16/03/2009

12º Intereclesial das CEBs

O 12º Intereclesial das CEBs será realizado nos dias 21 a 25 de julho de 2009, com o tema “CEBs: Ecologia e Missão” e o lema “Do Ventre da Terra, o grito que vem da Amazônia”


A história das CEBs: Elementos de reflexão

1. Um pouco de história das CEBs no Brasil

1.1. Gênese das CEBs

a) Gestação

Houve a preparação do terreno para o aparecimento das CEBs por parte da ACO (Ação Católica Operária), com o MEB (Movimento de Educação de Base), com o Movimento do Mundo Melhor, com os Planos de Pastoral da CNBB.

b) Nascimento

Podemos localizar o nascimento das CEBs no final da década de 50 e início da década de 60. Eles pipocaram um pouco por todo o Brasil, no campo e na cidade.

c) Batismo

O batismo das CEBs se deu com Medellín (1968). Inicialmente eram chamadas de Comunidades Cristãs de Base: “Assim, a comunidade cristã de base é o primeiro e fundamental núcleo eclesial, que deve, em seu próprio nível, responsabilizar-se pela riqueza e expansão da fé, como também pelo culto que é sua expressão. É ela , portanto, célula inicial de estruturação eclesial e foco de evangelização e atualmente fator primordial de promoção humana e desenvolvimento” .

d) Confirmação

A confirmação se deu em Puebla (1979), mas antes as CEBs já haviam encontrado sua legitimidade na palavra do magistério universal na Evangelii Nuntiandi, 58:”...São solidárias com a vida da mesma Igreja e alimentadas pela sua doutrina e conservam-se unidas aos seus pastores”. O Documento de Puebla assim se expressa: “As comunidades eclesiais de base que em 1968 eram apenas uma experiência incipiente amadureceram e multiplicaram-se sobretudo em alguns países. Em comunhão com seus bispos e como o pedia Medellín, converteram-se em centros de evangelização e em motores de libertação e de desenvolvimento” .

e) Maturidade

A maturidade das CEBs pode ser compreendida em três momentos:

- O primeiro se dá com o Documento da CNBB (1982): “Fenômeno estritamente eclesial, as CEBs em nosso país nasceram no seio da Igreja-instituição e tornaram-se “um novo modo de ser Igreja”. Pode-se afirmar que é ao redor delas que se desenvolve, e se desenvolverá cada vez mais, no futuro, a ação pastoral e evangelizadora da Igreja” ;
- O segundo momento acontece com o VI Encontro Intereclesial das CEBs, em Trindade-Go (1986), onde se cunhou a expressão – CEBs: Um modo novo de toda a Igreja ser. Visa-se com tal expressão mostrar que o espírito das CEBs deveria fermentar toda a instituição eclesial a partir da opção pelos pobres;
- O terceiro momento pode ser compreendido a partir da feliz expressão de D.Pedro Casaldáliga – CEBs: O modo normal de toda a Igreja ser. Esta expressão quer significar que as questões fundamentais defendidas pelas CEBs devem ser assimiladas por toda a Igreja-instituição, pois fazem parte da defesa da vida. Por detrás desta vivência está presente a intuição do Vaticano II, sobretudo da Gaudium et Spes (nos.1.11)

1.2. Encontros Intereclesiais das CEBs no Brasil e fundamentos teológicos

Os Encontros Intereclesiais de CEBs mostram a caminhada das CEBs e seus temas mostram como elas se inserem na realidade da vida do povo. Revelam também a aquisição feita pelas Cebs, nestas últimas décadas.

1.2.1. Os temas dos encontros

I - 1975 – Vitória-ES - Uma Igreja que nasce do Povo pelo Espírito de Deus.
II - 1976 – Vitória-ES - Igreja, Povo que caminha.
III - 1978 – João Pessoa-PB - Igreja, Povo que se liberta.
IV - 1981 –Itaici-Indaiatuba-SP - Igreja, Povo oprimido que se organiza para a libertação.
V - 1983 – Canindé-CE - Igreja, Povo unido, semente de uma nova sociedade.
VI - 1986 – Trindade-GO - Cebs, Povo de Deus em busca da Terra Prometida
VII - 1989 – Duque de Caxias-RJ - Cebs, Povo de Deus na América Latina a caminho da libertação.
VIII - 1992 - Santa Maria RS - Cebs, Povo de Deus renascendo das culturas oprimidas.
IX - 1997 - São Luís-MA - Cebs, Vida e Esperança nas massas.
X - 2000 - Ilhéus-BA – Cebs, Povo de Deus, 2000 anos de caminhada.
XI – 2005 – Ipatinga-MG – Cebs, espiritualidade libertadora: Seguir Jesus
no compromisso com os excluídos (em preparação).

1.2.2. Elementos teológicos do Povo de Deus

. Consciência de ser Povo e Povo de Deus

A consciência de ser povo e de formar uma comunidade parece estar na base da vivência das Cebs, bem na perspectiva do Vaticano II: "Aprouve a Deus santificar e salvar os seres humanos não singularmente, sem nenhuma conexão uns com os outros, mas constituí-los num povo, que o conhecesse na verdade e santamente o servisse" (L.G.,9,24; cf. 9,26). A dimensão da fé comunitária e a salvação na perspectiva coletiva estão presentes na caminhada das Cebs. Os nomes e os escritos do Novo Testamento são comunitários. "A comunidade eclesial é a matriz da fé do cristão/ã" .

. Consciência de ter uma história

Povo que caminha sabe que conta com a história. Tem uma raiz. Articula-se com uma tradição (Bíblia: leitura orante e comprometida): No êxodo, constitui-se como povo, que tem consciência de sua origem nos Patriarcas, em Adão e Eva e encontra-se em Deus como origem da vida e do mundo. Vê em Jesus a dinâmica de toda a história e o relançador do Projeto de Deus no Projeto do Reino, com carinho especial - opção pelos pobres (Lc.4,14-30; Mt.11,2-6. 25-26; Lc.7,18-23). Em Medellín, essa opção pelos pobres assume toda sua dimensão teológica (A opção pelos pobres é uma opção teocêntrica). Hoje essa opção pelos pobres parece sofrer, por parte da Igreja-instituição um certo ocultamento, como acontece no Documento Ecclesia in America, onde a questão dos pobres fica ofuscada por outras prioridades.

. Consciência de ser Povo Portador de uma Mensagem de libertação-salvação

A mensagem fundamental é o Evangelho de Jesus, o carpinteiro da Galiléia. Por isso, a missão fundamental do Povo de Deus é a de Evangelizar. A missão da Igreja é Evangelizar. Por isso ela se torna sacramento ou sinal e instrumento da união dos seres humanos com Deus. Hoje, por vários motivos, sobretudo por causa de suas opções não tão evangélicas, parece que estamos vivendo um inverno na Igreja! Entretanto, por ter consciência de ser a portadora desse Evangelho, o Povo de Deus (Igreja) compreende-se como povo messiânico (LG.,9) e missionário (L.G.9,26). A mensagem da salvação-libertação deve atingir todas as dimensões da vida humana: econômica, política, cultural, pedagógica, erótica-sexual, litúrgica e também ecológica (libertação da natureza - cf. Rm.8,18-25). A Igreja, Povo de Deus, tem em primeiro lugar uma referência a Jesus e seu Evangelho; em segundo lugar, à comunidade dos santos - comunidade santificante e, finalmente, como comunidade institucional visível . Ela é Igreja de Deus e Povo de Deus.

. Consciência de ser um corpo organizado: organicidade e diversidade do Povo de Deus

As Cebs descobrem o valor da comunhão nas diferenças e vão concretizando através da ministerialidade do Povo de Deus o sacerdócio comum dos fiéis (LG., 10). Há novas práticas que apontam para um novo horizonte de compreensão da participação dos fiéis na Igreja. A Igreja é Povo de Deus que busca uma convivência que se expressa também nos serviços, nos movimentos, nas estruturas de articulação e no catolicismo popular .

. Consciência do serviço-solidariedade universal (humana e cósmica)

A descoberta da solidariedade, da compaixão, da misericórdia faz parte integrante da caminhada das Cebs. A afirmação de ser semente de uma nova sociedade (1986) quer indicar o "papel protagônico no Projeto-processo mais amplo de uma Igreja dos Pobres" e que contribui para a construção de novas relações sociais entre as pessoas e os diferentes grupos humanos, para a construção de uma sociedade mais equilibrada, fraterna e solidária, onde acontecem as antecipações do Reino. O importante é o espírito, a referência inspiracional e não uma forma ou uma estrutura específica. Há "um tecido novo com práticas novas" .Um novo modo de ser.

A experiência das Cebs reencontra a prática de Jesus e seu sonho: reconstruir uma Igreja da misericórdia, que faz descer da cruz os povos crucificados e que se torna co-responsável na construção de uma solidariedade universal sobretudo com os pobres e excluídos .

Redescobre-se, na prática das Cebs, a dimensão profética: luta pela justiça e entrega da vida pelas vidas na doação de nossos mártires que reeditam o martírio de Jesus. Também essa dimensão tem sido ocultada nos últimos pronunciamentos oficiais. Faz parte do inverno da Igreja. No entanto, as Cebs retomam a memória perigosa e continuam celebrando a vida dos mártires: ladainhas, caminhadas, romarias...

As Cebs estão também se despertando para o grande sonho-desejo expresso por Jesus: "Que todos sejam um"! A dimensão ecumênica que despontou no encontro de Duque de Caxias (1989), vem dando seus frutos. A abertura ecumênica e macro-ecumênica tem sido, na América Latina, fruto nascido do serviço comum à missão libertadora (ecumenismo e diálogo religioso práxicos). Essa dimensão abre o caminho para o reconhecimento da alteridade e a beleza das diferenças (negros, índios, migrantes, mulheres, jovens, crianças), exigindo nova reflexão sobre as questões étnicas, de gênero e de geração, sem desprezar a questão básica das relações de classe. Estamos num novo momento de aprendizagem, onde a nova hospitalidade exige hospedar os outros dentro de nós . O respeito pela alteridade aponta para o desafio da inculturação libertadora e a construção de um projeto de Igreja ecumênico, aberto às diferenças e ao diálogo num mundo plural e que tenha os pobres como seu referencial básico.

