04/02/10

Pe. Henri Boulad, SJ

A Igreja precisa de uma reforma urgente

O jesuíta egípcio mais destacado nos âmbitos eclesial e intelectual, Henri Boulad, lança um SOS para a Igreja de hoje em uma carta dirigida a Bento XVI. A carta foi transmitida através da Nunciatura no Cairo. O texto circula em meios eclesiais de todo o mundo. Henri Boulad é autor de Deus e o mistério do tempo (Loyola, 2006) e O homem diante da liberdade (Loyola, 1994), entre outros. A carta está publicada no sítio Religión Digital, 31-01-2010. A tradução é do Cepat.
Fonte: UNISINOS


Santo Padre:

Atrevo-me a dirigir-me diretamente a Você, pois meu coração sangra ao ver o abismo em que a nossa Igreja está se precipitando. Saberá desculpar a minha franqueza filial, inspirada simultaneamente pela “liberdade dos filhos de Deus” a que São Paulo nos convida e pelo amor apaixonado à Igreja.

Agradecer-lhe-ei também que saiba desculpar o tom alarmista desta carta, pois creio que “são menos cinco” e que a situação não pode esperar mais.

Permite-me, em primeiro lugar, apresentar-me. Sou jesuíta egípcio-libanês do rito melquita e logo farei 78 anos. Há três anos sou reitor do Colégio dos jesuítas no Cairo, após ter desempenhado os seguintes cargos: superior dos jesuítas em Alexandria, superior regional dos jesuítas do Egito, professor de Teologia no Cairo, diretor da Cáritas-Egito e vice-presidente da Cáritas Internacional para o Oriente Médio e a África do Norte.

Conheço muito bem a hierarquia católica do Egito por ter participado durante muitos anos de suas reuniões como Presidente dos Superiores Religiosos de Institutos no Egito. Tenho relações muito próximas com cada um deles, alguns dos quais são ex-alunos meus. Por outro lado, conheço pessoalmente o Papa Chenouda III, que via com frequência. Quanto à hierarquia católica da Europa, tive a ocasião de me encontrar pessoalmente muitas vezes com alguns de seus membros, como o cardeal Koening, o cardeal Schönborn, o cardeal Martini, o cardeal Daneels, o arcebispo Kothgasser, os bispos diocesanos Kapellari e Küng, os demais bispos austríacos e outros bispos de outros países europeus. Estes encontros se produzem por ocasião das minhas viagens anuais para dar conferências pela Europa: Áustria, Alemanha, Suíça, Hungria, França, Bélgica... Nestas ocasiões me dirijo a auditórios muito diversos e à mídia (jornais, rádios, televisões...). Faço o mesmo no Egito e no Oriente Próximo.

Visitei cerca de 50 países nos quatro continentes e publiquei cerca de 30 livros em aproximadamente 15 línguas, sobretudo em francês, árabe, húngaro e alemão. Dos 13 livros nesta língua, talvez Você tenha lido Gottessöhne, Gottestöchter (Filhos, filhas de Deus), que o seu amigo o Pe. Erich Fink, da Baviera, lhe fez chegar em suas mãos.

Não digo isto para me vangloriar, mas para lhe dizer simplesmente que as minhas intenções se fundam em um conhecimento real da Igreja universal e de sua situação atual, em 2009.

Volto ao motivo desta carta e tentarei ser o mais breve, claro e objetivo possível. Em primeiro lugar, algumas constatações (a lista não é exclusiva):

1. A prática religiosa está em constante declive. Um número cada vez mais reduzido de pessoas da terceira idade, que desaparecerão logo, são as que frequentam as igrejas da Europa e do Canadá. Não resta outro remédio senão fechar estas igrejas ou transformá-las em museus, mesquitas, clubes ou bibliotecas municipais, como já se está fazendo. O que me surpreende é que muitas delas estão sendo completamente reformadas e modernizadas mediante grandes gastos com a ideia de atrair os fiéis. Mas não será suficiente para frear o êxodo.

2. Seminários e noviciados se esvaziam no mesmo ritmo, e as vocações caem vertiginosamente. O futuro é sombrio e há quem se pergunte quem irá substituir os sacerdotes. Cada vez mais paróquias europeias estão a cargo de sacerdotes da Ásia ou da África.

3. Muitos sacerdotes abandonam o sacerdócio e os poucos que ainda o exercem – cuja idade média ultrapassa muitas vezes a da aposentadoria – têm que se encarregar de muitas paróquias, de modo expeditivo e administrativo. Muitos deles, tanto na Europa como no Terceiro Mundo, vivem em concubinato à vista de seus fiéis, que normalmente os aceitam, e de seu bispo, que não pode aceitá-lo, mas que tem em conta a escassez de sacerdotes.

4. A linguagem da Igreja é obsoleta, anacrônica, chata, repetitiva, moralizante, totalmente desadaptada à nossa época. Não se trata em absoluto de acomodar-se nem de fazer demagogia, pois a mensagem do Evangelho deve ser apresentada em toda a sua crueza e exigência. Seria preciso antes promover essa “nova evangelização”, a que nos convidava João Paulo II. Mas esta, ao contrário do que muitos pensam, não consiste em absoluto em repetir a antiga, que já não diz mais nada, mas em inovar, inventar uma nova linguagem que expresse a fé de modo apropriado e que tenha significado para o homem de hoje.

5. Isto não poderá ser feito senão mediante uma renovação em profundidade da teologia e da catequese, que deveriam ser repensadas e reformuladas totalmente. Um sacerdote e religioso alemão que encontrei recentemente me dizia que a palavra “mística” não é mencionada uma única vez no Novo Catecismo. Não podia acreditar nisso. Temos de constatar que a nossa fé é muito cerebral, abstrata, dogmática e se dirige muito pouco ao coração e ao corpo.

6. Em consequência, um grande número de cristãos se volta para as religiões da Ásia, as seitas, a nova era, as igrejas evangélicas, o ocultismo, etc. Não é de estranhar. Vão buscar em outros lugares o alimento que não encontram em casa, têm a impressão de que lhes damos pedras como se fossem pão. A fé cristã, que em outro tempo outorgava sentido à vida das pessoas, é para elas hoje um enigma, restos de um passado que acabou.

7. No plano moral e ético, os ditames do Magistério, repetidos à saciedade, sobre o matrimônio, a contracepção, o aborto, a eutanásia, a homossexualidade, o matrimônio dos sacerdotes, as segundas uniões, etc., já não dizem mais nada a ninguém e produzem apenas desleixo e indiferença. Todos estes problemas morais e pastorais merecem algo mais que declarações categóricas. Necessitam de um tratamento pastoral, sociológico, psicológico e humano... em uma linha mais evangélica.

8. A Igreja católica, que foi a grande educadora da Europa durante séculos, parece esquecer que a Europa chegou à sua maturidade. A nossa Europa adulta não quer ser tratada como menor de idade. O estilo paternalista de uma Igreja “Mater et Magistra” está definitivamente defasada e já não serve mais. Os cristãos aprenderam a pensar por si mesmos e não estão dispostos a engolir qualquer coisa.

