus discípulos ficam discutindo entre si quem será o primeiro a ‘se sentar à direita do trono no reino de Deus’. E quando ele, no jardim de Getsémani, chega a suar sangue, de tanta agonia ao ver o ‘cálice’ se aproximar, eles ficam dormindo. Judas o trai com um beijo e Pedro foge quando uma empregada do sinédrio diz: ‘você também é galileu’. Essas narrativas são intencionais. O evangelista quer mostrar como é difícil comprometer-se com o estabelecimento do reino de Deus: mesmo os apóstolos mal conseguem corresponder ao desafio. No mesmo sentido, Jesus combate a pretensa santidade dos fariseus e a santidade não menos hipócrita dos sacerdotes no templo. A carta aos hebreus é um vigoroso requisitório contra a pretensão à santidade, uma tentação que ameaça qualquer instituição religiosa. O reino de Deus vem por meio de um empenho humilde e perseverante, não por exibições de santidade. É, pois, em vão que a teologia procura argumentos no novo testamento para justificar a santidade da igreja.

Então, donde provém o postulado da igreja santa? Ela é uma elaboração teológica do século IV e tem muito a ver com a aproximação da igreja com o sistema imperial romano e os métodos utilizados para impressionar as pessoas. Um século depois de proclamada a santidade da igreja (no Concílio de Nicéia), a idéia recebe um importante reforço na obra ‘A cidade de Deus’, da autoria de Santo Agostinho. Diante de um império romano em decadência, corroído por corrupção e abusos, Agostinho apresenta a luminosa imagem de uma cidade de Deus incorrupta, repleta de santos. Essa imagem é tão poderosa e seduz tanto os clérigos que atravessa os séculos sem grandes contestações. Eis a ideologia do atual papa. Ao longo de seu trabalho como professor em teologia (como testemunha Leonardo Boff, que estudou na Alemanha na época), ele sempre defendeu a idéia de uma igreja que fosse santa em meio à devassidão do mundo e aos erros do século, uma cidadela de Deus, exatamente na linha de pensamento de Santo Agostinho. Como papa, ele demonstra que seu pensamento continua o mesmo, apesar das contradições (como demonstra uma carta recente de Hans Küng). O argumento mais forte contra o papa Bento XVI provém dos fatos. Contra fatos não há argumentos. A pedofilia praticada por padres vem demonstrar que a igreja não é tão santa como o papa gostaria que ela fosse. Os padres mostram-se humanos, por vezes ‘demasiadamente humanos’, e isso enerva o papa. Se ele fosse ler os trabalhos de Jon Sobrino, não ficaria tão nervoso. Sobrino muda o foco: o que importa não é a Igreja, mas o reino de Deus. Jesus não veio pregar a Igreja, mas anunciar o reino de Deus. A igreja é apenas um instrumento provisório. O que importa é o reino de Deus, ou seja, a sociedade humana. Mas o papa não lê Sobrino, como não lê Gustavo Gutiérrez, José Comblin, Leonardo Boff, Ivone Gebara e nossos(as) outros(as) mestres(as) da teologia latino-americana. Ele não lê os sermões de Dom Romero nem as cartas conciliares e pós-conciliares de Dom Helder Câmara. Toda essa literatura está focada no reino de Deus, não na instituição igreja. Mas o papa continua embevecido com um ideal de santidade eclesiástica que não se fundamenta no Novo Testamento nem se verifica na realidade vivida.

Considerada de maneira mais amplamente societária, a atual exposição dos pecados da igreja demonstra como nossas sociedades não suportam mais os métodos de intimidação, ocultamento e manipulação que ainda eram aceitos por nossos pais e avós, num passado não tão distante. Nossa percepção do que seja uma sociedade democrática, igualitária e justa vai se aperfeiçoando. Da mesma forma em que vemos, pela primeira vez, um governador preso, vemos também padres sendo julgados em tribunais civis. Nada mais louvável numa sociedade que pretende caminhar para a democracia e a liberdade. Todos os cidadãos estão sujeitos à lei, nenhuma instituição está acima da lei civil. E assim a igreja católica vai, lentamente, descendo do pedestal e se adaptando à normalidade da atual convivência humana.

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Muito mais que pedofilia

Cardeal Odilo Pedro Scherer é Arcebispo da Arquidiocese de São Paulo/SP
Fonte: O Estado de São Paulo/11.04.2010.


As notícias sobre pedofilia, envolvendo membros do clero, difundiram-se de modo insistente. Tristes fatos, infelizmente, existiram no passado e existem no presente; não preciso discorrer sobre as cenas escabrosas de Arapiraca… A Igreja vive dias difíceis, em que aparece exposto o seu lado humano mais frágil e necessitado de conversão. De Jesus aprendemos: “Ai daqueles que escandalizam um desses pequeninos!” E de São Paulo ouvimos: “Não foi isso que aprendestes de Cristo”.

As palavras dirigidas pelo papa Bento XVI aos católicos da Irlanda servem também para os católicos do Brasil e de qualquer outro país, especialmente aquelas dirigidas às vítimas de abusos e aos seus abusadores. Dizer que é lamentável, deplorável, vergonhoso, é pouco! Em nenhum catecismo, livro de orientação religiosa, moral ou comportamental da Igreja isso jamais foi aprovado ou ensinado! Além do dano causado às vítimas, é imenso o dano à própria Igreja.