Para continuar a leitura, clique no site do 12º Intereclesial das CEBs

13/03/2009

Dom Sérgio da Rocha

Tempo de Fraternidade

A palavra fraternidade tem sido bastante usada entre nós. Contudo, nem sempre as pessoas têm consciência clara do seu significado cristão. Na raiz da palavra encontra-se o termo latino "frater", que significa "irmão". Por isso, quando falamos em fraternidade, estamos nos referindo a ser irmão, a fazer-se irmão, a reconhecer a outra pessoa como irmão/irmã.

Acolher a fraternidade como valor ético implica em criar relacionamentos fraternos, em acolhida respeitosa e afetuosa, excluindo-se tudo o que destrói a vida, a dignidade e os direitos das pessoas. Quando nos referimos a "irmãos", certamente, incluímos a filiação comum daqueles e daquelas que assim são chamados.

Na fé cristã, cremos na filiação divina: somos filhos e filhas do mesmo Pai, que é Deus. Jesus Cristo revelou o rosto misericordioso do Pai, chamando-o carinhosamente de Abba, linguagem utilizada pela criança que abraçava o próprio pai com ternura e confiança.

Por isso, o rosto materno de Deus tem sido destacado por místicos, teólogos e papas, como João Paulo I. O rosto de Deus Pai não pode ser definido segundo os parâmetros da cultura patriarcal ou machista, mas segundo a revelação que se encontra em Jesus Cristo. Por que essa questão adquire tamanha relevância? Porque para se viver de modo cristão a fraternidade, é preciso ter presente a filiação divina.

Somos irmãos e irmãs porque filhos e filhas do mesmo Pai. Assim como numa família, nascemos irmãos, a partir do mesmo pai ou mãe, na grande família dos filhos e filhas de Deus, não se pode escolher quem é irmão, isto é, aceitar um como irmão e rejeitar outro. Pode se escolher amigos; irmãos, não; especialmente, quando a fraternidade tem seu sentido mais profundo em Deus.

É preciso reconhecer e acolher o outro como irmão, independente de gosto ou simpatia. Assim, a fraternidade torna-se caminho onde a justiça e a paz florescerão. O mundo se torna o jardim querido por Deus quando nos abrimos à vida fraterna.

Entretanto, vivemos numa sociedade marcada por muitas situações em que a fraternidade tem sido negada. Por isso, somos chamados a construir a fraternidade, a fazer valer a nossa condição de irmãos. É importante começar a viver a fraternidade nos círculos mais próximos: na família, na escola, no ambiente de trabalho, na comunidade.

Nestes ambientes, podemos fazer de modo privilegiado a experiência de aceitar e reconhecer os que convivem conosco como irmãos a ser respeitados e amados, com igual dignidade. É preciso, porém, ultrapassar os círculos mais próximos de convivência ou amizade. Graças a Deus, temos verificado belos gestos fraternos como o socorrer alguém que nem se conhece, emocionar-se com o sofrimento de alguém distante, ser solidário com quem é vítima de injustiças ou tragédias, mesmo sem saber o seu nome.

A vida fraterna se faz de proximidade afetuosa, gratuidade e generosidade.

Contudo, a fraternidade não depende apenas de gestos de boa vontade, em nível pessoal ou familiar. Há resistências e desafios que precisam ser superados para que a fraternidade se torne realidade no cotidiano, mas também, na vida social.

Há campos ou situações em que a fraternidade precisa acontecer que envolvem instituições e estruturas sociais. Por isso, a cada ano, a Campanha da Fraternidade contempla um aspecto da realidade social brasileira, iluminando-o com a Palavra de Deus e estimulando a vivência da fraternidade, através da participação responsável dos cristãos na vida social.

O tema desafiador deste ano, "Fraternidade e Segurança Pública", quer contribuir para a promoção da justiça social e da paz. Por isso, é acompanhado do lema "A paz é fruto da justiça". Assumir e viver a "fraternidade", com o seu rico significado cristão, representa uma contribuição preciosa na construção da justiça, da segurança e da paz.

Fonte: Arquidiocese de Teresina

12/03/2009

Pe. Dário

Sobre violência e aborto

Pe. Dário é missionario camboniano.
Fonte: ADITAL


Diante das polêmicas desses dias sobre o aborto realizado para a vida da criança estuprada de Recife, é importante que todos os cristãos expressem seu pensamento, contribuindo à construção de uma igreja plural em busca da verdade (que nunca ninguém possuirá por inteiro).

Como padre missionário dessa igreja, entendo e defendo sua preocupação na luta contra o aborto (sobretudo quando essa luta vai além da denúncia e se faz articulação concreta de uma rede de proteção às mães, de prevenção da violência sexual e de promoção da dignidade da mulher: graças a Deus hoje muitas pessoas na igreja trabalham silenciosamente para isso!)

Não entendo, ao contrário desaprovo a intervenção do bispo de Recife que excomungou os médicos autores do aborto em questão. A discussão seria demorada, limito-me a oferecer algumas provocações para a reflexão de todos.

* Nos deparamos com uma situação-limite, um caso extremo. Nunca se pode extrapolar de um caso limite uma lei geral e válida para todos. Nem considero legítimo fazer uso dessas situações extremas para divulgar a norma moral ordinária de uma instituição.

Vou fazer um exemplo: é claro que de frente a um homicídio por legítima defesa ninguém pode clamar pelo desrespeito à vida e concluir que a sociedade está virando em favor do assassinato. Não pode um caso limite tornar-se referência da norma moral.

Ao contrário, especialmente nesses casos limites, cabe à Igreja a misericórdia, a compaixão, uma presença solidária e possivelmente silenciosa ao lado das vítimas e uma condenação dura das condições e pessoas que provocaram a violência.

* A opinião de um bispo, mesmo se suportada por intervenções (menos polêmicas e violentas) do Vaticano e da CNBB, ainda não constitui doutrina moral oficial da Igreja. Quanto mais a igreja nas bases expressar sua visão complementar e não silenciar o dissenso, tanto mais contribuiremos à construção de uma comunidade de fé plural, em busca da verdade, capaz de diálogo e não necessariamente unida sobre todas as complexas questões de moral e ética. Hoje (mas já no Evangelho é assim) faz mais sentido uma pergunta humilde e sedenta de verdade do que uma resposta firme, mas arrogante e incapaz de diálogo.

* É difícil estabelecer (cientifica e eticamente) quando começa a vida; não faz sentido colocar um ponto unívoco de referência, sendo a própria vida um processo. É complexo definir quem tem mais direito de viver, nos casos-limites como aquele ao qual nos referimos. A igreja e a ciência precisam de ajuda recíproca e de diálogo construtivo. Todas as vezes que o diálogo é interrompido pelo apelo a uma norma moral superior, o processo de respeito da vida e da humanidade regressa um pouco.

Outra igreja é possível e já deixou seu marco inapagável com dom Helder Camara, na própria diocese de Recife, de onde o atual bispo soltou sua condenação inapelável à excomunhão.

Graças a Deus, há bispos e bispos. Nessa pluralidade, a igreja avança se tiver a coragem do diálogo e, sobretudo, se anunciar seus valores com a práxis humilde do serviço e do exemplo concreto.

Dom Helder, no centenário de seu nascimento, continua protegendo essa igreja-povo-de-Deus.


O nome escondido de Deus é revelado

Mark Sameth, formado pelo Hebrew Union College-Jewish Institute of Religion, rabino da Sinagoga Comunitária de Pleasantville, em Nova Iorque, publicou um polêmico artigo na revista Reform Judaism, em sua edição do primeiro quadrimestre de 2009. No texto, Sameth defende que o verdadeiro nome de Deus, tão buscado por gerações e gerações de judeus, é, na verdade, um nome andrógino, que mescla em equidade "todas as energias masculinas e femininas". A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS


Quando Deus começa a criar o primeiro ser humano – Adão – ele diz: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança". O texto continua: "Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher" (Gênesis 1, 26-27).

O texto parece estar dizendo (e os rabinos do Talmud e do Midrash entendem dessa forma) que Adão foi criado por Deus como homem e mulher. Os rabinos falam abertamente disso, e até compuseram com esmero relatos especulativos sobre a separação dessa criatura hermafrodita em personagens homem e mulher que conhecemos como Adão e Eva. O que os rabinos não estavam dispostos a discutir abertamente era até onde essa criatura terrena foi criada "b’tzelem Elohim", na imagem de gênero duplo de Deus.

Mas se lermos o texto como um místico o leria, prestando uma atenção extremamente grande e assumindo que o texto bíblico mais esconde do que revela, podemos encontrar pistas que se referem à natureza andrógina de Deus. Consideremos, por exemplo, que a Torá:

  • identifica Moisés como um pai que amamenta (Números 11, 12) [1]
  • nos diz que Adão deu o nome de Eva a sua esposa "ki hu hay’tah eim", "porque ele era a mãe de todos os seres vivos" (Gênesis 3, 20) [2]
  • narra que Abraão instruiu o seu servo para estar atento a uma mulher que irá dar água aos camelos porque "hu ha’ishah", "ele será a mulher" para o meu filho (Gênesis 24, 44) [3]
  • e a lista continua.

Por que a Torá repetidamente confunde os gêneros de seus personagens principais? A que a Torá está aludindo?

Eu acredito que esses não são erros/enganos de escrita, mas a verdadeira chave para abrir um dos mistérios mais permanentes da Torá.

Mas antes uma nota sobre as muitas ocorrências estranhas na Torá sobre os nomes. O nome do nosso patriarca Jacó é duas vezes modificado para Israel. Faraó não é um nome. E Moisés não é um nome. Moisés, em egípcio, significa "nascido de" – assim como no nome Tutmosis (nascido de Tut).

Consideremos: se o nome do nosso grande líder Moisés não é realmente um nome, ele significa alguma outra coisa? De um modo interessante, se soletrarmos o nome Moisés em hebraico de trás para frente, Moshe se torna HaShem, que literalmente significa "O Nome", uma das formas dos judeus se referirem a Deus.

Então, consideremos: se o nome de Moisés soletrado de trás para frente se torna HaShem, refletindo a natureza divina do ser humano, o nome de Deus, soletrado de trás para frente, não deveria refletir, da mesma forma, algo essencial sobre o gênero humano? De fato, sim.