9. Os países mais católicos de antes – a França, “primogênita da Igreja”, ou o Canadá francês ultra-católico – deram uma guinada de 180º e caíram no ateísmo, no anticlericalismo, no agnosticismo, na indiferença. No caso de outros países europeus, o processo está em marcha. Pode-se constatar que quanto mais dominado e protegido pela Igreja esteve um povo no passado, mais forte é a reação contra ela.

10. O diálogo com as outras igrejas e religiões está em preocupante retrocesso hoje. Os grandes progressos realizados há meio século estão sob suspeita neste momento.

Diante desta constatação quase demolidora, a reação da igreja é dupla:

– Tende a minimizar a gravidade da situação e a consolar-se constatando certo dinamismo em sua facção mais tradicional e nos países do Terceiro Mundo.

– Apela para a confiança no Senhor, que a sustentou durante 20 séculos e será capaz de ajudá-la a superar esta nova crise, como o fez nas precedentes. Por acaso, não tem promessas de vida eterna?

A isto respondo:

– Não é apoiando-se no passado nem recolhendo suas migalhas que se resolverão os problemas de hoje e de amanhã.

– A aparente vitalidade das Igrejas do Terceiro Mundo é equívoca. Segundo parece, estas novas Igrejas, mais cedo ou mais tarde, atravessarão as mesmas crises que a velha cristandade europeia conheceu.

– A Modernidade é irreversível, e é por ter esquecido isso que a Igreja já se encontra hoje em semelhante crise. O Vaticano II tentou recuperar quatro séculos de atraso, mas tem-se a impressão de que a Igreja está fechando lentamente as portas que se abriram então, e é tentada a voltar para Trento e o Vaticano I, mais que voltar-se para o Vaticano III. Recordemos a declaração de João Paulo II tantas vezes repetida: “Não há alternativa para o Vaticano II”.

– Até quando continuaremos jogando a política do avestruz e a esconder a cabeça na areia? Até quando evitaremos olhar as coisas de frente? Até quando seguiremos dando as costas, encrespando-nos contra toda crítica, em vez de ver ali uma oportunidade de renovação? Até quando continuaremos postergando ad calendas graecas uma reforma que se impõe e que foi abandonada durante muito tempo?

– Somente olhando decididamente para frente e não para trás a Igreja cumprirá sua missão de ser “luz do mundo, sal da terra e fermento na massa”. Entretanto, o que infelizmente constatamos hoje é que a Igreja está no final da fila da nossa época, depois de ter sido a locomotiva durante séculos.

– Repito o que dizia no começo desta carta: “São menos cinco” – fünf vor zwölf! A História não espera, sobretudo em nossa época, em que o ritmo se embala e se acelera.

– Qualquer operação comercial que constata um déficit ou disfunção se reconsidera imediatamente, reúne especialistas, procura recuperar-se, mobiliza todas as suas energias para superar a crise.

– Por que a Igreja não faz algo semelhante? Por que não mobiliza todas as suas forças vivas para um aggiornamento radical? Por quê?

– Por preguiça, desleixo, orgulho, falta de imaginação, de criativadade, omissão culpável, na esperança de que o Senhor as resolverá e que a Igreja conheceu outras crises no passado?

– Cristo, no Evangelho, nos alerta: “Os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz...”.

Então, o que fazer? A Igreja tem hoje uma necessidade imperiosa e urgente de uma tripla reforma:

1. Uma reforma teológica e catequética para repensar a fé e reformulá-la de modo coerente para os nossos contemporâneos.

Uma fé que já não significa nada, que não dá sentido à existência, não é mais que um adorno, uma superestrutura inútil que cai por si mesma. É o caso atual.

2. Uma reforma pastoral para repensar de cabo a rabo as estruturas herdadas do passado.

3. Uma reforma espiritual para revitalizar a mística e repensar os sacramentos com vistas a dar-lhes uma dimensão existencial e articulá-los com a vida.

Teria muito a dizer sobre isto. A Igreja de hoje é muito formal, muito formalista. Tem-se a impressão de que a instituição asfixia o carisma e que o que em última instância conta é uma estabilidade puramente exterior, uma honestidade superficial, certa fachada. Não corremos o risco de que um dia Jesus nos trate de “sepulcros caiados”?

Para terminar, sugiro a convocação de um Sínodo geral a nível da Igreja universal, do qual participarão todos os cristãos – católicos e outros – para examinar com toda franqueza e clareza os pontos assinalados anteriormente e os que forem propostos. Este Sínodo, que duraria três anos, terminaria com uma Assembleia Geral – evitemos o termo “concílio” – que sintetizasse os resultados desta pesquisa e tirasse daí as conclusões.

Termino, Santo Padre, pedindo-lhe perdão pela minha franqueza e audácia e solicito a vossa paternal bênção. Permita-me também dizer-lhe que vivo estes dias em sua companhia, graças ao seu extraordinário livro Jesus de Nazaré, que é objeto da minha leitura espiritual e de meditação cotidiana.

Seu afetíssimo no Senhor,

Pe. Henri Boulad, SJ

30/01/10

Deus no Haiti?

A tragédia do Haiti suscita diversas perguntas religiosas. A ciência dá respostas sobre por que e como sucedem os fenômenos, mas, como dizia Wittgenstein, uma vez alcançadas as soluções científicas, permanecem as perguntas de sentido e significado, que fogem do âmbito científico. A nota é da Associação de Teólogos João XXIII, com sede em Madrid, Espanha e publicada pelo sítio Religión Digital, 28-01-2010. A tradução é de Vanessa Alves.
Fonte: UNISINOS


Na tragédia do Haiti concorrem dois fenômenos convergentes e diferentes. Por uma parte, a situação da ilha caribenha em uma zona sísmica, com frequentes terremotos e maremotos, exposta também a furacões e ciclones, em uma das partes mais vulneráveis do planeta. Por outra, a agressiva mão do ser humano, que tem desflorestado o Haiti, superexplorado suas reservas naturais e construído povoados e cidades carentes do mínimo de segurança.

As condições extremamente precárias em que os colonizadores deixaram o país, a tradição racista e escravista, a corrupção generalizada, a ditadura de governos exploradores, como os Duvalier, e a injusta distribuição dos recursos aumentaram as doenças da ilha. Arruinaram tudo, incluindo a zona histórica e os órgãos estatais, mas se preservou o moderno bairro rico de "Pétion Ville", em Porto Príncipe, como também a vizinha e menos desafortunada República Dominicana.

A partir destes dados, a pergunta religiosa "onde está Deus" não é nem pode ser a primeira. O Haiti exemplifica o que já ocorreu com o tsunami da Indonésia e as fomes subsaarianas.

Há povos, nações e Estados que vivem na miséria, sem capacidade para defender-se das catástrofes naturais. A ordem internacional está montada sobre a concentração de riqueza em 20% da humanidade e o desamparo de boa parte desta.

Por si sós não podem sair de sua miséria, agravada por multinacionais que exaurem os recursos para obter grandes benefícios em pouco tempo, governos próprios corruptos e vendidos, e países ricos que protegem seus interesses e os de suas companhias no terceiro Mundo.