O mundo tem razão de esperar da Igreja notícias melhores: Dos padres, religiosos e de todos os cristãos, conforme a recomendação de Jesus a seus discípulos: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que eles, vendo vossas boas obras, glorifiquem o Pai que está nos céus!” Inútil, divagar com teorias doutas sobre as influências da mentalidade moral permissiva sobre os comportamentos individuais, até em ambientes eclesiásticos; talvez conseguiríamos compreender melhor por que as coisas acontecem, mas ainda nada teríamos mudado.

Há quem logo tem a solução, sempre pronta à espera de aplicação: É só acabar com o celibato dos padres, que tudo se resolve! Ora, será que o problema tem a ver somente com celibatários? E ficaria bem jogar nos braços da mulher um homem com taras desenfreadas, que também para os casados fazem desonra? Mulher nenhuma merece isso! E ninguém creia que esse seja um problema somente de padres: A maioria absoluta dos abusos sexuais de crianças acontece debaixo do teto familiar e no círculo do parentesco. O problema é bem mais amplo!

Ouso recordar algo que pode escandalizar a alguns até mais que a própria pedofilia: É preciso valorizar novamente os mandamentos da Lei de Deus, que recomendam atitudes e comportamentos castos, de acordo com o próprio estado de vida. Não me refiro a tabus ou repressões “castradoras”, mas apenas a comportamentos dignos e respeitosos em relação à sexualidade. Tanto em relação aos outros, como a si próprio. Que outra solução teríamos? Talvez o vale tudo e o “libera geral”, aceitando e até recomendando como “normais” comportamentos aberrantes e inomináveis, como esses que agora se condenam?

As notícias tristes desses dias ajudarão a Igreja a se purificar e a ficar muito mais atenta à formação do seu clero. Esta orientação foi dada há mais tempo pelo papa Bento XVI, quando ainda era Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Por isso mesmo, considero inaceitável e injusto que se pretenda agora responsabilizar pessoalmente o papa pelo que acontece. Além de ser ridículo e fora da realidade, é uma forma oportunista de jogar no descrédito toda a Igreja católica. Deve responder pelos seus atos perante Deus e a sociedade quem os praticou. Como disse São Paulo: Examine-se cada um a si mesmo. E quem estiver de pé, cuide para não cair!

A Igreja é como um grande corpo; quando um membro está doente, todo o corpo sofre. O bom é que os membros sadios, graças a Deus, são a imensa maioria! Também do clero! Por isso, ela será capaz de se refazer dos seus males, para dedicar o melhor de suas energias à Boa Notícia: para confortar os doentes, visitar os presos nas cadeias, dar atenção aos abandonados nas ruas e debaixo dos viadutos; para ser solidária com os pobres das periferias urbanas, das favelas e cortiços; ela continuará ao lado dos drogados e das vítimas do comércio de morte, dos aidéticos e de todo tipo de chagados; e continuará a acolher nos Cotolengos criaturas rejeitadas pelos “controles de qualidade” estéticos aplicados ao ser humano; a suscitar pessoas, como Dom Luciano e Dra. Zilda Arns, para dedicarem a vida ao cuidado de crianças e adolescentes em situação de risco; e, a exemplo de Madre Teresa de Calcutá, ainda irá recolher nos lixões pessoas caídas e rejeitadas, para lavar suas feridas e permitir-lhes morrer com dignidade, sobre um lençol limpo, cercadas de carinho. Continuará a mover milhares de iniciativas de solidariedade em momentos de catástrofes, como no Haiti; a estar com os índios e camponeses desprotegidos, mesmo quando também seus padres e freiras acabam assassinados.

E continuará a clamar por justiça social, a denunciar o egoísmo que se fecha às necessidades do próximo; ainda defenderá a dignidade do ser humano contra toda forma de desrespeito e agressão; e não deixará de afirmar que o aborto intencional é um ato imoral, como o assassinato, a matança nas guerras, os atentados e genocídios. E sempre anunciará que a dignidade humana também requer comportamentos dignos e conformes à natureza, também na esfera sexual; e que a Lei de Deus não foi abolida, pois está gravada de maneira indelével na coração e na consciência de cada um.

Mas ela o fará com toda humildade, falando em primeiro lugar para si mesma, bem sabendo que é santa pelo Santo que a habita, e pecadora em cada um de seus membros; todos são chamados à conversão constante e à santidade de vida. Não falará a partir de seus próprios méritos, consciente de trazer um tesouro em vasos de barro; mas, consciente também de que, apesar do barro, o tesouro é precioso; e quer compartilhá-lo com toda a humanidade. Esta é sua fraqueza e sua grandeza!