Observem o Yod-He-Vau-He [YHWH], o inefável nome de Deus. Conhecido como o Tetragrammaton, permitiu-se que o Nome fosse usado nas saudações diárias pelo menos até o ano 586 a.C., quando o Primeiro Templo foi destruído (Mishnah Berakhot 9, 5). Nesse tempo, sua pronúncia era permitida apenas aos sacerdotes (Mishnah Sotah 7, 6), que o pronunciavam em sua benção pública ao povo. Depois da morte do Sumo Sacerdote Shimon HaTzaddik, por volta do ano 300 a.C., (Talmud Babilônico, Tractate Yoma 39b), o nome foi pronunciado apenas pelo Sumo Sacerdote no Santo dos Santos no Yom Kippur (Mishnah Sotah 7:6; Mishnah Tamid 7, 2). Os sábios passavam a pronúncia do Nome aos seus discípulos apenas uma vez (alguns dizem duas vezes) a cada sete anos (Talmud Babilônico, Tractate Kiddushin 71a). Finalmente, com a destruição do Segundo Templo em 70 a.C., o Nome nunca mais foi pronunciado.

Mais tarde, alguns especularam que o Nome era pronunciado como "Jeová" ou possivelmente "Yahweh", mas os estudiosos não concordaram. Ninguém sabia com certeza como se pronunciava o inefável Nome de Deus.

Mas e se o Yod-He-Vau-He foi por muito tempo impronunciável pela simples razão de que está escrito ao contrário?

De trás para frente, o Nome de Deus se torna He-Vau-He-Yod. E essas duas sílabas, He-Vau e He-Yod, podem ser vocalizadas como os sons equivalentes dos pronomes hebraicos "hu" e "hi", que são traduzidos como "ele" e "ela" respectivamente. Combinando-os, He-Vau e He-Yod se torna "Ele-Ela".

Ele-Ela, eu acredito, é o impronunciável Nome de Deus! Esse segredo esteve escondido a olhos vistos durante todos esses anos, porque se afirma explicitamente na Torá: Deus criou a terra e as criaturas à própria imagem de Deus, masculino e feminino.

É desnecessário dizer que a noção de um Deus andrógino que cria essencialmente seres humanos andróginos tem profundas implicações. Há muito tempo, o Zohar, o livro de misticismo judeu por excelência, declarou: "É de incumbência de um homem ser sempre masculino e feminino" – uma afirmação estranha, especialmente no século XIII. Mas a nossa sociedade recentemente começou a mostrar sinais de ser capaz de entender e de querer aceitar essa mensagem.

O Dr. James Garbarino, um dos especialistas mais influentes da nossa geração em desenvolvimento de crianças, observa que as chamadas "meninas tradicionais que tem apenas características 'femininas' estão em desvantagem no que se refere ao coping[4]" e os chamados meninos tradicionais também estão em desvantagem. "Combinar os traços tradicionalmente femininos com os traços masculinos", escreveu Garbarino em "See Jane Hit", "contribui para uma maior resiliência".

O rabino Jeffrey Salkin, autor de "Searching for My Brothers", indica que as culturas judaicas e ocidentais mantiveram por muito tempo perspectivas diferentes sobre a questão da androginia. Enquanto a cultura ocidental diz "seja um homem", ele explica, a mensagem da cultura judaica sempre foi "seja um homem bom". Ser um homem bom – o que ele define como "masculinidade madura" – é "uma combinação tanto de traços masculinos quanto de femininos".

Em seu famoso livro "Deborah, Golda, and Me", a feminista judaica Letty Cottin Pogrebin desafia os judeus a "ampliar a capacidade do homem para as expressões emocionais e para o cuidado com a família, e a expandir as opções das crianças independentemente de seu gênero. É possível", ela pergunta retoricamente, "que maiores oportunidades para as crianças, homens mais amorosos e mulheres mais competentes e confiantes não sejam bons para os judeus?".

Ao discutir o patriarcado em "The Torah: A Women’s Commentary", Rachel Adler comenta que o mundo "implora por reparos" – não apenas por causa das mulheres, mas por causa dos homens também. O trabalho do judaísmo reformado – de fato, o trabalho de todas as comunidades religiosas progressistas e igualitárias do mundo – requer um compromisso sempre mais profundo com esse reparo. Isso significa esforçar-se pela integridade em nós mesmos; com os nossos familiares; na relação entre si mesmo e a comunidade; e na relação entre as comunidades individuais e o mundo como um todo. Significa fazer tudo o que fizermos, nas palavras dos nossos místicos antigos, "l’shem yichud", basicamente pela causa da unificação de Deus.

Agora, baseados nessa nova compreensão de Deus como Ele-Ela, é o momento de livrar-nos da concepção estereotipada de Deus como um velho homem com uma longa barba branca nas nuvens. Pensar em Deus como Ele-Ela nos concede a liberdade de ver a Divindade como a totalidade de toda a energia masculina e feminina.

É o momento de considerarmos a mudança de nossas orações mais sagradas, particularmente aquelas que se referem a Deus como Senhor. Os antigos rabinos empregaram a palavra "Senhor" (Adonai, em hebraico) como um substituto respeitável para o impronunciável Tetragrammaton e recentemente alguns judeus reformistas – incluindo os editores de "The Torah: A Women’s Commentary" – preferiram não usá-lo. Com essa nova cognição do Tetragrammaton, podemos revisitar confiantemente nossa declaração de fé: "Shema Yisrael, Adonai Elohenu, Adonai Echad – Escuta, Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é Um" (Deuteronômio 6, 4) e afirmar, pelo contrário: "Shema Yisrael, Adonai Elohenu, Adonai Echad – Escuta, Israel, Ele-Ela é nosso Deus, Ele-Ela é Um".

É o momento de afirmarmos que a tradição de igualdade de gênero da reforma do judaísmo – que deu poder às mulheres para se tornarem rabinas, cantoras e líderes leigas da congregação – não é uma invenção moderna e, de certa forma, menos autêntica, mas sim emblemática da mais antiga concepção de Deus do judaísmo.

E é o momento de repensarmos como escolhemos passar adiante a nossa herança às próximas gerações. Se você já tentou ensinar Deus a uma classe de estudantes judeus precoces, você provavelmente já ouviu aquele sussurro do fundo da sala: "Sim, claro". Bem, recentemente eu aproveitei a oportunidade e ensinei a minha turma pós-bar/bat mitzvah a minha idéia do nome secreto de Deus e seu significado. Então, discutimos sobre o que isso implicaria em nossas relações entre nós mesmos e com Deus. Quando terminamos, uma das jovens voltou-se para os outros que estavam sentados ao redor da mesa e disse as palavras pelas quais os rabinos dão sua vida: "O judaísmo", ela exclamou, "é tão legal".

Notas:

1. O versículo, na edição Ave Maria, diz: "Porventura fui eu que concebi esse povo? Ou acaso fui eu que o dei à luz, para me dizerdes: leva-o em teu seio como a ama costuma levar o bebê, para a terra que, com juramento, prometi aos seus pais?".

2. "Adão pôs à sua mulher o nome de Eva, porque ela era a mãe de todos os viventes", na edição Ave Maria. Ou "O homem chamou sua mulher Eva, por ser a mãe de todos os viventes", na Bíblia de Jerusalém.

3. "A jovem que vier buscar água e a quem eu disser: Dá-me de beber, por favor, um pouco de água de teu cântaro, e que responder Bebe, não somente tu, mas tirarei água também para os camelos, essa deverá ser a mulher que o Ssenhor destinou para o filho do meu senhor’."

4. Coping é o termo da psicologia utilizado para designar o conjunto de estratégias cognitivas e comportamentais desenvolvidas pelo sujeito para lidar com as exigências internas e externas que são avaliadas como excessivas (circunstâncias adversas ou estressantes), ou as reações emocionais dessas exigências.

10/03/2009

Irmã Sandra M. Schneiders

A investigação do Vaticano. 'Igreja sempre resistiu a novas formas de vida religiosa"

Quando o Vaticano anunciou, em janeiro, que iria realizar uma investigação, chamada de visita apostólica, dos institutos de vida religiosa feminina nos EUA, muitas religiosas foram tomadas de surpresa. As reações foram diversas. Algumas acolheram o estudo, outras ficaram ansiosas a respeito dele. A Irmã Sandra M. Schneiders, das Irmãs Servas do Coração Imaculado de Maria, de Monroe, Michigan, compartilhou alguns pensamentos com algumas colegas e amigas em um e-mail que não foi pensado para ser publicado. Mas a sua carta se tornou pública e o National Catholic Reporter recebeu diversos pedidos para publicar a carta. O sítio contatou a Ir. Schneiders, que também é professora de Novo Testamento e de espiritualidade cristã na Escola Jesuíta de Teologia, em Berkeley, Califórnia. Ela, então, deu a permissão de partilhar a sua carta com os leitores. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Fonte: UNISINOS

Nota: O texto que segue não é e nunca foi um artigo nem foi pensado para ser publicado. Ele teve origem como uma resposta espontânea em uma conversa por e-mail entre algumas colegas. Tornou-se pública e, por isso, estou fazendo algumas pequenas mudanças (entre colchetes) para esclarecer as referências aos leitores que podem não estar informados sobre o assunto em questão.


Queridas amigas,

Obrigado pelos e-mails de vocês.

Não me sinto inclinada a entrar em pânico com essa investigação – seja lá o que ela for. A recém passamos por uma investigação semelhante dos seminários, igualmente agressiva e desonesta. Não ponho nenhum crédito em que esse estudo será amigável, transparente, com o objetivo de ajudar etc. É uma medida hostil, e as conclusões já estão dadas. Ele foi pensado para ser intimidador. Mas eu acho que se acreditamos no que estamos fazendo (e definitivamente acreditamos), só temos que ser pacíficas com relação ao nosso trabalho, que é o de anunciar o Evangelho de Jesus Cristo, promovendo o Reino de Deus neste mundo.