Sem esta ordem de coisas, poderia ter sido evitada a repercussão da catástrofe ou teria sido muito menor. Mas os habitantes do Haiti são tão pobres que nem sequer têm capacidade para receber e repartir a ajuda que lhes chega. Quem tem a culpa? A atual ordem internacional que só pode apoiar-se com base no poder econômico, político e militar dos países ricos, e a persistente corrupção das elites dirigentes do país.

E Deus? Seguimos buscando o Deus relojoeiro de Newton, que ajusta a maquinaria do universo para regular suas disfuncionalidades. Pedimos milagres naturais, que Deus envie as chuvas ou as pare, detenha os tufões, faça prodígios. Isso era também o que pedia o povo a Jesus, o desejo com o qual o espírito do mal lhe tentava (poder, prestígio e dinheiro), e o sonho dos discípulos (um messias milagreiro).

Dois mil anos depois, seguimos buscando um Deus-providência ao nosso serviço, um superpai protetor e um ser onipotente que nos proteja da natureza. Mas Deus não interveio para evitar o Gólgota, nem em Auschwitz, nem evitou pestes, fomes e outros desastres.

Achamos, com tudo, que o mal é também um mistério que encaixa dificilmente com a imagem de um Deus onipotente e misericordioso, sobretudo, quando se traduz em sofrimento dos pobres e dos inocentes.

A ciência formula as leis da natureza e explica as causas dos desastres, facilitando o progresso e o avanço no controle dela. Deus não tem ciúmes do ser humano, imagem sua, mas capacita a pessoa para ser criadora e gerar vida. Deu à humanidade uma responsabilidade no mundo com a condição de que todos os seres humanos e a própria natureza participassem equitativamente das riquezas do universo. Defende o pobre e o oprimido, e abençoa os que trabalham pela paz e justiça, valores do Reino de Deus.

Deus não é neutro, está no Haiti nas vítimas e nas pessoas que trabalham ali solidariamente, identifica-se com as vítimas e faz delas o critério do julgamento divino (Mt 25,31-46). Ninguém tem o direito de falar em seu nome, só elas e quem compartilha seus sofrimentos. Mas todos nós podemos e devemos fazer-nos presentes no Haiti, atender às necessidades urgentes dos haitianos e colaborar na sua reconstrução. Mas isso não basta. Dentro de poucos meses, Haiti será uma mera lembrança, exceto para os que continuam ali.

A grande tragédia do século XXI é a de uma humanidade que tem recursos suficientes para acabar com a fome e mitigar as catástrofes naturais, mas prefere empregá-los em armamento, para defender-se dos pobres; em policiais, para evitar que os imigrantes cheguem a nossas ilhas de riqueza; e nos esbanjamentos consumistas de uma minoria de países. Do mal do Haiti, somos todos responsáveis, especialmente os países mais ricos, e a solidariedade não pode ficar em um momento pontual, mesmo que seja necessária, ainda que exija outra forma de vida.

O Haiti personifica hoje os povos crucificados, e a única resposta válida é comprometer-nos para que não haja mais Haitis assolados, nem Palestinas massacradas, como também nenhum Auschwitz nem Hiroshima. Todos nós temos que mudar, e a referência ao Deus de Jesus há de ser o grande incentivo de justiça e solidariedade para os que nós chamamos cristãos.

Este documento é assinado pelos seguintes membros da Associação João XXIII:

José Luis Andavert, Xavier Alegre, Juan Barreto, Fernando Bermúdez, José Manuel Bernal, Rafael Calonge, José María Castillo (vogal), José Centeno, Juan Antonio Estrada, Benjamín Forcano, Máximo García Ruiz (vogal), José Ignacio González Faus, Julio Lois, Francisco Margallo, Eduardo Malvado, Albert Moliner, Federico Pastor (presidente), Jesús Peláez, Victorino Pérez Prieto, Margarita Pintos, José Luis Quirós, Alfredo Tamayo Ayestarán (vice-presidente), Juan José Tamayo-Acosta (secretário-geral), Rufino Velasco, José Vico, Evaristo Villar, Juan Yzuel.


Uma criança cobre a cabeça com uma pele de animal para se proteger do frio, na província afegã de Helmand, no dia 28 de janeiro. Mais da metade da população afegã vive ainda abaixo do nível de pobreza e a maior parte das atividades econômicas se concentram na capital, Kabul. Fonte: Shah Marai/AFP
Foto do dia: UNISINOS

21/01/10

Metodologia da prevenção, o legado de Zilda Arns



Até sua morte, no terremoto do Haiti, Zilda Arns era pouco conhecida da maioria dos economistas, investidores e empresários comprometidos com o crescimento tradicional do PIB. A médica sanitarista, no entanto, deveria figurar nos anais das boas escolas de administração do mundo inteiro, como criadora de uma metodologia de trabalho revolucionária e altamente eficiente. A Pastoral da Criança, que ela ajudou a criar em 1983 como desafio proposto pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) à Igreja Católica, exibe indicadores invejáveis, seja qual for o ângulo adotado para analisar o desempenho da entidade. O mais admirável é o custo mensal por cada uma das cerca de 2 milhões de crianças atendidas: menos de US$ 1,00. Os recursos de pouco mais de R$ 35 milhões utilizados no exercício de 2008 representaram um custo mensal de R$ 1,69 por criança, decomposto em vários investimentos, como capacitação de voluntários (R$ 0,18 por criança/mês), apoio geração de renda (R$ 0,06) e educação de jovens e adultos (R$ 0,05). A reportagem é de Denise Ribeiro, da Agência Envolverde, especial para o Instituto Ethos, 21-01-2010.
Fonte: UNISINOS


Presente em 42 mil comunidades pobres e em 7.000 paróquias de todas as Dioceses do Brasil, a Pastoral se move num trabalho de formiga, que envolve 260 mil voluntários (92% deles mulheres). Imbuídos do espírito missionário, eles dedicam, em média, 24 horas por mês ao trabalho de orientar mães e famílias para que cuidem bem de suas crianças. O objetivo primordial da entidade, organismo de ação social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), é “reduzir as causas da desnutrição e da mortalidade infantil e promover o desenvolvimento integral das crianças, desde a concepção até os 6 anos de idade”. Como pediatra e sanitarista, Zilda Arns acreditava que “a primeira infância é uma fase decisiva para a saúde, a educação, a fixação de valores culturais e o cultivo da fé e da cidadania, com profundas repercussões ao longo da vida”.

O atendimento a cerca de 1,5 milhão de famílias em mais de 3.500 cidades brasileiras trouxe um novo sentido de dignidade e cidadania aos excluídos da nação. Fez também despencar os índices de desnutrição e de mortalidade infantil a patamares ainda hoje perseguidos pela ONU. Em 1983, a Pastoral encontrou 50% de crianças desnutridas – hoje elas são 3,1% das atendidas. A mortalidade infantil despencou de 127 para 13 por mil nascidos vivos. Que outra empresa, ONG ou entidade governamental pode se dar ao luxo de ostentar desempenho tão robusto?