16/04/2010

Carta aberta de Hans Küng aos bispos católicos de todo o mundo



Em carta aberta aos bispos católicos de todo o mundo, o teólogo suíço Hans Küng qualifica o pontificado de Bento XVI como o das oportunidades perdidas. No quinto aniversário do pontificado de Bento XVI, Küng pede ao clero que reaja diante da crise da Igreja, aprofundada pelos abusos a menores. Hans Küng é professor emérito de Teologia Ecumênica na Universidade de Tübingen (Alemanha) e presidente do Projeto Ética Mundial. O artigo de Hans Küng está publicado no El País, 15-04-2010. A tradução é do Cepat. Fonte: UNISINOS



Joseph Ratzinger, atual Bento XVI, e eu, éramos, entre 1962 e 1965, os dois teólogos mais jovens do Concílio. Agora já somos os mais idosos e os únicos que seguem plenamente na ativa. Eu sempre entendi o meu trabalho teológico também como um serviço à Igreja. Por isso, preocupado com esta nossa Igreja, atolada na crise de confiança mais profunda desde a Reforma, dirijo-lhes uma carta aberta no quinto aniversário do pontificado de Bento XVI. Não tenho outra possibilidade de chegar até vocês.

Apreciei muito que o papa Bento, logo depois de sua eleição, convidasse a mim, seu crítico, para uma conversa de quatro horas, que transcorreu num clima muito amistoso. Naquele momento, isso me fez ter a esperança de que Joseph Ratzinger, meu ex-colega na Universidade de Tübingen, encontrasse apesar de tudo o caminho para uma maior renovação da Igreja e o entendimento ecumênico no espírito do Concílio Vaticano II.

Minhas esperanças, e as de tantos católicos e católicas comprometidos, infelizmente, não se realizaram, coisa que fiz saber ao papa Bento de diversas formas em nossa correspondência. Sem dúvida, cumpriu conscienciosamente suas obrigações papais cotidianas e nos brindou com três Encíclicas úteis sobre a fé, a esperança e o amor. Mas, no tocante aos grandes desafios de nosso tempo, seu pontificado se apresenta cada vez mais como o das oportunidades desperdiçadas, não como o das ocasiões aproveitadas:

– Desperdiçou-se a oportunidade de um entendimento duradouro com os judeus: o Papa reintroduziu a oração pré-conciliar em que se pede pela iluminação dos judeus e readmitiu na Igreja os bispos cismáticos notoriamente antissemitas, impulsionou a beatificação de Pio XII e só leva a sério o judaísmo como raiz histórica do cristianismo, não como uma comunidade de fé que perdura e que tem um caminho próprio para a salvação. Os judeus de todo o mundo se indignaram com o pregador pontifício na liturgia papal da Sexta-feira Santa, na qual comparou as críticas ao Papa com a perseguição antissemita.

– Desperdiçou-se a oportunidade de um diálogo assentado na confiança com os muçulmanos; é sintomático o discurso de Bento XVI em Regensburg, no qual, mal aconselhado, caricaturizou o Islã como a religião da violência e da desumanidade, atraindo assim a permanente desconfiança dos muçulmanos.

– Desperdiçou-se a oportunidade da reconciliação com os povos nativos colonizados da América Latina: o Papa afirma com toda seriedade que estes “desejavam” a religião de seus conquistadores europeus.

– Desperdiçou-se a oportunidade de ajudar os povos africanos na luta contra a superpopulação, aprovando os métodos anticoncepcionais, e na luta contra a Aids, admitindo o uso de preservativos.

– Desperdiçou-se a oportunidade de concluir a paz com as ciências modernas: reconhecendo inequivocamente a teoria da evolução e aprovando de forma diferenciada novos campos de pesquisa, como o das células-tronco.

– Desperdiçou-se a oportunidade de que também o Vaticano faça, finalmente, do espírito do Concílio Vaticano II a bússola da Igreja católica, impulsionando suas reformas.

Este último ponto, estimados bispos, é especialmente grave. Uma e outra vez, este Papa relativiza os textos conciliares e os interpreta de forma retrógrada contra o espírito dos Padres do Concílio. Inclusive se situa expressamente contra o Concílio ecumênico, que, segundo o Direito Canônico, representa a autoridade suprema da Igreja católica:

– Readmitiu incondicionalmente na Igreja os bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, ordenados ilegalmente fora da Igreja católica e que não aceitam o Concílio em aspectos fundamentais.

– Apóia com todos os meios a missa medieval tridentina e ele mesmo celebra ocasionalmente a eucaristia em latim e de costas para os fiéis.

– Não leva a cabo o entendimento com a Igreja anglicana, assinado em documentos ecumênicos oficiais (ARCIC). Ao contrário, procura atrair para a Igreja católico-romana sacerdotes anglicanos casados renunciando a aplicar a eles o voto do celibato.

– Reforçou os poderes eclesiais contrários ao Concílio com a nomeação de altos cargos anticonciliares (na Secretaria de Estado e na Congregação para a Liturgia, entre outros) e bispos reacionários em todo o mundo.

O Papa Bento XVI parece afastar-se cada vez mais da grande maioria do povo da Igreja, que de todas as formas se ocupa cada vez menos de Roma e que, no melhor dos casos, ainda se identifica com sua paróquia e seus bispos locais.

Sei que alguns de vocês sofrem com o fato de que o Papa se veja plenamente respaldado pela cúria romana em sua política anticonciliar. Esta procura sufocar a crítica no episcopado e na Igreja e desacreditar por todos os meios os críticos. Com uma renovada exibição de pompa barroca e manifestações de efeito caras aos meios de comunicação, Roma trata de exibir uma Igreja forte com um “representante de Cristo” absolutista, que reúne em suas mãos os poderes legislativo, executivo e judiciário. Entretanto, a política de restauração de Bento fracassou. Todas as suas aparições públicas, viagens e documentos não são capazes de modificar, no sentido da doutrina romana, a postura da maioria dos católicos em questões controversas, especialmente em matéria de moral sexual. Nem sequer os encontros do Papa com a juventude, de que participam sobretudo agrupações conservadoras carismáticas, conseguem frear os abandonos da Igreja nem despertar mais vocações sacerdotais.