Não podemos, claro, impedir que investiguem. Mas podemos recebê-los, educada e amavelmente, para o que for, a esses visitantes não-convidados, que devem ser recebidos na sala de visitas, e não convidados a conhecer toda a casa. Quando fizerem perguntas que não deveriam ser feitas, as questões devem ser respondidas de acordo. Eu só espero que não pensemos, como as religiosas norte-americanas geralmente fazem, que, por uma total "abertura" e esforço em "dialogar", chegaremos a uma compreensão e aceitação mútuas. Isso não é algo mútuo e não é um diálogo. Os investigadores não estão vindo para compreender – acreditem-me, descobrimos isso na investigação dos seminários. Então, vamos ser honestas, mas reservadas, não forneçamos munições que possam ser usadas contra nós, vamos ser não-violentas mesmo que enfrentemos violência, mas não sejamos ingênuas. A resistência não-violenta é o que funciona no fim das contas, assim como descobrimos em tantos outros campos.

Em meu trabalho na renovação da vida religiosa ao longo dos últimos oito anos, cheguei à conclusão de que as congregações como as nossas [o tipo representado pela Leadership Conference of Women Religious (LCWR) {Conferência das Superioras Religiosas} neste país] têm, de fato, dado a luz a novas formas de vida religiosa. Realmente, não somos mais "congregações dedicadas a trabalhos de apostolado" – isto é, comunidades monásticas cujos membros "vão para fora" para realizar trabalhos institucionalizados designados basicamente pela hierarquia como uma extensão da sua agenda, isto é, em escolas e hospitais católicos etc.

Nós somos religiosas ministeriais. O ministério é integral em toda a nossa identidade e vocação. Ele surge desde o nosso batismo especificado pela profissão de fé, é discernido pelas superioras de nossa congregação e é realizado de acordo com o carisma da nossa congregação, não por uma delegação da hierarquia. Não somos monásticas em casa. Não somos extensões do clero lá fora. Toda a nossa vida é afetada pela nossa identidade ministerial: buscando lugares (geralmente às margens da Igreja e da sociedade) onde a necessidade do Evangelho é maior (que pode ser em instituições da Igreja, mas geralmente não); vivendo de uma forma que contribua com o nosso ministério; pregando o Evangelho livremente assim como Jesus encarregou os seus companheiros temporários ou de sempre a fazer. Nossa vida de comunidade e nossos ministérios estão associados, mas não como "vida comum", no sentido de todo mundo no mesmo lugar na mesma hora fazendo a mesma coisa.

A fase de "atualização" pós-conciliar para nós foi breve. Damo-nos conta, por nosso retorno ao Evangelho e aos nossos próprios fundamentos, de que somos chamadas a uma renovação muito mais radical [em profundidade] do que a ajustes ou estilos de vida superficiais. Não há retorno. Mas eu acho que temos que pedir isso, calma e firmemente, em face desse esforço agora organizado para nos levar de volta à forma antiga. Somos tão diferentes das "congregações religiosas apostólicas" [como as representadas pelo Council of Major Superiors of Women Religious, CMSWR {Conselho de Superioras Religiosas}] (que o Vaticano aprova muito mais) como os monges mendicantes eram diferentes dos monges beneditinos. A grande diferença é que elas [as congregações religiosas apostólicas] leram o {decreto} "Perfectae Caritatis" e fizeram o que ele pedia: aprofundaram a sua espiritualidade (eu espero) e fizeram algumas atualizações – hábitos mais curtos, um cronograma mais flexível, abandonando costumes que eram estranhos etc. Nós lemos o decreto "Perfectae Caritatis" através das lentes da "Gaudium et Spes" e da "Lumen Gentium", e fomos chamadas a sair do modo monástico-apostólico e entrar no mundo que a "Gaudium et Spes" declarou que a Igreja abraçava depois de séculos de rejeição.

Não há nenhum problema em que as comunidades do tipo CMSWR continuem com a forma antiga. O beneditismo não desapareceu quando os franciscanos foram fundados. Apenas haverá um problema se elas se sentirem chamadas a impedir a jornada em que nós estamos. Aí é onde, em minha opinião, temos que ser tão corajosas como as nossas ancestrais como Angela Merici [fundadora das ursulinas] e Mary Ward [Instituto Beatíssima Virgem Maria] e Nano Nagle [Irmãs da Apresentação] e Marguerite Bourgeoys [Congregação de Notre-Dame] e Louise de Marillac [Filhas da Caridade] e todas as outras pioneiras da vida religiosa apostólica muito antes que fosse oficialmente aprovada em 1900. A Igreja institucional sempre resistiu a novas formas de vida religiosa, especialmente entre mulheres. Mas o novo continuará a acontecer. Neste momento da história, nós o somos. Então, vamos ser o que somos: religiosas que não estão enclausuradas e ministras que não são ordenadas. O direito canônico ainda não tem categorias para essa combinação. Mas nós existimos. A lei segue a vida, e não vice-versa.

Sobre o "simpósio" do Stonehill [ocorrido no Stonehill College, 2008, e muito crítico com relação às congregações do tipo LCWR] – não foi um simpósio em que as pessoas se reuniam para compartilhar opiniões diferentes no esforço de chegar a uma verdade maior. Foi uma disputa vigorosa entre aquelas que estavam convencidas de que estavam certas e que só podem estar certas se as pessoas que não são como elas estão erradas. Elas estavam ouvindo a si mesmas. Está bem – contanto que não persigam as outras pessoas. Nós não estamos atrás delas. Essa é uma guerra falsa que está sendo incitada pelo Vaticano ao instigar os amedrontados. Não entremos nela. Também, qual é a pior coisa que pode acontecer a partir dessa investigação? Eles certamente não vão fechar 95% das congregações religiosas deste país, mesmo se quisessem, assim como não fecharam todos os seminários que não estavam ensinando a teologia moral do século XIX ou que não compraram a linha oficial de que os escândalos de abuso sexual por parte do clero foram causados não por bispos corruptos que protegiam padres pedófilos, mas por homossexuais nos seminários.

Bem, era isso o que eu tinha a dizer. Eu me recuso a entrar em pânico sobre isso. Há coisas melhores para se fazer. Sempre me alegro em ouvir vocês sobre esses temas.

Paz e coragem,
Sandra

Monge Marcelo Barros

Excomunhão e Diálogo

Neste mês de março, as comunidades cristãs populares celebram a preciosa memória do martírio de Dom Oscar Romero, arcebispo de El Salvador, assassinado por militares ligados ao governo do país. O seu crime foi ter consagrado sua vida à defesa intransigente dos mais pobres e perseguidos pelo regime. Dom Oscar Romero e Dom Helder Camara foram os bispos latino-americanos mais dedicados a aplicar a renovação da Igreja, proposta pelo Concílio Vaticano II (1965) e que estes mesmos atualizaram para a América Latina na famosa conferência dos bispos de Medellín (1968).

Desta época para cá, muita coisa mudou na Igreja e no mundo. Em sua comovente carta circular de 2009, Dom Pedro Casaldáliga começa citando o cardeal Martini, ex-arcebispo de Milão que, em uma entrevista publicada em livro, declarou não ter mais os mesmos sonhos a respeito da renovação da Igreja. Dom Pedro contextualiza o que ele quis dizer e explica: "Ele e milhões de pessoas na Igreja sonhamos com a «outra Igreja possível", ao serviço do "outro Mundo possível".

De fato, graças a Deus, no Brasil, continuamos sempre a ter exemplo de bispos católicos, tanto mais velhos, quanto mais novos, simples, despojados, abertos ao diálogo com o povo, sensíveis aos pobres e que, mesmo em meio a uma conjuntura desfavorável e às vezes contrária, procuram seguir as orientações do Concílio Vaticano II, como Dom Romero fez e propunha.

Na contramão deste espírito, o povo brasileiro é surpreendido por duas notícias diferentes: Dom José Cardoso, arcebispo de Olinda e Recife, excomungou publicamente médicos/as, enfermeiros/as e até a mãe da criança que, grávida aos nove anos de idade e de gêmeos, foi submetida a um aborto cirúrgico clinicamente recomendado e de urgência. Segundo o médico, morreriam, ela e as crianças, se não fizessem a operação. Como o arcebispo condenou os médicos e não deu uma palavra sobre o padrasto que a estuprou, os jornalistas o questionaram. Ele respondeu: "O estupro é menos grave do que o crime do aborto".

Nos mesmos dias, em João Pessoa, o arcebispo Dom Aldo Pagotto suspendeu da ordem sacerdotal o padre Luiz Couto, deputado federal dos mais votados no Estado, porque este declarou em uma entrevista a uma revista ser favorável ao uso da camisinha e à liberdade dos padres casarem (celibato livre e facultativo). Acontece que neste momento, o padre Couto, coordenador da Comissão de Direitos Humanos que investiga os crimes do esquadrão da morte, está ameaçado de morte pelos grupos da fronteira do Estado e, na semana passada, integrantes destes grupos assassinaram o vice-presidente do PT em Pernambuco.

Os meios de opinião pública têm comentado estes casos, em geral, falando da Igreja que passa a um "período de trevas" (Alberto Dines) ou que volta ao regime da inquisição e assim por diante. Não é justo.
Além de que a Igreja é uma realidade muito mais ampla e complexa, estes dois bispos não representam o modo de ser e de agir da maioria dos bispos brasileiros. Muitos são conservadores, mas não cruzados de uma ideologia absolutizada e confundida com o Evangelho.

No tempo de Dom Oscar Romero, a proposta da Igreja foi passar desta cultura de excomungar pessoas, por isso ou por aquilo, para a postura radical do diálogo. O papa Paulo VI dizia que o diálogo foi iniciado por Deus e que tudo se deveria tentar resolver, em primeiro lugar, pelo diálogo. Fez sucesso em todo o mundo um livro chamado "Do Anátema ao Diálogo" de Roger Garaudi.

Na altura dos seus mais de 80 anos, na sua carta às comunidades, Dom Pedro Casaldáliga reafirma: "Como Igreja queremos viver, à luz do Evangelho, a paixão obsessiva de Jesus, o Reino. Queremos ser Igreja da opção pelos pobres, comunidade ecumênica e macroecumênica também. O Deus em quem acreditamos, o Abbá de Jesus, não pode ser de jeito nenhum causa de fundamentalismos, de exclusões, de inclusões absorventes, de orgulho proselitista. Chega de fazermos do nosso Deus o único Deus verdadeiro. "Meu Deus, me deixa ver a Deus?". (...). A Igreja será uma rede de comunidades uma Boa Nova de misericórdia, de acolhida, de perdão, de ternura, samaritana à beira de todos os caminhos da Humanidade. Seguiremos fazendo que se viva na prática eclesial a advertência de Jesus: "Não será assim entre vocês" (Mt 21,26). "A autoridade seja serviço".