Graças à coordenação e ao empenho de Zilda Arns e à sua rede de voluntários, o Brasil poderá dizer que fez parte da lição de casa proposta pela Declaração do Milênio, aprovada pelas Nações Unidas em setembro de 2000. Das oito metas a serem atingidas até 2015, pelo menos duas – “erradicar a extrema pobreza e a fome” e “reduzir em 50% a mortalidade infantil” – sem dúvida alguma devem muito à Pastoral da Criança, que desde 2008 exporta sua tecnologia social para outros continentes. Angola, Moçambique, Guiné-Bissau; Timor Leste, Filipinas, Paraguai, Peru, Bolívia, Venezuela, Argentina, Chile, Colômbia, Uruguai, Equador e México. No Haiti, Zilda Arns estava justamente empenhada em divulgar a metodologia que criou e que tem caráter ecumênico. Numa entrevista, ela contava como voluntários muçulmanos se sentiam felizes por poder ajudar seus conterrâneos da Guiné-Bissau.

Distorção do PIB

A repercussão desse incansável trabalho, no entanto, não é levado em conta pelos homens que cuidam do produto interno bruto (PIB). Quem acusa esse grave desvio, sempre que tem oportunidade de tocar no assunto, é Ladislau Dowbor, economista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Na última Conferência do Instituto Ethos, ele voltou ao tema, usando a performance da Pastoral da Criança como exemplo. Ele diz que seus excelentes resultados na saúde preventiva não são levados em conta para quem vincula progresso e crescimento a aumento do PIB. Afirma que os agentes da Pastoral são responsáveis, nas regiões onde trabalham, por 50% da redução da mortalidade infantil e 80% da redução das hospitalizações, e argumenta que, “com isso, menos crianças ficam doentes, o que significa que se consomem menos medicamentos, usam-se menos serviços hospitalares e as famílias vivem mais felizes”. E completa, indignado: “Mas o resultado do ponto de vista das contas econômicas é completamente diferente: ao cair o consumo de medicamentos, o uso de ambulâncias, de hospitais e de horas de médicos, reduz-se também o PIB. Mas o objetivo é aumentar o PIB ou melhorar a saúde (e o bem-estar) das famílias?”.

A reflexão está, também, em artigo que Dowbor divulga em seu site e que reproduzimos aqui: “Todos sabemos que a saúde preventiva é muito mais produtiva, em termos de custo-benefício, do que a saúde curativa-hospitalar. Mas, se nos colocarmos do ponto de vista de uma empresa com fins lucrativos, que vive de vender medicamentos ou de cobrar diárias nos hospitais, é natural que prevaleça a visão do aumento do PIB e do aumento do lucro. É a diferença entre os serviços de saúde e a indústria da doença. Na visão privatista, a falta de doentes significa falta de clientes. Nenhuma empresa dos gigantes chamados internacionalmente de big pharma investe seriamente em vacinas, e muito menos em vacinas contra doenças de pobres. Ver este ângulo do problema é importante, pois nos faz perceber que a discussão não é inocente, e os que clamam pelo progresso identificado com o aumento do PIB querem, na realidade, maior dispêndio de meios, e não melhores resultados. Pois o PIB não mede resultados, mede o fluxo dos meios”.

O economista afirma que o trabalho da Pastoral da Criança não é contabilizado como contribuição para o PIB. “Para o senso comum, isto parece uma atividade que não é propriamente econômica, como se fosse um band-aid social. Os gestores da Pastoral, no entanto, já aprenderam a corrigir a contabilidade oficial. Contabilizam a redução do gasto com medicamentos, que se traduz em dinheiro economizado na família, e que é liberado para outros gastos. Nesta contabilidade corrigida, o não-gasto aparece como aumento da renda familiar. As noites bem dormidas quando as crianças estão bem representam qualidade de vida, coisa muitíssimo positiva, e que é afinal o objetivo de todos os nossos esforços. O fato de a mãe ou o pai não perderem dias de trabalho pela doença dos filhos também ajuda a economia”, esclarece.

Zilda Arns, uma mulher atenta às demandas dos mais pobres, fez pelo Brasil o que a maioria dos políticos e governantes juntos não fizeram nos últimos 30 anos. Sua obra permanecerá, porque se apoia em pilares sólidos, chamados amor, solidariedade, fé, compaixão, transparência. “Estou convencida de que a solução da maioria dos problemas sociais está relacionada à redução urgente das desigualdades sociais, à eliminação da corrupção, à promoção da justiça social, ao acesso à saúde e à educação de qualidade e à mútua ajuda financeira e técnica entre as nações, para a preservação e recuperação do meio ambiente”, disse ela numa conferência na Tailândia, em outubro passado. E também estava atenta às demandas do planeta: “O mundo está despertando para os sinais do aquecimento global, que se manifesta nos desastres naturais, mais intensos e frequentes. A grande crise econômica demonstrou a inter-relação entre os países. Para não sucumbir, exige-se solidariedade entre as nações. É de solidariedade e de fraternidade que o mundo mais necessita para sobreviver e encontrar o caminho da paz”. Sábia Zilda.

[grifos do blog]


15/01/10

Último discurso - Dra. Zilda Arns


Agradeço o honroso convite que me foi feito. Quero manifestar minha grande alegria por estar aqui com todos vocês em Porto Príncipe, Haiti, para participar da assembleia de religiosos.

Como irmã de dois franciscanos e de três irmãs da Congregação das Irmãs Escolares de Nossa Senhora, estou muito feliz entre todos vocês. Dou graças a Deus por este momento.

Na realidade, todos nós estamos aqui, neste encontro, porque sentimos dentro de nós um forte chamado para difundir ao mundo a boa notícia de Jesus. A boa notícia, transformada em ações concretas, é luz e esperança na conquista da Paz nas famílias e nas nações. A construção da paz começa no coração das pessoas e tem seu fundamento no amor, que tem suas raízes na gestação e na primeira infância, e se transforma em fraternidade e responsabilidade social.

A paz é uma conquista coletiva. Tem lugar quando encorajamos as pessoas, quando promovemos os valores culturais e éticos, as atitudes e práticas da busca do bem comum, que aprendemos com nosso mestre Jesus: "Eu vim para que todos tenham vida e a tenha em abundância" (Jo 10.10).

Espera-se que os agentes sociais continuem, além das referências éticas e morais de nossa Igreja, ser como ela, mestres em orientar as famílias e comunidades, especialmente na área da saúde, educação e direitos humanos. Deste modo, podemos formar a massa crítica das comunidades cristãs e de outras religiões, em favor da proteção da criança desde a concepção, e mais excepcionalmente até os seis anos, e do adolescente. Devemos nos esforçar para que nossos legisladores elaborem leis e os governos executem políticas públicas que incentivem a qualidade da educação integral das crianças e saúde, como prioridade absoluta.

O povo seguiu Jesus porque ele tinha palavras de esperança. Assim, nós somos chamados para anunciar as experiências positivas e os caminhos que levam as comunidades, famílias e pais a serem mais justos e fraternos.