Exatamente vocês, como bispos, lamentam profundamente: desde o Concílio, dezenas de milhares de bispos abandonaram sua vocação, sobretudo devido à lei do celibato. A renovação sacerdotal, assim como também a de membros de ordens, de irmãs e irmãos leigos, decaiu tanto quantitativa como qualitativamente. A resignação e a frustração se estendem no clero, precisamente entre os membros mais ativos da Igreja. Muitos se sentem abandonados em suas necessidades e sofrem pela Igreja. Pode ser que esse seja o caso em muitas de suas dioceses: cada vez mais igrejas, seminários e paróquias vazios. Em alguns países, devido à falta de sacerdotes, finge-se uma reforma eclesial e as paróquias são obrigadas a se fundirem, muitas vezes contra a sua vontade, constituindo gigantescas “unidades pastorais” nas quais os poucos sacerdotes estão completamente assoberbados de tarefas.

E agora, às muitas tendências de crise ainda são adicionados escândalos que clamam aos céus: sobretudo o abuso de milhares de meninos e jovens por clérigos – nos Estados Unidos, Irlanda, Alemanha e outros países –, relacionado a uma crise de liderança e confiança sem precedentes. Não se pode silenciar que o sistema de ocultamento posto em prática em todo o mundo diante dos crimes sexuais dos clérigos foi dirigido pela Congregação para a Fé romana do cardeal Ratzinger (1981-2005), na qual, já sob João Paulo II, foram reunidos os casos sob o mais estrito segredo. Ainda em 18 de maio de 2001, Ratzinger enviava um escrito solene sobre os crimes mais graves (Epistula de delitos gravioribus) a todos os bispos. Nela, os casos de abusos se situavam sob o secretum pontificium, cuja revelação pode atrair severas penas canônicas. Com razão, pois, são muitos os que pedem um mea culpa pessoal do então prefeito e atual Papa. Entretanto, na Semana Santa perdeu a ocasião de fazê-lo. Em vez disso, no Domingo de Ramos moveu o decano do colégio cardinalício a levantar urbi et orbe testemunho de sua inocência.

As consequências de todos estes escândalos para a reputação da Igreja católica são devastadoras. Isto é algo que também já foi confirmado por dignitários de alto escalão. Inúmeros padres e educadores de jovens irrepreensíveis e sumamente comprometidos sofrem sob uma suspeita generalizada. Vocês, estimados bispos, devem colocar-se a pergunta de como serão as coisas no futuro em nossa Igreja e em suas dioceses. Contudo, não queria esboçar um programa de reforma; já fiz isso em repetidas ocasiões, antes e depois do Concílio. Apenas queria colocar-lhes seis propostas que, na minha convicção, serão respaldadas por milhões de católicos que carecem de voz.

1. Não calar: em vista de tantas e tão graves irregularidades, o silêncio torna vocês cúmplices. Ali onde consideram que determinadas leis, disposições e medidas são contraproducentes, deveriam, ao contrário, expressá-lo com a maior franqueza. Não enviem a Roma declarações de submissão, mas demandas de reforma!

2. Acometer reformas: na Igreja e no episcopado são muitos os que se queixam de Roma, sem que eles mesmos façam alguma coisa. Mas hoje, quando numa diocese ou paróquia não se vai à missa, quando o trabalho pastoral é ineficaz, quando a abertura às necessidades do mundo limitada, ou quando a cooperação é mínima, não se pode culpar sem mais Roma. Bispo, sacerdote ou leigo, todos e cada um devem fazer algo para a renovação da Igreja em seu âmbito vital, seja maior ou menor. Muitas grandes coisas nas paróquias e na Igreja inteira aconteceram graças à iniciativa de indivíduos ou de pequenos grupos. Como bispos, vocês devem apoiar e alentar tais iniciativas e atender, agora mesmo, as queixas justificadas dos fiéis.

3. Agir colegiadamente: depois de um debate vivo e contra a sustentada oposição da cúria, o Concílio decretou a colegialidade do Papa e dos bispos no sentido dos Atos dos Apóstolos, onde Pedro também não agia sem o colégio apostólico. No entanto, na época pós-conciliar os papas e a cúria ignoraram esta decisão central do Concílio. Desde que o Papa Paulo VI, já no segundo ano do Concílio, publicara uma Encíclica em defesa da discutida lei do celibato, voltou a se exercer a doutrina e a política papal ao estilo antigo, não colegiado. Inclusive na liturgia o Papa é apresentado como autocrata, em relação a quem os bispos, dos quais gosta de se rodear, aparecem como comparsas sem voz nem voto. Portanto, vocês não deveriam, estimados bispos, agir só como indivíduos, mas em comunidade com os demais bispos, com os sacerdotes e com o povo da Igreja, homens e mulheres.