Fonte: ADITAL

Dom Sérgio da Rocha

Centenário de Dom Hélder Câmara

A celebração do centenário de alguém que amamos já é por si mesmo motivo de grande alegria e ação de graças. A celebração do nascimento de Dom Hélder Câmara, reveste-se de especial significado, pela sua importância eclesial e social, trazendo consigo a gratidão, o reconhecimento e a admiração de inúmeras pessoas e organizações espalhadas por todo o Brasil e pelo mundo. É uma ocasião especial para se conhecer sua vida centenária, seus escritos unindo profecia e poesia, sua fecunda atuação na Igreja e na sociedade, enfim, para agradecer a Deus por ele e com ele aprender. Em nosso querido Nordeste, temos razões ainda maiores para celebrar o seu centenário, pois se trata de um nordestino que embora tenha se tornado cidadão do mundo continuou fiel às suas raízes, solidário com o povo nordestino em suas alegrias e em suas dores. Nascido aos 07 de fevereiro de 1909, em Fortaleza, Dom Helder faleceu no Recife, aos 27 de agosto de 1999, como Arcebispo Emérito de Olinda e Recife.

O centenário do nascimento de Dom Helder possui uma importância que vai muito além da Igreja Católica, pois sua profética atuação pastoral, especialmente, no período da ditadura militar, repercutiu enormemente na sociedade brasileira e no exterior. Muito já se tem falado, escrito e estudado sobre ele. Por que se tornou alguém tão conhecido e tão amado? É difícil resumir em poucas palavras a resposta, pela grandeza de sua vida e missão. Sua atuação na Igreja Católica está marcada, dentre tantas outras iniciativas, pela sua participação decisiva na fundação de organismos de comunhão eclesial como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), bem como, por sua marcante atuação no grupo dos bispos do Terceiro Mundo durante o Concílio Vaticano II.

Revelava-se assim homem do diálogo, da comunhão e da co-responsabilidade, no seio da Igreja Católica. Místico que se emocionava ao celebrar a eucaristia e se comovia em encontrar Cristo nos pobres e sofredores, revelou a ternura de Deus pelos pequenos, com os quais se identificou. Na sociedade brasileira e no mundo, sua corajosa luta em favor dos direitos humanos, especialmente, da liberdade política e do direito dos pobres, fez dele um grande profeta da justiça, da esperança e da paz. Por sua atuação profética foi incompreendido e perseguido, como testemunha o período fecundo e sofrido de seu ministério durante a ditadura militar. Sua palavra continua a ecoar, abrindo horizontes e estimulando a caminhar na luta pela justiça e a paz. Seu sonho para este novo milênio, um mundo sem miséria e sem fome, continua a desafiar e animar a ação social e política dos cristãos. Bendito seja Deus por Dom Helder!

Fonte: Arquidiocese de Teresina

08/03/2009

Entrevista - Cecília Pires

“A mulher, talvez, até nem precisasse de um dia especial”.


Transformações, fortalecimentos e lutas marcam a vida das mulheres há muitos séculos. Pelas batalhas que travou e pelas dificuldades e desigualdades que enfrenta ainda hoje, a mulher ganhou um dia, o dia 8 de março. Para a filósofa Cecília Pires, em entrevista concedida à IHU On-Line, essa é uma data que nem precisaria existir se as pessoas voltassem a si mesmos e recompusessem um processo de integração com a sua humanidade.

A partir da sua própria história como filósofa num campo onde o homem tem maior presença e destacando exemplos de mulheres que contribuem para o fortalecimento da cultura da mulher, ela nos concedeu essa entrevista para repensarmos o que é ser mulher, atualmente.

Graduada em Filosofia, Pires é especialista em Orientação Educacional e mestre em Filosofia, pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Cursou doutorado em Filosofia, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com a tese O ISEB e a questão do nacionalismo. É pós-doutora pela Universidade Paris I, França. Professora nos cursos de graduação e pós-graduação de Filosofia da Unisinos, escreveu, entre outros, Reflexões sobre Filosofia Política (Santa Maria: Pallotti, 1986) e Ética da Necessidade e outros desafios (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2004). Organizou Vozes silenciadas. Ensaios de Ética e Filosofia Política (Ijuí: Editora UNIJUÍ, 2003).
Fonte: UNISINOS


IHU On-Line – Quem é a mulher hoje?

Cecília Pires – Essa é uma pergunta que exige algumas identificações. A mulher hoje se traduz por ser um sujeito de forte consciência de si mesmo, de sua identidade e seus direitos e perspectivas de vida, trabalho e realização. Penso que toda essa questão da comemoração do 8 de março (que tem a ver com a chacina que foi feita com as tecelãs de uma fábrica de Nova Iorque) mostrou uma evolução grande do papel da mulher no mundo, em todos os aspectos, desde a família, trabalho, lazer, vida política e religião. Penso, contudo, que em determinadas culturas a mulher ainda tem um papel secundário, submetida a vários processos de humilhação e exclusão social, e que as coisas vividas por ela ainda não são plenas. A mulher hoje é um sujeito que chegou a um lugar social histórico de reconhecimento. Ainda há, contudo, muitas coisas a serem resolvidas.

IHU On-Line – Quais são suas maiores conquistas e seus maiores desafios?

Cecília Pires – O desafio da mulher hoje é uma compreensão do equilíbrio e da paz no mundo. Não que a mulher tenha que ser um eixo desse equilíbrio e paz, e falo isso do ponto de vista da minha subjetividade. Acredito que o mundo hoje precisa de muita paz, serenidade e equilíbrio, e o sujeito masculino da espécie é muito agressivo, belicoso, sai muito à caça, à dominação, talvez fazendo sofisticadamente no momento contemporâneo aquilo que já se fazia antes. A mulher cuidava da prole e o homem saia à caça. Esses papéis não se inverteram necessariamente. Eles se reproduziram de forma diferente.

Mas o desafio do equilíbrio no mundo hoje para a mulher é a questão maior, sobretudo quando vemos mulheres em lugares de destaque na política nacional e internacional. A questão da serenidade e da delicadeza, que fazem parte do universo feminino, sem qualquer tipo de discriminação à figura do masculino, que também pode ser delicado e equilibrado, é o grande desafio: junto com os companheiros homens, pensar a paz no mundo. As guerras, agressões e conflitos já se deram de todas as formas.

Lucidez e cumplicidade

É triste vermos nas manchetes dos jornais dois casos cruéis no Brasil, um no Nordeste, outro aqui no Sul, de meninas grávidas, violadas por padrastos e, quem sabe, com a cumplicidade da própria mãe. Ainda assim, um ou outro líder da igreja local condena o aborto feito em cumprimento da lei, pois havia risco de vida para a menina e a gravidez era oriunda de estupro. Com isso, não estou defendendo o aborto, até porque sou contra ele. Mas esses são casos de absoluta exceção. É muito triste que em pleno século XXI esses fatos acontecem em nosso país. Então, nos perguntamos sobre a lucidez ou cumplicidade que as mulheres envolvidas nesses processos tiveram sobre essas crianças vítimas da violência masculina, e ainda pior, vinda pessoas de dentro de casa.

Sobre as conquistas das mulheres, se pensarmos em relação ao modo de produção capitalista que seguimos, todos tem que ter trabalho. Então menciono as conquistas no mundo do trabalho, e os direitos inclusive em consequência relacionados a esse mundo do trabalho. Nesse aspecto, há que se destacar o próprio reconhecimento profissional. Em décadas passadas, sobretudo até 1980, havia muita diferença entre salários femininos e masculinos. Havia empresas, como nossa Petrobras, que buscava poucas engenheiras, e mais engenheiros. Penso que essa questão discricionária está sendo superada em algumas situações. Infelizmente, ainda há muitas situações a serem resolvidas. Vamos pensar sobre a Lei Maria da Penha, criada exatamente como um protesto jurídico político sobre a violação de uma mulher. Seria muito melhor que não precisássemos dessa lei, já que a justiça não deveria ter um sexo, e deveria trabalhar com equilíbrio. Mas não é isso que acontece. Há, portanto, muitas lacunas, ainda, e pouco entendimento. Outro exemplo é que, às vezes, alguns setores da sociedade são muito discricionários com a questão da mulher e trata a questão das pessoas que lutam pela emancipação feminina com deboche. Esse respeito ainda precisa ser conquistado. Talvez a mulher até nem precisasse de um dia especial. A questão seria os humanos se voltarem a si mesmos e se recomporem num processo de integração de sua própria humanidade. Como isso não acontece, fazemos várias situações de identificação específica, como o dia do idoso, da criança, da mulher. Na verdade, a sociedade precisaria evoluir mais em relação a isso. Esse é o maior desafio.

IHU On-Line – Como percebe o poder e o pensamento feminino no mundo contemporâneo?

Cecília Pires – Esse poder e pensamento estão bastantes presentes no mundo de hoje. Há situações hoje, em que lideranças femininas cresceram de uma forma mais sólida, mas vinculada a representações como as mulheres do movimento negro, do Movimento Sem Terra, nas lutas sindicais, nas representações parlamentares, nas situações de governabilidade e representando vários segmentos sociais. Vejo que sempre parece uma espécie de destaque e esse destaque me parece pejorativo em relação à forma como a mulher se trata e se apresenta. Por exemplo, a mídia, em suas manchetes, fez várias observações um pouco irônicas, mordazes, sobre as cirurgias que a ministra Dilma Roussef [1] teria feito. Isso é absolutamente secundário na vida política do país. Se fôssemos pensar em inúmeros deputados, senadores e presidentes da República, inclusive, que fizeram essas cirurgias faciais, perceberemos que as manchetes dos jornais não tiveram o mesmo encaminhamento, fazendo esse tipo de declaração mordaz.

IHU On-Line – E por que a senhora acha que a mídia faz isso?