Como discípulos e missionários, convidados a evangelizar, sabemos que força propulsora da transformação social está na prática do maior de todos os mandamentos da Lei de Deus: o amor, expressado na solidariedade fraterna, capaz de mover montanhas: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos" significa trabalhar pela inclusão social, fruto da Justiça; significa não ter preconceitos, aplicar nossos melhores talentos em favor da vida plena, prioritariamente daqueles que mais necessitam. Somar esforços para alcançar os objetivos, servir com humildade e misericórdia, sem perder a própria identidade. Todo esse caminho necessita de comunicação constante para iluminar, animar, fortalecer e democratizar nossa missão de fé e vida. Cremos que esta transformação social exige um investimento máximo de esforços para o desenvolvimento integral das crianças. Este desenvolvimento começa quanto a criança se encontra ainda no ventre sagrado da sua mãe. As crianças, quando estão bem cuidadas, são sementes de paz e esperança. Não existe ser humano mais perfeito, mais justo, mais solidário e sem preconceitos que as crianças.

Não é por nada que disse Jesus: "... se vocês não ficarem iguais a estas crianças, não entrará no Reino dos Céus" (MT 18,3). E "deixem que as crianças venham a mim, pois deles é o Reino dos Céus" (Lc 18, 16).

Hoje vou compartilhar com vocês uma verdadeira história de amor e inspiração divina, um sonho que se fez realidade. Como ocorreu com os discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35), "Jesus caminhava todo o tempo com eles. Ele foi reconhecido a partir do pão, símbolo da vida." Em outra passagem, quando o barco no Mar da Galileia estava prestes a afundar sob violentas ondas, ali estava Jesus com eles, para acalmar a tormenta. (Mc 4, 35-41).

Com alegria vou contar o que "eu vi e o que tenho testemunhado" há mais de 26 anos desde a fundação da Pastoral da Criança, em setembro de 1983.

Aquilo que era uma semente, que começou na cidade de Florestópolis, Estado do Paraná, no Brasil, se converteu no Organismo de Ação Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, presente em 42 mil comunidades pobres e nas 7.000 paróquias de todas as Dioceses da Brasil.

Por força da solidariedade fraterna, uma rede de 260 mil voluntários, dos quais 141 mil são líderes que vivem em comunidades pobres, 92% são mulheres, e participam permanentemente da construção de um mundo melhor, mais justo e mais fraterno, em serviço da vida e da esperança. Cada voluntário dedica em média 24 horas ao mês a esta missão transformadora de educar as mães e famílias pobres, compartilhar o pão da fraternidade e gerar conhecimentos para a transformação social.

O objetivo da Pastoral da Criança é reduzir as causas da desnutrição e a mortalidade infantil, promover o desenvolvimento integral das crianças, desde sua concepção até o seis anos de idade. A primeira infância é uma etapa decisiva para a saúde, a educação, a consolidação dos valores culturais, o cultivo da fé e da cidadania com profundas repercussões por toda a vida.

Um pouco de história:

Sou a 12ª de 13 irmãos, cinco deles são religiosos. Três irmãs religiosas e dois sacerdotes franciscanos. Um deles é D. Paulo Evaristo, o Cardel Arns, Arcebispo emérito de São Paulo, conhecido por sua luta em favor dos direitos humanos, principalmente durante os vinte anos da ditadura militar do Brasil.

Em maio de 1982, ao voltar de uma reunião da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, D. Paulo me chamou pelo telefone a noite. Naquela reunião, James Grant, então diretor executivo da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), falou com insistência sobre o soro oral. Considerado como o maior avanço da medicina no século passado, esse soro era capaz de salvar da morte milhões de crianças que poderiam morrer por desidratação devido a diarreia, uma das principais causas da mortalidade infantil no Brasil e no mundo. James Grant conseguiu convencer a D. Paulo para que motivasse a Igreja Católica a ensinar as mães a preparar e administrar o soro oral. Isto podia salvar milhares de vidas.

Viúva fazia cinco anos, eu estava, naquela noite história, reunida com os cinco filhos, entre os nove e dezenove anos, quando recebi a chamada telefônica do meu irmão D. Paulo. Ele me contou o que havia passado e me pediu para refletir sobre ele. Como tornar realidade a proposta da Igreja de ajudar a reduzir a morte das crianças? Eu me senti feliz diante deste novo desafio. Era o que mais desejava: educar as mães e famílias para que soubessem cuidar melhor de seus filhos!

Creio que Deus, de certo modo, havia me preparado para esta missão. Baseada na minha experiência como médica pediatra e especialista em saúde pública e nos muitos anos de direção dos serviços públicos de saúde materna-infantil, compreendi que, além de melhorar a qualidade dos serviços públicos e facilitar às mães e crianças o acesso a eles, o que mais falta fazia às mães pobres era o conhecimento e a solidariedade fraterna, para que pudessem colocar em prática algumas medidas básicas simples e capazes de salvar seus filhos da desnutrição e da morte, como por exemplo a educação alimentar e nutricional para as grávidas e seus filhos, a amamentação materna, as vacinas, o soro caseiro, o controle nutricional, além dos conhecimentos sobre sinais e sintomas de algumas doenças respiratórias e como as prevenir.

Me vem a mente então a metodologia que utilizou Jesus para saciar a fome de 5.000 homens, sem contar as mulheres e as crianças. Era noite e tinham fome. Os discípulos disseram a Jesus que o melhor era que deixassem suas casa, mas Jesus ordenou: "Dai-lhes vós de comer". O apóstolo Felipe disse a Jesus que não tinham dinheiro para comprar comida para tanta gente. André, irmão de Simão, sinalou a uma criança que tinha dois peixes e cinco pães. E Jesus mandou que se sentassem em grupos de cinquenta a cem pessoas (em pequenas comunidades). Então pensei: Por que morrem milhões de crianças por motivos que podem facilmente ser prevenidos? O que faz com que eles se tornem criminosos e violentos na adolescência?

Recordei o inicio da minha carreira, quando me desafiei a querer diminuir a mortalidade infantil e a desnutrição. Vieram a minha mente milhares de mães que trocaram o leite materno pela mamadeira diluída em água suja. Outras mães que não vacinam seus filhos, quando não havia ainda cesta básica no Centro de Saúde. Outras mães que limpavam o nariz de todos os seus filhos com o mesmo pano, ou pegavam seus filhos e os humilhavam quando faziam xixi na cama. E ainda mais triste, quando o pai chegava em casa bêbado. Ao ouvir o grito de fome e carinho de seus filhos, os venciam mesmo quando eram muito pequenos. Sabe-se, segundo resultados de pesquisas da OMS (Organização Mundial da Saúde), cuja publicação acompanhei em 1994, que as crianças maltratadas antes de um ano de idade têm uma tendência significativa para violência, e com frequência fazem crimes antes dos 25 anos.

A Igreja, que somos todos nós, que devíamos fazer?