4. A obediência ilimitada só se deve a Deus: todos vocês, ao serem consagrados como bispos, juraram obedecer incondicionalmente ao Papa. Mas vocês sabem igualmente que nunca se deve obediência ilimitada a uma autoridade humana, só a Deus. Por isso, o voto de vocês não deve impedi-los de dizer a verdade sobre a atual crise da Igreja, de suas dioceses e de seus países. Seguindo em tudo o exemplo do apóstolo Paulo, que enfrentou Pedro e teve que se opor “a ele abertamente, pois assumira uma atitude errada” (Gl 2, 11)! Uma pressão sobre as autoridades romanas no espírito da fraternidade cristã pode ser legítima quando estas não concordam com o espírito do Evangelho e sua mensagem. A utilização da linguagem vernacular na liturgia, a modificação das disposições sobre os matrimônios mistos, a afirmação da tolerância, a democracia, os direitos humanos, o entendimento ecumênico e tantas outras coisas só serão alcançados pela tenaz pressão vinda de baixo.

5. Buscar soluções regionais: é frequente que o Vaticano faça ouvidos moucos a demandas justificadas do episcopado, dos sacerdotes e dos leigos. Com tanto maior razão se deve buscar de forma inteligente soluções regionais. Um problema especialmente espinhoso, como vocês sabem, é a lei do celibato, proveniente da Idade Média e que está sendo questionado com razão em todo o mundo precisamente no contexto dos escândalos por abusos sexuais. Uma modificação contra a vontade de Roma parece praticamente impossível. Contudo, isto não nos condena à passividade: um sacerdote que depois de madura reflexão pensa em se casar não tem que renunciar automaticamente ao seu estado se o bispo e a comunidade o apoiarem. Algumas conferências episcopais poderiam proceder a uma solução regional, mesmo que fosse melhor chegar a uma solução para a Igreja em seu conjunto. Portanto:

6. Exigir um Concílio: assim como se requereu um Concílio ecumênico para a realização da reforma litúrgica, da liberdade religiosa, do ecumenismo e do diálogo inter-religioso, o mesmo acontece com o problema da reforma, que irrompeu agora de forma dramática. O Concílio reformista de Constança, no século anterior à Reforma, aprovou a realização de Concílios a cada cinco anos, disposição que, contudo, foi ignorada pela cúria romana. Sem dúvida, esta fará agora quanto estiver ao seu alcance para impedir um Concílio do qual deve temer uma limitação de seu poder. Em todos vocês está a responsabilidade de impor um Concílio ou ao menos um sínodo episcopal representativo.

A convocação que lhes dirijo em vista desta Igreja em crise, estimados bispos, é que vocês coloquem na balança a autoridade episcopal, revalorizada pelo Concílio. Nesta situação de necessidade, os olhos do mundo estão postos em vocês. Inúmeras pessoas perderam a confiança na Igreja católica. A recuperação só valerá a pena se os problemas e as consequentes reformas forem abordados de forma franca e honrada. Peço-lhes, com todo o respeito, que contribuam com o que estiver ao seu alcance, quando for possível em cooperação com o resto dos bispos; mas, se for necessário, também individualmente, com “coragem” apostólica (At 4, 29-31). Deem aos seus fiéis sinais de esperança e alento e à nossa Igreja uma perspectiva.

Saúdo vocês na comunhão da fé cristã, Hans Küng.



14/04/2010

Francesco Merlo

Homossexualidade e pedofilia. Uma confusão

O cardeal Tarcisio Bertone, que é um homem, normalmente, prudente, e é, nada menos, que o número dois do Estado do Vaticano, para defender o celibato abusou da homossexualidade. O artigo é de Francesco Merlo e publicado pelo jornal La Repubblica, 14-04-2010. A tradução é da IHU On-Line. Fonte: UNISINOS



“Muitos psicólogos, muitos psiquiatras demonstraram que não há uma relação entre celibato e pedofilia – disse Bertone no Chile – mas muitos outros demonstraram, me disseram recentemente, que há uma relação entre homossexualidade e pedofilia”.

Sobre a natureza e as origens da pulsão da pedofilia foram escritas muitas coisas, mas que exista uma relação estatístico-científica entre homossexualidade e pedofilia é seguramente uma besteira. Dita por um teólogo, a besteira é mais grave. O cardeal Bertone há realmente, uma altíssima relação com o candor e com o amor, um hábito filosófico com a profundidade, é um homem de Deus. Por isso, surpreende que tenha entrado com os dois pés numa questão tão delicada e complexa. E, parece, que suas palavras não devem ser lidas como um manifesto teocrático da intolerância para ser usado e abusado para o uso e o consumo dos homófobos, mas como uma dramática confissão da fraqueza, do estado de confusão em que se encontra a Igreja católica neste momento.

Todos sabemos que a pedofilia é sexo com meninos e meninas, é um dos tantos mistérios da psique e da história da humanidade. A conhecemos desde os tempos da antiga e tolerante Grécia. Para nós é perversão, é depravação, é violência porque o pedófilo usa de um corpo que não é ainda autônomo, não é maduro para a opção sexual, não é responsável. À menina e ao menino é imposta relação física por alguém que é maior, que é respeitável, que goza da confiança, que exerce uma forte influência espiritual.