Cecília Pires – A mídia é muito estimulada por um espírito mesquinho, de um certo primitivismo de pensamento, pragmático, pobre. Ao invés de mostrar o que as pessoas como sujeitos sociais e políticos estão fazendo, ou não fazendo, tecendo críticas a partir de situações consolidadas, efetivadas, comprovadas, falam de detalhes sobre o corte de cabelo, o botox do rosto, o tipo de saia. A mídia quer alimentar um certo tipo de público que gosta disso.

IHU On-Line – De certa forma a mulher, que tem um papel de formadora de opinião, contribui para isso?

Cecília Pires – Não penso que isso poderia ser colocado na generalidade. Penso que há algumas mulheres filósofas, sociólogas, escritoras, religiosas, líderes populares que contribuem muito para a formação de opinião. Mas é numa outra área, num outro viés da questão, não é simplesmente na questão estético-cultural. Não que essa não seja uma questão importante, a beleza é uma condição que construímos e gostamos, mas essa coisa de padrões de beleza, de estrutura corporal, de formas de se vestir e de se portar valendo como um modelo, fica parecendo um rito de estátua. Penso que a vida de uma mulher pública é muito invadida, devassada, e que às vezes é muito ruidoso tudo isso, e em nada contribui para o convívio social. Ainda que do ponto de vista do universo masculino isso também possa acontecer, não é de uma forma tão mordaz e caricata quanto é feito em relação à mulher.

São coisas de uma tibieza de espírito, de pessoas que não conseguiram ver as coisas em uma totalidade de significados, com maior envolvimento para a humanidade e consigo mesmos. Isso é algo que deixa a desejar, no meu ponto de vista. A feminilidade e a masculinidade são características dos seres vivos da espécie e que tinham que ser respeitadas nessas condições, tais como se apresentam. Penso que tudo isso não contribui para a paz, e sim para a violência, para a competição. Claro que talvez haja muitas mulheres que até estimulam esse tipo de comportamento, podem até gostar de estar na mídia dessa forma, mas acho que não são todas as mulheres públicas que se enquadram nesse quesito.

IHU On-Line – Quais são os maiores preconceitos que persistem em torno das mulheres?

Cecília Pires – Um dos preconceitos que persistem é, de um modo geral, acerca da inteligência da mulher e da sua emocionalidade. Por mais que as mulheres se esforcem e lutem, escrevam, pesquisem, investiguem, isso é colocado com certo destaque, com uma espécie de espanto, e não como uma compreensão normal de que é própria do ser humano a inteligência. E a questão da sensibilidade também persiste. Permanece aquela estrutura cartesiana de uma divisão entre razão e sensibilidade, em que o homem é todo razão e a mulher é toda sensibilidade. Isso não é verdadeiro. O homem também sofre, sente, chora. Essas não são prerrogativas femininas. Mesmo assim, há situações, leituras, interpretações que vivenciam esse tipo de preconceito: que a mulher chora, faz charme, faz uso de sedução para conquistar as coisas, cativar os homens. Isso, colocado de uma forma pejorativa, pouco nobre. O ser humano em geral é sensível, sedutor, inteligente, bem como bruto, terrível, agônico, violento. Não existe uma dimensão de coisa perfeita que seja de coisa de homem, ou coisa de mulher. O problema é a forma como é colocado esse tipo de coisa.

Há preconceito até contra a mulher que dirige. A violência do trânsito está evidente. E há homens que, quando veem uma mulher ao volante, buzinam, tomam atitudes pouco educadas, para dizer o mínimo. Se formos fazer uma coletânea dos ditos, anedotas, isso fica patente. É algo imenso do ponto de vista do preconceito. Infelizmente há coisas que não avançaram em várias situações. Há lugares que parece que são dados apenas ao mundo masculino. A humanidade ainda terá que caminhar e avançar muito nesse sentido, inclusive no Ocidente. Entra aí a questão dos mitos, de que atrás de todo grande homem há uma grande mulher, de que a mulher foi tirada da costela de Adão. Isso virou brincadeira, sarcasmo, e sempre se coloca a mulher em papel secundário. Acho isso desnecessário, porque homens e mulheres se completam, se amam e interagem exatamente porque são diferentes. A mulher não busca uma identidade física e emocional masculina, e nem o homem busca uma identidade física e emocional feminina. Os seres humanos buscam a felicidade, sonhos conjuntos, e nesse sentido buscam um convívio, uma partilha. Aliás, a partilha é outro desafio, dos olhares, das compreensões a partir de caminhos que se afastam e se encontram.

IHU On-Line – A filosofia é machista? Por que tão poucas mulheres são reconhecidas e respeitadas por seu pensamento, enquanto filósofas?

Cecília Pires – Essa é uma pergunta recorrente. Costumo dizer que na história da filosofia são poucas as mulheres que se apresentam e são reconhecidas como pensadoras. Se recorrermos à história da filosofia antiga, isso é quase nulo. Menciona-se a mulher de Sócrates, apenas. O que percebo é que o mundo do pensamento ficou muito associado ao mundo masculino, ao mundo do poder. Vimos toda a história da humanidade como se processou, a história da dominação masculina sobre o mundo feminino e é claro que isso se refletiu na história da igreja e da humanidade. O século XX, nesse sentido, recompôs essa situação, e as mulheres tiveram mais condições de trabalho, estudo e investigação e aí, nas universidades, abriram-se lugares para as mulheres. Contemporaneamente, não se pode dizer que existe propriamente uma discriminação das mulheres na filosofia. As mulheres estão presentes na filosofia como professoras, escritoras, investigadoras. A Unisinos é um exemplo disso. No nosso colegiado do PPG, somos em três mulheres [2]. O número de homens é maior, mas isso é uma contingência.

Em outras universidades que trabalhei onde eu era a única mulher professora de filosofia e quando me aposentei, foram feitos vários concursos e até hoje não tenho notícia de que entrou uma mulher sequer nesse local. Então, fico me perguntando se realmente não houve inscrições de candidatas mulheres. É impossível que não tenha havido, com tantas mestres e doutoras formadas nesse tempo todo. Mas fica a interrogação: por que a predominância do elemento masculino? Penso que esses espaços, contudo, estão se abrindo mais, embora também aí haja preconceito. Já tive professores enquanto eu fazia minha formação, que perguntavam “como você vai ser uma pesquisadora tendo quatro filhos?”, como se meu processo de gestação de filhos pudesse impedir meu processo de geração de conhecimento. Sempre vivi e enfrentei muito esse tipo de comentário.

Mulheres filósofas

São poucas as mulheres filósofas que o público conhece: Hannah Arendt [3], Edith Stein [4], Simone Weil [5], por conta inclusive pela forma com que algumas conseguiram chegar ao mundo público e ter suas obras recebidas, acolhidas e debatidas. Penso que daqui para frente as coisas podem ser mais profícuas, mais efervescentes. Sem dúvida, passaram-se muitos séculos de silenciamento da mulher, de renúncias. Sabemos de casos de outras universidades no Brasil onde essa questão do masculino e do feminino no mundo do pensamento ainda é conflitiva. Ouvimos falar dos embates públicos entre mulheres filósofas e homens filósofos. Eu não saberia, entretanto, dizer se isso ocorre por conta do machismo, do preconceito ideológico, das reticências culturais, da má formação compreensiva acerca do que é o humano. Talvez todas essas razões juntas poderiam identificar esse problemas.

IHU On-Line – Autores como Kant e Nietzsche demonstraram misoginia em partes de sua obra. Qual é o fundamento dessa postura, partindo de pensadores que ocupam posições tão elevadas no pensamento contemporâneo?

Cecília Pires – Penso que a misoginia desses autores é algo que não se explica pela racionalidade e pelo brilhantismo filosófico de seus pensamentos. Acredito, isso sim, que há muito um componente cultural que poderia estar atrelado talvez até a problemas pessoais desses filósofos, e tantos outros. Rousseau [6] também tem vários preconceitos relacionados à mulher, por exemplo. Tenho uma amiga que é estudiosa da questão feminina, a professora Maria da Penha Carvalho [7], da Universidade Gama Filho. Ela faz vários estudos e textos filosóficos sobre a forma como a mulher é tratada. É algo impressionante. Embora haja filósofos como Stuart Mill [8], por exemplo, que tem um excelente reconhecimento sobre o pensamento e compreensão da mulher, de sua vida como profissional. Mas essa questão pode ser atribuída a preconceito, talvez porque também nessa condição cultural e preconceituosa foi atribuído à mulher o papel de cuidar da prole e fazer todo o zelo doméstico. Com isso, ela não teria tempo para reflexão, amadurecimento, porque se envolve com outras coisas. Felizmente, participo de uma geração em que os companheiros não foram ausentes no cuidado com os filhos e o cuidado com a família com a mesma responsabilidade feminina. Mas sei se várias colegas que não conseguiram construir sua carreira de investigação e pesquisa por conta de não ter o apoio do seu companheiro.

Voltando à misoginia de Kant e Nietzsche, mesmo sem ter formação psicanalítica, penso que ela está muito ligada às suas personalidades. Nietzsche teve problemas com sua mãe, e sua irmã o oprimia. Kant viveu a vida toda sozinho, não porque não se casou, mas parece que suas relações de afeto não se consolidavam. Assim, penso que se as pessoas são mal amadas, mal resolvidas, para usar uma expressão bem popular e conhecida, elas se tornam feias por dentro, e por isso produzem uma cólera acerca do mundo, e uma ira acerca da outra parte da humanidade que não é ele mesmo.

IHU On-Line – Atualmente, no Brasil e no exterior, que expoentes femininas se destacam no campo filosófico?

Cecília Pires – No Brasil, eu destacaria Marilena Chauí [9]. Penso que ela é uma excelente pesquisadora, uma pessoa séria, comprometida politicamente e que, na realidade, talvez tenha vivido preconceito e situações machistas dentro da própria USP. Fazer filosofia é criar, não é ser repetitivo. Fazer filosofia simplesmente repetindo o que os filósofos já disseram sem um processo de acréscimo, de construção e compreensão do novo a partir das categorias já estudadas também é problemático. É evidente que não se está reconstruindo a roda e reinventando a ciência. Não podemos desconhecer o que já foi feito antes de nós, mas não podemos ser apenas repetidores das coisas já ditas e já lidas. Um dos sintomas grandes da nossa inteligência é a capacidade de criar, a partir inclusive desse caminho compartilhado que é o da ciência, da filosofia. E nesse aspecto Chauí se destaca.