Tive a seguridade de seguir a metodologia de Jesus: organizara as pessoas em pequenas comunidades; identificar líderes, famílias com grávidas e crianças menores de seis anos. Os líderes que se dispusessem a trabalhar voluntariamente nessa missão de salvar vidas, seriam capacitados, no espírito da fé e vida, e preparados técnica e cientificamente, em ações básicas de saúde, nutrição, educação e cidadania. Seriam acompanhados em seu trabalho para que não se desanimassem. Teriam a missão de compartilhar com as famílias a solidariedade fraterna, o amor, os conhecimentos sobre os cuidados com as grávidas e as crianças, para que estes sejam saudáveis e felizes. Assim como Jesus ordenou que considerassem se todos estavam saciados, tínhamos que implantar um sistema de informações, com alguns indicadores de fácil compressão, inclusive para líderes analfabetos ou de baixa escolaridade. E vi diante de mim muitos gestos de sabedoria e amor apreendidos com o povo.

Senti que ali estava a metodologia comunitária, pois podia se desenvolver em grande escala pelas dioceses, paróquias e comunidades. Não somente para salvar vidas de crianças, mas também para construir um mundo mais justo e fraterno. Seria a missão do "Bom Pastor", que estão atentos a todas as ovelhas, mas dando prioridade àquelas que mais necessitam. Os pobres e os excluídos.

Naquela maravilhosa noite, desenhei no papel uma comunidade pobre, onde identifique famílias com grávidas e filhos menores de seis anos e lideres comunitários, tanto católicos como de outras confissões e culturas, para levar adiante ações de maneira ecumênica, pois Jesus veio par que "todos tenham Vida e Vida em abundância" (João 10,10). Isto é o que precisa ser feito aqui no Haiti: fazer um mapa das comunidades pobres, identificar as crianças menores de 6 anos e suas famílias e lideres comunitários que desejam trabalhar voluntariamente.

Desde a primeira experiência, a Pastoral da Criança cultivou a metodologia de Jesus, que é aplicada em grande escala. No Brasil, em mais de 40 mil comunidades, de 7.000 paróquias de todas as 272 dioceses e prelazias. Está se estendendo a 20 países. Estes são, na América Latina e no Caribe: Argentina, Bolívia, Colômbia, Paraguai, Uruguai, Peru, Venezuela, Guatemala, Panamá, República Dominicana, Haiti, Honduras, Costa Rica e México; na África: Angola, Guiné-Bissau, Guiné Conakry e Moçambique e na Ásia: Filipinas e Timor Leste.

Para organizar melhor e compartilhar as informações e a solidariedade fraterna entre as mães e famílias vizinhas, as ações se baseiam em três estratégias de educação e comunicação: individual, de grupo e de massas. A Pastoral da Criança utiliza simultaneamente as três formas de comunicação para reforçar a mensagem, motivar e promover mudanças de conduta, fortalecendo as famílias com informações sobre como cuidar dos filhos, promovendo a solidariedade fraterna.

A educação e comunicação individual se fazem através da 'Visita Domiciliar Mensal nas famílias' com grávidas e filhos. Os líderes acompanham as famílias vizinhas nas comunidades mais pobres, nas áreas urbanas e rurais, nas aldeias indígenas e nos quilombos, e nas áreas ribeirinhas do Amazonas. Atravessam rios e mares, sobem e descem montes de encostas íngremes, caminham léguas, para ouvir os clamores das mães e famílias, para educar e fortalecer a paz, a fé e os conhecimentos. Trocam ideias sobre saúde e educação das crianças e das grávidas; ensinam e aprendem.

Com muita confiança e ternura, fortalecem o tecido social das comunidade, o que leva a inclusão social.

Motivados pela Campanha Mundial patrocinadas pela ONU (Organização das Nações Unidas), em 1999, com o tema "Uma vida sem violência é um direito nosso", a Pastoral da Criança incorporou uma ação permanente de prevenção da violência com o lema "A Paz começa em casa". Utilizou como uma das estratégias de comunicação a distribuição de seis milhões de folhetos com "10 Mandamentos para alcançar a paz na família", debatíamos nas comunidades e nas escolas, do norte ao sul do país.

As visitas, entre tantas outras ações, servem para promover a amamentação materna, uma escola de diálogo e compartilhar, principalmente quando se dá como alimento exclusivo até os seis meses e se continua dando como alimento preferencial além do um ano, inclusive além dos dois anos, complementarmente com outros alimentos saudáveis. A sucção adapta os músculos e ossos para uma boa dicção, uma melhor respiração e uma arcada dentária mais saudável. O carinho da mãe acariciando a cabeça do bebe melhora a conexão dos neurônios. A psicomotricidade da criança que mama no peito é mais avançada. Tanto é assim que se senta, anda e fala mais rápido, aprende melhor na escola. É fator essencial para o desenvolvimento afetivo e proteção da saúde dos bebês, para toda a vida. A solidariedade desponta, promovida pelas horas de contato direto com a mãe. Durante a visita domiciliar, a educação das mulheres e de seus familiares eleva a autoestima, estimula os cuidados pessoais e os cuidados com as crianças. Com esta educação das famílias se promove a inclusão social.

A educação e a comunicação grupal têm lugar cada em cada mês em milhares de comunidades. Esse é o Dia da Celebração da Vida. Momento dedicado ao fortalecimento da fé e da amizade entre famílias. Além do controle nutricional, estão os brinquedos e as brincadeiras com as crianças e a orientação sobre a cidadania. Neste dia as mães compartilham práticas de aproveitamento adequado de alimentos da região de baixo custo e alto valor nutritivo. As frutas, folhas verdes, sementes e talos, que muitas vezes não são valorizados pelas famílias.

Outra oportunidade de formação de grupo é a Reunião Mensal de Reflexão e Evolução dos líderes da comunidade. O objetivo principal desta reunião é discutir e estabelecer soluções para os problemas encontrados.

Essas ações integram o sistema de informação da Pastoral da Criança para poder acompanhar os esforços realizados e seus resultados através de Indicadores. A desnutrição foi controlada. De mais de 50% de desnutridos no começo, hoje está em 3,1%. A mortalidade infantil foi drasticamente reduzida. Em 1982, a mortalidade infantil no Brasil foi 82,8 mil nascidos vivos. Estes resultados têm servido de base para conquistar entidades, como o Ministério da Saúde, Unicef, Banco HSBC, e outras empresas. Elas nos apoiam nas capacitações e em todas as atividades básicas de saúde, nutrição, educação e cidadania. O custo criança/mês é de menos de US$ 1.

Em relação à educação e à comunicação de massas apresentará três experiências concretas de como a comunicação é um instrumento de defesa dos direitos da infância.

Materiais impressos

O material impresso foi concebido especificamente para ajudar a formação do líder da Pastoral da Criança. Os instrutores e os multiplicadores servem como ferramenta de trabalho na tarefa de guiar as famílias e comunidades sobre questões de saúde, nutrição, educação e cidadania. Além do Guia da Pastoral da Criança, se colocou em marcha publicações como o Manual do Facilitador, Brinquedos e Jogos, Comida e as Hortas Familiares, alfabetização de jovens e adultos e mobilização social.