Assim, parece muito estranho que um homem de Igreja não se dê contra de quanto é ultrajoso de associar a homossexualidade à pedofilia. Não temos a presunção de saber o que a homossexualidade nem qual é a melhor maneira aceitada por Deus para definir ou praticar a sexualidade. Mas todos, também Bertone e o clero de Roma, sabem que a pedofilia é um crime, um abuso feroz, e, ao contrário, a homossexualidade – seja uma opção, seja imposta pela natureza – é legítima tanto quanto a heterossexualidade. Têm os mesmos títulos. A nenhum cardeal veio à mente justificar ou minimamente associar com argumentos científicos o estupro com a heterossexualidade: há heterossexuais estupradores e há heterossexuais pedófilos, homens e mulheres, como há ladrões calvos e ladrões cabeludos. Não é o cabelo que faz o ladrão, ilustre cardeal.

Para nós é fácil replicar ao cardeal Bertone mas, enquanto escrevemos, nos perguntamos o que está acontecendo na nomenklatura da Igreja de Roma. Nós sabemos muito bem que há muitos padres que estão na vanguarda da luta contra a pedofilia e a depravação violenta. Seria, desta maneira, estúpido defender que todos os padres, enquanto celibatários, são pedófilos, já que vemos tantos que dão a sua vida e a sua alma para defender as crianças, para proteger a sua inocência, inspirados na imagem evangélica que remonta ao Cristo.

Certamente Tarciso Bertone tem o direito e também o dever de defender a Igreja e o celibato dos padres. Mas ofendendo desta maneira os homossexuais, trai a sua fragilidade, expõe a sua homofobia, desarma todos os soldados de Cristo.

11/04/2010

Dom Demétrio Valentini

O escândalo da pedofilia

Dom Demétrio Valentini, Bispo de Jales (SP) e Presidente da Cáritas Brasileira
Fonte: Adital

Está tendo ampla repercussão a divulgação de casos de pedofilia, envolvendo membros do clero da Igreja Católica. O assunto merece ser analisado com cuidado, para perceber com objetividade sua dimensão, e distinguir os dados verdadeiros, da exploração que deles se faz com o intento de denegrir a imagem da Igreja, universalizando para toda a instituição o que se constitui em erros pessoais, de todo condenáveis, mas que não podem ser imputados como se fossem de autoria de toda a Igreja.

Em primeiro lugar, a própria Igreja se antecipa em reconhecer e em confessar a gravidade da situação, admitindo inclusive que houve culpa por falta de vigilância em coibir abusos, permitindo que padres pedófilos continuassem exercendo o ministério, favorecendo assim a continuidade dos delitos.

Independente da quantidade de casos constatados, mesmo que fosse um só, merece a clara condenação de todos, e se praticado por algum membro do clero católico, o reconhecimento de quanto isto depõe contra a imagem da Igreja.

Em recente carta à Igreja da Irlanda, onde foram constatados diversos casos de pedofilia praticada por padres católicos, o Papa Bento 16 faz uma dura advertência à hierarquia da Igreja daquele país, para que redobre a vigilância, e afaste do ministério todos os envolvidos na prática da pedofilia.

Se há uma conseqüência positiva, decorrente da discussão levantada no mundo inteiro em torno da pedofilia, é o crescimento da consciência da criminalidade dos atos de abusos sexuais praticados com crianças. Eles se constituem em crimes, que precisam ser denunciados, e devem ser condenados, com responsabilização adequada de todos os que incorrem em alguma responsabilidade por seu cometimento.

As crianças têm o direito de serem preservadas das distorções sexuais dos adultos, sejam eles quem forem. Esta consciência da necessidade de preservar as crianças da maldade dos adultos precisa avançar muito mais. É toda a sociedade que precisa estar atenta para preservar a inocência das crianças. Nisto toda a sociedade tem culpa em cartório. Se fosse usado o mesmo rigor com que agora se aponta para os padres pedófilos, quantas situações precisariam ser denunciadas, nas famílias, na sociedade, sobretudo nos meios de comunicação social, onde não despertou ainda a consciência dos prejuízos causados às crianças pelas situações a que elas ficam expostas.

Mas no que se refere diretamente à pedofilia, seria muita hipocrisia achar que ela se limita aos casos praticados por padres católicos. Existe inclusive uma evidente campanha, levada adiante por pessoas interessadas em denegrir a imagem da Igreja Católica, que está se aproveitando desta situação para tornar ainda mais virulentas as acusações contra ela. Por isto, no Brasil não é nada de estranhar que uma conhecida rede de televisão se esmere agora em ampliar o que é sua razão de ser: acusar continuamente a Igreja Católica, usando para isto todos os meios de que dispõe.

Neste sentido, sem fazer dos números uma desculpa, é importante olhar os dados com objetividade. O Professor Carlos Alberto di Franco, Doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra (difranco@iics.org.br), traz a seguinte constatação: desde 1995, na Alemanha, houve 210.000 denúncias de abusos de pedofilia. Destas denúncias, só trezentas se referem a padres católicos. Isto é, só 0.2% por cento do total. E por que só se insiste em falar da Igreja, tentando inclusive envolver o Papa, acusando-o de responsabilidade por ter aceito um padre pedófilo na sua diocese, no tempo em que era arcebispo de Munique? Por que não se fala dos outros 99,98 por cento dos casos? [boa pergunta]

Se olhamos o clero do Brasil, em sua imensa maioria constituído de beneméritos ministros devotados à sua missão, com os limites humanos de que todos somos revestidos, a proporção é certamente parecida com a análise apresentada pelo Prof. Di Franco. Os raros casos de pedofilia constatados no clero brasileiro, por mais deploráveis que sejam, não justificam a hipócrita escandalização, levada em frente por meios de comunicação que trazem evidente a marca da tendenciosidade, que fica desmascarada à luz de qualquer dado objetivo.