Penso que hoje há várias mulheres que discutem a questão feminina, como na Espanha, México, na América Latina como um todo. No ano passado, saiu um livro, organizado por um professor cubano que vive na Alemanha, Raul Betancourt [10], que fez um estudo sobre o pensamento e o trabalho feminino na América Latina. Ele destaca várias pessoas nesse sentido. Eu comentava com o próprio autor dessa obra o quanto era singular o fato de um homem tomar essa iniciativa. Ele coloca a mim e a professora Magali de Menezes [11], da Feevale, como pessoas que tem um trabalho filosófico na América Latina, o que me honra muito.

IHU On-Line – Mulheres como Dorothy Stang [12]e Simone de Beauvoir contribuíram, cada uma do seu modo, para quebrar estereótipos e lutaram por suas causas. Como seu legado nos ajuda a compreender melhor o papel das mulheres na sociedade?

Cecília Pires – Dorothy e Simone tiveram um papel exponencial na afirmação dum feminino como projeto efetivo de liberdade. Quando Simone diz que não se nasce mulher, mas torna-se mulher, ela vai mostrar isso com a afirmação cultural do feminino. Penso que as coisas que se apresentam nesses casos são o grande enfrentamento e autonomia que elas tiveram diante de preconceitos. Várias idéias de Simone fez são atribuídas a Sartre, o que de certa forma é uma injustiça, pois se aprofundarmos e investigarmos sua vida, como venho fazendo, pois sou pesquisadora de Sartre [13], muitos insights do que ele escrevia vinham de ideias e discussões que tinha com sua companheira. O originário era muito mais dela, do que dele. Ele era a pessoa que, de certa forma, publicizava mais, pois escrevia mais, ocupava o lugar social da produção e da editoração dos seus textos.

Já a irmã Dorothy teve todo um compromisso efetivo com a questão social, dos oprimidos e vitimados. Há várias mulheres que também foram líderes, desde Madre Teresa de Calcutá [14] até líderes indígenas da América Latina. Essas pessoas mostram que, quando tomada por uma idéia, a mulher tem uma coerência quase que absoluta. Ela vai em frente, e muitas vezes viram vítimas. Esse é um legado que mostra para as gerações novas que as coisas são possíveis de serem feitas. Quando falo de que o grande desafio hoje é da paz, penso que devemos desejar a paz. Falamos muito em ética, e a grande revolução que a humanidade precisa é uma revolução ética, que deve ter como pilares a justiça e a paz. Talvez a mulher tenha um grande papel aí, superando as desigualdades, necessidades, para que possamos viver, efetivamente, num mundo de liberdade. Por que enquanto estivermos envolvidos com a necessidade, não atingimos a plenitude e a liberdade. Isso se apresenta na história dos povos de modo mais, ou menos intenso.

Notas:

[1] Dilma Vana Rousseff Linhares é economista. Foi a primeira mulher a ser nomeada ministra-chefe da Casa Civil. Foi secretária de Minas e Energia durante o governo Alceu Collares no Rio Grande do Sul e retornou ao cargo durante o governo Olívio Dutra. Hoje, Dilma também é gerente do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), plano que visa ao crescimento econômico do Brasil.

[2] O curso de filosofia da Unisinos conta hoje com as professora Cecília Pires, Anna Carolina Regner e Sofia Albornoz Stein.

[3] Hannah Arendt foi uma teórica política alemã, muitas vezes descrita como filósofa, apesar de ter recusado essa designação. Emigrou para os Estados Unidos durante a ascensão do nazismo na Alemanha e tem como sua magnum opus o livro "Origens do Totalitarismo".

[4] Edith Theresa Hedwing Stein foi uma religiosa alemã, a última de onze irmãos de uma família judia que professava o Judaísmo. Faleceu aos 51 anos asfixiada numa câmara de gás, em 1942, no campo de concentração de Auschwitz, na Polónia. Foi professora de Filosofia, sendo discípula de Edmund Husserl e secretária particular desse filósofo.

[5] Simone Adolphine Weil foi uma escritora, mística e filósofa francesa, tornou-se operária da Renault para escrever sobre o cotidiano dentro das fábricas, lutou na Guerra Civil Espanhola ao lado dos republicanos e morreu em greve de fome, protestando contra as condições em que eram mantidos os prisioneiros de guerra na França ocupada.

[6] Jean-Jacques Rousseau foi um filósofo suíço, escritor e teórico político. Uma das figuras marcantes do Iluminismo francês, Rousseau é também um precursor do romantismo. Ao defender que todos os homens nascem livres, e a liberdade faz parte da natureza do homem, Rousseau inspirou todos os movimentos que buscaram uma busca pela liberdade. Inclui-se aí as Revoluções Liberais, o Marxismo e o Anarquismo.

[7] Maria da Penha Maia Fernandes é uma biofarmacêutica brasileira que lutou para que seu agressor viesse a ser condenado. Com 60 anos e três filhas, hoje ela é líder de movimentos de defesa dos direitos das mulheres, vítima emblemática da violência doméstica.

[8] John Stuart Mill foi um filósofo e economista inglês, e um dos pensadores liberais mais influentes do século XIX. Foi um defensor do utilitarismo, a teoria ética proposta inicialmente por seu padrinho Jeremy Bentham.

[9] Marilena de Sousa Chaui é uma historiadora de filosofia. Professora de Filosofia Política e História da Filosofia Moderna da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

[10] O filósofo e teólogo cubano Raúl Fornet-Betancourt é figura de ponta da filosofia da libertação latinoamericana, professor na Universidade de Bremen e professor honorário de filosofia na Universidade de Aachen, diretor do Departamento Latino-americano do Istituto de Missionologia de Aachen, Alemanha.

[11] Magali de Menezes é uma filósofa brasileira.

[12] Dorothy Mae Stang foi uma religiosa estadunidense naturalizada brasileira. Pertencia às Irmãs de Nossa Senhora de Namur, congregação religiosa fundada em 1804 por Santa Julie Billiart e Françoise Blin de Bourdon. Dorothy estava presente na Amazônia desde a década de setenta junto aos trabalhadores rurais da Região do Xingu. Sua atividade pastoral e missionária buscava a geração de emprego e renda com projetos de reflorestamento em áreas degradadas, junto aos trabalhadores rurais da área da rodovia Transamazônica. Seu trabalho focava-se também na minimização dos conflitos fundiários na região. Foi assassinada, com seis tiros, um na cabeça e cinco ao redor do corpo, aos 73 anos de idade, no dia 12 de fevereiro de 2005 em uma estrada de terra de difícil acesso, à 53 quilômetros da sede do município de Anapu, no Pará.

[13] Jean-Paul Charles Aymard Sartre foi um filósofo francês, escritor e crítico, conhecido representante do existencialismo. Acreditava que os intelectuais têm de desempenhar um papel ativo na sociedade. Era um artista militante, e apoiou causas políticas de esquerda com a sua vida e a sua obra.

[14] Madre Teresa de Calcutá foi uma missionária católica albanesa, nascida na República da Macedônia e naturalizada indiana beatificada pela Igreja Católica. Considerada a missionária do século XX, concretizou o projeto de apoiar e recuperar os desprotegidos na Índia. Através da sua congregação "Missionárias da Caridade", partiu em direção à conquista de um mundo que acabou rendido ao seu apelo de ajudar o mais pobre dos pobres.

05/03/2009

Dom Demétrio Valentini

Referências éticas


A Campanha da Fraternidade deste ano toca numa questão nevrálgica da sociedade, mostrando sua gravidade e a urgência de ser enfrentada com eficácia. A violência coloca em xeque a civilização atual. A recuperação da segurança pública é vista como indispensável para a sociedade se livrar do sentimento de frustração e de fracasso de suas instituições.

O crescimento da violência, na verdade, faz aumentar o clima de perplexidade, aumentando a desconfiança, e levando as pessoas a descrerem da possibilidade de uma sociedade baseada na justiça, na solidariedade e na paz.

Este sentimento pessimista em relação à possibilidade de convivência humana que seja marcada e conduzida por valores éticos, já foi expresso pelo ditado latino que mais enfatiza o pessimismo a respeito da humanidade: "homo homini lúpus", "o homem é lobo do próprio homem". Isto é, o homem tem dentro de si mesmo a tendência irrefreável à maldade para com seu semelhante.

Se assim for, está decretada a guerra permanente no seio da própria sociedade, com suas manifestações diversas de violência, que se tornariam a comprovação da maldade intrínseca da pessoa humana.

Esta visão da realidade é feita, sim, em decorrer de fatos reiterados. Mas está desprovida do horizonte maior de esperança nos destinos da humanidade. Esta esperança é comprovada pela lenta caminhada civilizatória, que chegou à consolidação de sociedades baseadas no respeito a toda pessoa humana e construídas sobre os pilares dos direitos humanos.

Esta visão fica reforçada pelas motivações religiosas, que enfatizam a ação de Deus em favor da humanidade, chamada a viver em comunhão fraterna, de paz e de justiça, com motivações positivas capazes de superar a violência pela misericórdia e pelo amor ao próximo.

A superação da violência, e a recuperação da segurança pública, se tornam, assim, o desafio central para consolidarmos a esperança numa sociedade em que possamos viver em clima de paz, que nos permita o cultivo de valores humanos que dão sentido ao nosso viver.

Assim, a segurança pública se torna parâmetro da esperança nos destinos da humanidade.

Outro parâmetro muito sensível em nosso tempo nos é oferecido pela consciência ecológica, que nos desperta para a urgente tarefa de equilibrarmos nossa relação com a natureza, com quem partilhamos de tantas maneiras as condições de nossa existência humana.

O respeito pela natureza, e o respeito pela dignidade de toda pessoa humana, se constituem nas duas balizas éticas que possuem os apelos mais sensíveis para o ser humano de hoje.

O empenho em verificar o quanto somos capazes de recuperar a segurança pública no ambiente em que vivemos, como nos propõe a Campanha da Fraternidade deste ano, se transforma em caminho para fortalecer a crença nas possibilidades do ser humano harmonizar sua vida em sintonia com a natureza e realizar sua vocação de comunhão fraterna, em sintonia com seu destino transcendental.