O jornal da Pastoral da Criança, com tiragem mensal de cerca de 280 mil, ou seja 3 milhões e 300 mil exemplares por ano, chega a todos os líderes da Pastoral da Criança. É uma ferramenta para a formação continua.

O Boletim Dicas abarca questões relacionadas com a saúde e a educação para cidadania. Este especialmente concebido para os coordenadores e capacitadores da Pastoral da Criança. Cada publicação chega a 7.000 coordenadores.

Para ajudar na vigilância das mulheres grávidas, a Pastoral da Criança criou os laços de amor, cartões com conselhos sobre a gravidez e um partos saudável.

Outros materiais impressos de grande impacto social é o folheto com os 10 mandamentos para a Paz na Família, 12 milhões de folhetos foram distribuídos nos últimos anos.

Além desses materiais impressos, se envia para as comunidades da Pastoral da Criança material para o trabalho de pesagem das crianças, objetos como balanças e também colheres de medir para a reidratarão oral e sacos de brinquedos para as crianças brincarem no dia da celebração da vida.

Material de som e vídeo

Outra área em que a Pastoral da Criança produz materiais é de som e a produção de filmes educativos. O Show ao vivo da Rádio da Vida, produzido e gravado no estúdio da Pastoral da Criança, chega a milhões de ouvintes em todo Brasil. Com os temas de saúde, de educação na primeira infância e a transformação social, o programa de rádio Viva a Vida se transmite semanalmente 3.740 vezes. Estamos "no ar", de 2.310 horas semanais em todo Brasil. Além disso, o Programa Viva a Vida também se executa em vários tipos de sistemas de som de CD e aparados nas reuniões de grupo.

A Pastoral da Criança também produz filmes educativos para melhorar e dar conhecimento de seu trabalho nas bases. Atualmente há 12 títulos produzidos que sem ocupam na prevenção da violência contra as crianças, comida saudável, na gravidez, e na participação dos Conselhos Municipais de Saúde, na preservação da AIDS e outros.

Campanhas

A Pastoral da Infância realiza e colabora em várias campanhas para melhorar a qualidade de vida das mulheres grávidas, famílias e crianças. Estes são alguns exemplos:

a. Campanhas de sais de reidratação oral

b. Campanha de Certidão de Nascimento: a falta de informação, a distância dos cartórios e a burocracia fazem com que as pessoas fiquem sem certidões de nascimentos.

b. Campanha de Certidão de Nascimento: a falta de informação, a distância dos escritórios e a burocracia fazem com que as pessoas fiquem sem uma certidão de nascimento. A mobilização nacional para o registro civil de nascimento, que une o Estado brasileiro e a sociedade, [busca] garantir a cada cidadão de pleno direito o nome e os direitos.

c. Campanha para promover o aleitamento materno: o leite materno é um alimento perfeito que Deus colocou à disposição nos primeiros anos de vida.

Permanentemente, a Pastoral da Criança promove o aleitamento materno exclusivo até os seis meses e, em seguida, continuar, com outros alimentos. Isso protege contra doenças, desenvolve melhor e fortalece a criança.

d. Campanha de prevenção da tuberculose, pneumonia e hanseníase: as três doenças continuam a afetar muitas crianças e adultos em nosso país. A Pastoral da Criança prepara materiais específicos de comunicação para educar o público sobre sintomas, tratamento e meios de prevenção destas doenças.

e. Campanha de Saneamento: o acesso à água potável e o tratamento de águas residuais contribuem para a redução da mortalidade infantil. A Pastoral da Criança, em colaboração com outros organismos, mobiliza a comunidade para a demanda por tais serviços a governos locais e usa os meios ao seu dispor para divulgar informações relacionadas ao saneamento.

f. Campanha de HIV/Aids e Sífilis: o teste do HIV/Aids e sífilis durante o pré-natal permite a redução de 25% para 1% do risco de transmissão para o bebê. A Pastoral da Criança apoia a campanha nacional para o diagnóstico precoce destas doenças.

g. Campanha para a Prevenção da morte súbita de bebês "Dormir de barriga para cima é mais seguro": Com a finalidade de alertar sobre os riscos e evitar até 70% das mortes súbitas na infância, a Pastoral da Criança lançou esta grande campanha dirigida às famílias para que coloquem seus bebês para dormir de barriga para cima.

h. Campanha de Prevenção do Abuso Infantil: Com esta campanha, a Pastoral da Criança esclarece as famílias e a sociedade sobre a importância da prevenção da violência, espancamentos e abuso sexual. Esta campanha inclui a distribuição de folheto com os dez mandamentos para a paz na família, como um incentivo para manter as crianças em uma atmosfera de paz e harmonia.

i. Campanha - 20 de novembro, dia de oração e de ação para as crianças: A Pastoral da Criança participa dos esforços globais para a assistência integral e proteção a crianças e adolescentes, em colaboração com a Rede Mundial de Religiões para a Infância (GNRC).

Em dezembro de 2009, completei 50 anos como médica e, antes de 2002, confesso que nunca tinha ouvido falar em qualquer programa da Unicef ou da Organização Mundial de Saúde (OMS), ou de outra agência da Organização das Nações Unidas (ONU), que estimulasse a espiritualidade como um componente do desenvolvimento pessoal. Como um dos membros da delegação do Brasil na Assembleia das Nações Unidas em 2002, que reuniu 186 países, em favor da infância, tive a satisfação de ouvir a definição final sobre o desenvolvimento da criança, que inclui o seu "desenvolvimento físico, social, mental, espiritual e cognitivo". Este foi um avanço, e vem ao encontro do processo de formação e comunicação que fazemos na Pastoral da Criança. Neste processo, vê-se a pessoa de maneira completa e integrada em sua relação pessoal com o próximo, com o ambiente e com Deus.

Estou convencida de que a solução da maioria dos problemas sociais está relacionada com a redução urgente das desigualdades sociais, com a eliminação da corrupção, a promoção da justiça social, o acesso à saúde e à educação de qualidade, ajuda mútua financeira e técnica entre as nações, para a preservação e restauração do meio ambiente. Como destaca o recente documento do papa Bento 16, "Caritas in veritate" (Caridade na verdade), "a natureza é um dom de Deus, e precisa ser usada com responsabilidade." O mundo está despertando para os sinais do aquecimento global, que se manifesta nos desastres naturais, mais intensos e frequentes. A grande crise econômica demonstrou a inter-relação entre os países.

Para não sucumbir, exige-se uma solidariedade entre as nações. É a solidariedade e a fraternidade aquilo de que o mundo precisa mais para sobreviver e encontrar o caminho da paz.

Final

Desde a sua fundação, a Pastoral da Criança investe na formação dos voluntários e no acompanhamento de crianças e mulheres grávidas, na família e na comunidade.