A Igreja Católica está disposta a uma severa autocrítica de sua própria instituição, diante dos casos reais de pedofilia praticada por membros do seu clero. Ela aceita de bom grado os questionamentos objetivos que podem ser feitos pela sociedade. Mas ela dispensa a hipocrisia de quem generaliza as acusações, escondendo seus interesses escusos, e desvirtuando uma análise objetiva do problema da pedofilia.
(http://www.diocesedejales.org.br/)

17/03/2010

Por que participo da Igreja?

Recentemente, lembramos a figura de Carlo Carretto, Irmãozinho de Charles de Foucauld, no centenário do seu nascimento. Nada melhor, então, que dar a palavra diretamente a ele, neste tempo de Quaresma. O texto abaixo foi publicaddo por Christian Albini, teólogo leigo, italiano, em seu blog Sperare per Tutti, 04-03-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS


Quanto tu és contestável, Igreja, porém, quanto te amo! Quanto me fizeste sofrer, porém, quanto devo a ti! Gostaria de te ver destruída, porém, tenho necessidade da tua presença. Deste-me tantos escândalos, porém, me fizeste entender a santidade! Nada vi no mundo de mais obscurantista, mais comprometido, mais falso, e nada toquei de mais duro, de mais generoso, de mais belo.

Quantas vezes tive vontade de bater na tua face a porta da minha alma e quantas vezes rezei para poder morrer entre os teus braços seguros.

Não, não posso me livrar de ti, porque eu sou tu, mesmo não sendo completamente tu.

E depois aonde iria? Construir uma outra Igreja?

Mas não poderei construí-la senão com os mesmos defeitos, porque são os meus que trago dentro. E se a construir, será a Minha Igreja, não mais aquela de Cristo.

Anteontem, um amigo escreveu uma carta a um jornal: "Deixo a Igreja porque, com o seu comprometimento com os ricos, ela não é mais confiável". Me dá pena!

Ou é um sentimental que não tem experiência, e o desculpo; ou é um orgulhoso que acredita ser melhor do que os outros.

Nenhum de nós é confiável enquanto estiver sobre esta terra. São Francisco gritava: "Tu acreditas que sou santo e não sabes que ainda posso ter filhos com uma prostituta, se Cristo não me sustentar".

A credibilidade não é dos homens, é só de Deus e do Cristo. Dos homens é a fraqueza e talvez a boa vontade de fazer alguma coisa de bom com a ajuda da graça que brota das veias invisíveis da Igreja visível.

Talvez a Igreja de ontem era melhor do que a de hoje? Talvez a Igreja de Jerusalém era mais confiável do que a de Roma?

(…)

Quando eu era jovem, não entendia por que Jesus, apesar da negação de Pedro, quis que ele fosse chefe, seu sucessor, primeiro Papa. Agora, não me admiro mais e compreendo sempre melhor que ter fundado a Igreja sobre o túmulo de um traidor, de um homem que se assusta por causa da conversa fiada de uma serva, era uma advertência contínua para manter cada um de nós na humildade e na consciência de sua própria fragilidade.

Não, não vou sair desta Igreja fundada sobre uma pedra tão frágil, porque fundaria uma outra sobre uma outra pedra ainda mais frágil, que sou eu.

(…)

Mas depois há ainda uma outra coisa que é talvez mais bela. O Espírito Santo, que é o Amor, é capaz de nos ver santos, imaculados, belos, mesmo se vestidos como canalhas e adúlteros.

O perdão de Deus, quando nos toca, faz com que Zaqueu, o publicano, se torne transparente, e a pecadora Madalena, imaculada.

É como se o mal não pudesse tocar a profundidade metafísica do homem. É como se o Amor impedisse que a alma distante do Amor apodrecesse. "Eu coloquei os teus pecados atrás das minhas costas", diz Deus a qualquer um de nós, e continua: "Amei-te com amor eterno, por isso te reservei a minha bondade. Edificar-te-ei de novo, e tu serás reedificada, virgem Israel" (Ger 31,3-4).

Eis, ele nos chama "virgens" mesmo quando estamos retornando da enésima prostituição no corpo e no espírito e no coração.

Nisso, Deus é verdadeiramente Deus, isto é, o único capaz de fazer as "coisas novas".

Porque não me importa que Ele faça os céus e a terra novos, é mais necessário que ele faça "novos" os nossos corações.

E esse é o trabalho de Cristo.

E esse é o trabalho divino da Igreja.

Vocês gostariam de impedir esse "fazer novos os corações", expulsando alguém da assembleia do povo de Deus?

Ou vocês gostariam, procurando outro lugar mais seguro, de se colocar em perigo de perder o seu Espírito?