Fonte: Adital

04/03/2009

Frei Betto

Segurança Pública e Fraternidade

Fonte: ADITAL

Inicia-se, nesta Quaresma, a 47ª edição da Campanha da Fraternidade (CF), promovida pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). O tema deste ano é "Fraternidade e segurança pública", e o lema "A paz é fruto da justiça" (Isaías 32, 17).

Segundo o documento da CF, entre os objetivos se destacam "suscitar o debate sobre segurança pública e contribuir para a promoção da cultura de paz; denunciar os crimes contra a ética, a economia e as gestões públicas, assim como a injustiça presente nos institutos de prisão especial, do foro privilegiado e da imunidade parlamentar para crimes comuns; favorecer a articulação de redes populares e de políticas públicas com vistas à superação da violência; apoiar as políticas governamentais valorizadoras dos direitos humanos".

A CNBB aponta três tipos de violência predominantes no Brasil: a estrutural, que nega cidadania a uma parcela da população e discrimina os "diferentes"; a física, como a tortura, a agressão à mulher, a exploração laboral e sexual de crianças; e a simbólica, através de ameaças e constrangimentos, negação de informação e disseminação da cultura do medo.

Talvez a mais freqüente e dissimulada seja a que ocorre dentro dos lares, desde maus tratos a empregadas às brigas entre casais; a agressão à mulher e aos filhos; as dependências químicas; o descaso pelos idosos; a pedofilia indenunciada e recorrente.
Uma das formas de violência mais visíveis hoje é a ambiental, que promove o desmatamento e a poluição das águas e do ar, favorece a emissão de CO2 na atmosfera e o aquecimento global; reduz a biodiversidade e as fontes de alimentos saudáveis. Há também a sutil, como alimentos transgênicos não-identificados, embalagens perniciosas à saúde, produtos com substâncias químicas nocivas.

Os dados da CNBB mostram que indígenas e pequenos agricultores têm perdido suas terras e sido assassinados em decorrência de conflitos fundiários. "Como não há limites, os que têm dinheiro se tornam proprietários da maior parte das terras; no outro extremo, quem não tem como comprar, fica sem nada, sem lugar para trabalhar e para viver. Como surgem os Sem-Terra e os Sem-Teto organizados, exigindo seus direitos, nada mais fácil que cresça a acusação e a imagem de que são baderneiros e, no limite, terroristas, e que ela seja combinada com o sentimento geral de que a violência direta ou a repressão policial é o prêmio destinado a quem se rebela contra a própria sorte" (p. 185).

A violência não reside apenas em agressões evidentes. Ela se imiscui até mesmo no nosso modo de pensar e falar, no discurso que considera a paz resultado do equilíbrio de forças ("mais cadeias, mais repressão") e não fruto da justiça. Há ainda a violência da mídia que invade os lares com programas pornográficos, exaltando a imbecilidade, a ociosidade vadia, o sucesso e a fama dos que transgridem as leis.

A CNBB propõe que o tema da segurança pública seja debatido em escolas, igrejas, fóruns, mídias. Sugere que se promova o diálogo com o poder público para a elaboração de programas, leis e políticas de segurança; que sejam organizados atos públicos em favor do tema; criem-se comissões de justiça e paz e de direitos humanos que possam acompanhar casos de violação desses mesmos direitos; denuncie e combata-se toda forma de trabalho escravo, de tráfico de pessoas, de exploração sexual, de violência doméstica.

Na prática de Jesus, três atitudes antiviolência se destacam: a humildade (fazer-se criança, Mateus 18, 4); o amor aos pobres e excluídos (Mateus 18,10 e 25, 31-40); o perdão (Mateus 18, 22). E o programa de justiça, capaz de engendrar a paz, contido no Sermão da Montanha (as bem-aventuranças Mateus 5, 1-12).

O documento da Campanha da Fraternidade 2009 pode ser adquirido em livrarias católicas ou via: vendas@edicoescnbb.com.br

03/03/2009

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Justiça e paz: um abraço necessário

Clara Lucchetti Bingemer é teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio
Fonte: Correio da Cidadania



Como todos os anos, no início da Quaresma, a Igreja do Brasil realiza um movimento em nível nacional: a Campanha da Fraternidade. Neste ano de 2009, o tema é a violência nas urbes brasileiras e o desafio que isso representa para a segurança pública. Encontra sua raiz no coração da mensagem bíblica, mais exatamente no capitulo 32 do profeta Isaías: a paz não virá senão como fruto da justiça.

No texto-base da Campanha é apresentada uma reflexão sobre o conflito e suas múltiplas dimensões. Não sempre ou necessariamente negativo, o conflito faz parte da vida e da convivência humana. Pode ser um conflito de idéias ou de decisões. Pode acontecer dentro da própria casa, entre membros de uma mesma família. A questão é a maneira como é administrado e resolvido. Pode ser através do diálogo, buscando um consenso; ou da força, da violência, de modo que as opiniões de uma pessoa prevaleçam sobre as do outro.

O texto deixa claro que conflito não é sinônimo de violência e que a convivência humana supõe e deve administrar diferenças e divergências. Estas devem, contudo, ser trabalhadas por meio do diálogo. E se o consenso se revela mais difícil do que parece, há que entrar em cena a figura do mediador. Atualmente, o principal e praticamente único mediador de conflitos é o sistema judiciário, que verifica, à luz da legislação, qual das partes tem razão.

A Igreja pretende chamar a atenção para a necessidade de se ampliar a mediação de conflitos na sociedade brasileira. Está mesmo disposta a criar, para mediar os conflitos mais sérios, um ministério ou serviço eclesial com essa finalidade. Ao mesmo tempo, dispõe-se a trabalhar junto aos poderes públicos, a fim de que a mediação de conflitos se torne uma atividade institucional, e não se reduza a iniciativas isoladas. Existem já propostas de leis no sentido de que não apenas advogados, mas também psicólogos, teólogos, possam atuar como mediadores de conflitos.

Com respeito à violência, já se entra em outro nível. E a CF admite tratar-se de um problema primordial e grave no Brasil. Portanto, deve ser combatido por todos os meios possíveis, desde a denúncia até a defesa explícita, sobretudo daqueles que são mais vulneráveis. Existe a violência doméstica contra a mulher e a criança, assim como a do crime organizado. Existe a violência praticada e sofrida pela polícia. Existe ainda o racismo, forma terrível de violência simbólica. E os abusos explícitos contra os direitos humanos: tortura nas prisões, trabalho escravo, miséria das grandes maiorias que pagam o preço da exorbitante riqueza de uns poucos.

Em todos os casos, o que a Campanha pretende demonstrar é que toda violência encontra sua raiz em alguma injustiça. A perda da correta relação entre pessoas e grupos humanos será sempre a geradora da violência. A injustiça oprime e pressiona até que a reação exploda em violência. Cria-se, então, uma cultura e uma indústria do medo, onde as pessoas constróem muros e cercas elétricas para se defenderem umas das outras.

A CF sabe não poder fazer milagres. Quer, porém, suscitar o debate, para que cada comunidade levante as situações de mais insegurança e violência presentes em seu meio, questione sobre suas causas e procure organizar-se para combatê-las. A paz verdadeira só poderá ser fruto maduro da justiça praticada. O problema da segurança pública que assola o Brasil só poderá ser resolvido quando justiça e paz se abraçarem, tal como diz o Salmo 58,11, apontando para os tempos messiânicos.

27/02/2009

Hans Küng - um trabalhador do Vaticano II

Diz-se dele que ele é o gêmeo fraterno do Papa Bento XVI, um novo Martin Luther. Diz-se também que Hans Küng poderia ter sido Cardeal, até mesmo mais do que isso. A reportagem é de Nicolas Bourcier e Stéphanie Le Bars e publicada no jornal francês Le Monde, 25-02-2009. A tradução é do Cepat.
Fonte: UNISINOS


Este homem de 81 anos, originário dos Alpes suíços, ordenado sacerdote aos 26 anos, foi um dos mais jovens especialistas chamados para participar do Concílio Vaticano II (1962-1965). Foi criticado pela hierarquia da Igreja católica. Denunciou a atitude de Roma em relação ao casamento dos padres, à contracepção ou à ordenação de mulheres. Em 1979, após a publicação de um livro subversivo sobre a infalibilidade do Papa, o Vaticano lhe retirou o direito de ensinar a teologia. Hans Küng guarda, não obstante, um posto sob medida na Universidade de Tübingen. Ele se tornou o crítico incansável do Papado, encarnado por João Paulo II, depois, a partir de 2005, por Bento XVI.

O Papa alemão foi seu amigo. Eles se cruzaram desde 1957 e no Concílio ambos encarnam a teologia alemã assumida pelos bispos progressistas alemãs. Desde o fim do Concílio, sua apreciação sobre as transformações induzidas pela nova doutrina da Igreja divergem. Joseph Ratzinger, preso à tradição, especialmente litúrgica, se afasta rapidamente dos “excessos” pós-Conciliares da Igreja. Hans Küng, por seu lado, que combateu as manobras conservadoras de alguns membros da Cúria, teria desejado que a hierarquia católica fosse ainda mais longe. A análise dos movimentos de contestação de 1968 acaba por aprofundar o fosso ideológico entre essas duas figuras.

Reforma em profundidade

Em 2005, alguns meses depois da sua eleição, Bento XVI convidou o seu ex-colega de Tübingen. A conversa foi franca, durou quatro horas, mas não desembocou em nada de concreto. Quatro anos depois, Hans Küng persiste em pensar que ele poderia ser o bom conselheiro do Papa, que lhe parece cada vez mais desconectado do mundo. “Ele não evoluiu, e estou certo de que se alguém lhe perguntasse por que nós divergimos, ele diria: ‘É Küng que mudou, não eu!’”.

Mais triste que amargo diante da perigosa tendência que toma, segundo ele, a Igreja católica, o teólogo não cruza os braços e continua a publicar, a ensinar e a pregar. Ele garante, no entanto, que as suas lutas por uma reforma em profundidade da Igreja católica lhe interessam menos que a causa que ele defende ardentemente há cerca de 20 anos: a aproximação entre as religiões. Uma dinâmica suscetível de criar “uma ética universal” aplicável à ciência, ao ambiente, às relações sociais e à paz.