Frei Carlo Carretto



Carlo Carretto: profeta da pobreza e da laicidade



Há 100 anos, no dia 02 de abril de 1910, nascia Carlo Carretto, entre os maiores protagonistas daquele clima político eclesial que acompanhou as transformações do pós-guerra e que alimentou e levou a (parcial) cumprimento o evento conciliar. Mas Carretto está também entre as personalidades do movimento católico italiano que mais deixaram rastros na Igreja do pós-Concílio. A reportagem é de Valerio Gigante, publicada na revista italiana Adista, nº. 17, 27-02-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS

Justamente no centenário do seu nascimento, um livro de Gianni Di Santo ("Carlo Carretto. Il profeta di Spello", 2010, 175 páginas) percorre a sua vida, por meio de uma reconstrução pontual dos eventos fundamentais que marcaram a sua história humana, religiosa e política, as recordações de quem o conheceu, uma leitura da sua correspondência privada, dois textos inéditos.

A narração se concentra principalmente sobre o período sucessivo a 1946, ano em que Carretto se tornou presidente central da Juventude Italiana de Ação Católica (GIAC, na sigla em italiano). Dois anos depois, em setembro de 1948, por ocasião do 80º aniversário da fundação da Ação Católica, Carretto organizou uma grande manifestação dos jovens da AC em Roma: foi o famoso encontro dos 300 mil "baschi verdi".

Por causa da função diferente que aquela nova geração de jovens católicos deveria ter na Igreja e na sociedade italiana, nasce a ruptura com Luigi Gedda (naquele tempo, presidente do ramo masculino da AC), que pretendia imprimir à associação uma forte mudança de sentido conservador e clerical, principalmente após o êxito das eleições de abril daquele ano e a relação sempre mais tensa entre as instituições eclesiásticas e a esquerda de inspiração marxista (e, de fato, em 1949, chegou, pontual, a excomunhão de Pio XII aos comunistas).

"Nós tínhamos – lembra no livro um dos 'companheiros de viagem de Carretto, frei Arturo Paoliuma visão laica do compromisso temporal dos católicos na vida pública. Outros, incluindo Gedda, um pouco menos": "Naquele tempo, os jovens católicos eram vistos como aqueles que deviam amar e querer bem ao Papa. E só. Esse era o legado de um certo anticlericalismo vivido com a brecha da Porta Pia. Os jovens católicos deviam defender o Papa desses ataques".

Pelo contrário, explica Paoli, "com Carlo, entendemos logo que era possível fazer mais: preparar os jovens para se comprometer com a construção do reino de Deus aqui, hoje, na terra". Por isso, "recrutamos os melhores jovens da Itália".

Entre eles, "Umberto Eco, Pietro Pfanner, Cesare Graziani, Emanuele Milano, Luciano Tavazza, Wladimiro Dorigo, todas pessoas com qualidades intelectuais, e começamos a escrever e a mudar as nossas revistas, os jornais da associação. Foram anos belíssimos. O nosso Gioventù era o melhor jornal de jovens que se podia ler na Itália. Novas colunas de espiritualidade, editoriais sobre a política, sobre a sociedade civil, notícias".

Uma visão do papel do laicado católico na Itália do pós-guerra que levou Carretto em rota de colisão com o próprio Papa: "Certos episódios – relata ainda Paoli no livro – ficaram famosos: lembro, por exemplo, que algumas vezes o Papa o mandava chamar para lhe repreender certas intemperanças de alguns jovens da AC. Quando lhe perguntávamos como havia sido a visita, ele respondia sempre 'muito bem', seus olhos brilhavam, mas nós sabíamos que deviam passar algumas horas antes que ele fizesse também observações críticas. Porém, ele minimizava, mas sabíamos por outras vias que o Papa havia sido duro com ele. Começavam tempos difíceis, e Carlos os sentia muito".

Mas Carretto continuava pelo seu caminho. Até que, em 1952, encontrou-se com a impossibilidade de continuar com coerência o seu compromisso com a AC. Renunciou e, em 1954, tendo se aproximado à espiritualidade de Charles de Foucauld, tornou-se Irmãozinho do Evangelho. Depois de alguns anos transcorridos no ermo da Argélia, no deserto do Saara, em 1965 se transferiu a Spello, na Úmbria, onde deu vida a uma originalíssima fraternidade de oração e de acolhida.

Spello tornou-se assim meta de milhares de pessoas (principalmente jovens), crentes ou não, desejosas de uma experiência de fé vivida por meio de uma intensa (mas não "desencarnada") espiritualidade, vida comunitária, pobreza, trabalho manual e partilha. Spello foi também um importante lugar de reflexão e de ação política e eclesial, principalmente graças aos estímulos de Carretto, que também do seu ermo na Úmbria nunca renunciou a intervir sobre os temas mais ardentes da atualidade.

O livro percorre essas tomadas de posição: dos apelos à pobreza na Igreja, à oposição à guerra, à adesão ao grupo dos "católicos pelo Não" que defenderam, em 1974, o direito ao divórcio ("Votarei 'Não' – escreveu em uma intensa 'Oração sobre o referendo', publicada no jornal La Stampa no dia 07 de maio de 1974 – porque espero que, depois de uma boa lição recebida, seja a última vez que nós, católicos, ousemos nos apresentar em público como defensores de um compromisso passado e sem a inspiração da profecia e do amor pelo homem"). Até a "Carta a Pedro", na qual Carretto intervinha para defender a "escolha religiosa" da Ação Católica, fortemente ameaçada pela ação pastoral de João Paulo II e pelas críticas do Papa à presidência de Alberto Monticone.