Atualmente, existem 1.985.347 crianças, 108.342 mulheres grávidas de 1.553.717 famílias. Sua metodologia comunitária e seus resultados, assim como sua participação na promoção de políticas públicas com a presença em Conselhos de Saúde, Direitos da Criança e do Adolescente e em outros conselhos levaram a mudanças profundas no país, melhorando os indicadores sociais e econômicos. Os resultados do trabalho voluntário, com a mística do amor a Deus e ao próximo, em linha com nossa mãe terra, que a todos deve alimentar, nossos irmãos, os frutos e as flores, nossos rios, lagos, mares, florestas e animais. Tudo isso nos mostra como a sociedade organizada pode ser protagonista de sua transformação. Neste espírito, ao fortalecer os laços que ligam a comunidade, podemos encontrar as soluções para os graves problemas sociais que afetam as famílias pobres.

Como os pássaros, que cuidam de seus filhos ao fazer um ninho no alto das árvores e nas montanhas, longe de predadores, ameaças e perigos, e mais perto de Deus, deveríamos cuidar de nossos filhos como um bem sagrado, promover o respeito a seus direitos e protegê-los.

Muito Obrigada!
Que Deus esteja convosco!

Dra. Zilda Arns Neumann
Médica pediatra e especialista em Saúde Pública
Fundadora e Coordenadora da Pastoral da Criança Internacional
Coordenadora Nacional da Pastoral da Pessoa Idosa

[grifos do blog]

13/01/10

Dra. Zilda Arns. Saudade!
















30/12/09

Dom Demétrio Valentini


Década de amostra

Dom Demétrio Valentini é Bispo de Jales (SP) e Presidente da Cáritas Brasileira
Fonte: Adital 






Era grande a expectativa para a chegada do ano dois mil. Em torno dele tinha se criado denso imaginário, onde não faltavam cenários apocalípticos, próprios de contextos do milenarismo.

A realidade se encarregaria de mostrar que a natureza continua com seu ritmo, e a história com sua dinâmica. O novo milênio carrega a herança do anterior, e precisa enfrentar os desafios recebidos.

Agora, já se passou a primeira década do novo século. Olhada com atenção, pode servir de amostra para o que nos aguarda no futuro próximo.

Alguns acontecimentos se destacam. O atentado de onze de setembro, o poderio econômico da China, e a crise ambiental, para ficarmos com alguns sintomas mais evidentes.

A virulência da derrubada das torres gêmeas, a 11 de setembro de 2001, se paramentou perfeitamente com a liturgia midiática dos grandes espetáculos. Mas não deixou de transmitir um recado claro e contundente. As torres gêmeas eram símbolo da escandalosa concentração econômica, eticamente perversa, e ecologicamente insustentável. Num mundo cada vez mais globalizado, vão ficando sempre mais intoleráveis as injustas desigualdades sociais, produzidas por um sistema econômico explorador e excludente. Os excluídos já não toleram os injustos privilégios excludentes.

O atentado de 11 de setembro levanta o claro desafio, de uma nova ordem econômica mundial, como tarefa impostergável para este século. Só assim, o mundo poderá cultivar uma razoável expectativa para o milênio. Se continuar do jeito como está, a economia mundial ficará inviável dentro de pouco tempo.

Um fato que chama a atenção, neste início de novo século, é a surpreendente ascensão da China no cenário mundial da política e da economia. A China está desequilibrando o mundo. Ela conseguiu a proeza inesperada, de juntar os dois piores ingredientes produzidos pelos embates dos últimos séculos, e colocá-los a serviço do seu crescimento econômico, às custas do verdadeiro desenvolvimento humano mundial. De um lado, ela continua com um regime político estatizante e ditatorial, no exercício de um comunismo radical e intolerante. De outro lado, adotou as práticas do pior dos liberalismos econômicos, explorando a mão de obra barata de centenas de milhões de chineses que estão na fila dos desempregados. Assim a China consegue invadir o mundo com uma gama de produtos cada dia mais ampla, fruto de uma nova forma de escravidão, que é repassada ao mundo inteiro, que se vê forçado a pagar menos os operários para manter a competitividade dos seus produtos. O "fator China" se faz presente em todas as situações.

Um dos claros desafios da política mundial, neste início de século vinte e um, é integrar a China no convívio da democracia, no respeito mínimo aos direitos humanos elementares.

Mas a amostra mais evidente desta primeira década do novo milênio vem revestida das cores da crise ambiental. No início deste milênio, está caindo a ficha da consciência ecológica. Os sinais são cada dia mais evidentes. O desequilíbrio se manifesta de muitas maneiras. O sintoma mais incontestável é o rápido derretimento das geleiras, que se constituem na maior reserva de água doce do planeta.

Ou a humanidade reverte este quadro, ou as conseqüências serão catastróficas, com o risco de inviabilizar o sistema vital em nosso planeta.

Entramos no novo milênio carregando nas costas as conseqüências de equívocos acumulados nos últimos séculos. A vantagem pode estar na consciência de que chegou a hora de enfrentá-los, com determinação e coragem.

O fracasso de Copenhague mostra que ainda não estamos preparados. Vamos mudar em tempo?

24/12/09

Iara Tatiana Bonin


Uma crônica de Natal: E se o menino Jesus escolhesse nascer brasileiro em 2009?


Iara Tatiana Bonin é doutora em Educação pela UFRGS e professora do PPG da Universidade Luterana do Brasil - Ulbra.
Fonte: UNISINOS

E se o menino Jesus resolvesse nascer novamente entre nós, para sentir na própria pele os efeitos de seus sagrados ensinamentos? Se escolhesse nascer de uma família humilde, como aquela de Nazaré, que hoje estivesse seguindo, junto ao seu povo, numa longa caminhada? Neste caso, nos dias atuais, Ele escolheria nascer Guarani-Kaiowá!

Nasceria como parte de um povo a caminho, um povo em busca de justiça e de paz. Ele faria parte de uma coletividade que luta para viver, não numa “terra prometida”, e sim numa terra tradicional, lugar de morada dos espíritos ancestrais, onde se sepultaram os corpos de intermináveis gerações. Uma coletividade que, em seu modo de pensar, ironicamente mantém viva a crença na Terra sem Mal.

Ele seria, enfim, parte de um povo que entende seu território como espaço amplo de relações sociais e de convivência com diferentes culturas, mas que se vê, hoje, expulso desse mesmo território pela intolerância de quem acredita poder decretar qualquer espaço como propriedade privada, através da violência, da força bruta e da covardia.

Se o menino Jesus viesse, neste Natal, acalentar-se nos braços afetuosos de uma mulher Guarani, ele seria acolhido como alguém muito desejado. Antes mesmo que seu corpo se formasse no ventre materno Ele seria anunciado como boa notícia, nos sonhos de seus pais, tal como ocorre quando se gera uma nova vida entre os Guarani. E ele nasceria cercado por pessoas que, no afeto cotidiano, estabeleceriam os vínculos familiares e o parentesco com esse novo ser, esse verbo feito carne, com essa palavra-alma!

Seu nome seria, possivelmente, anunciado por um Pajé, um ancião que, entre os Guarani, conhece os segredos da vida e da morte e sabe pronunciar as “belas palavras”, aquelas que chamaríamos de “língua dos anjos” na tradição judaico-cristã. Seu nome seria um sinal do que, neste mundo, ele poderia realizar, das virtudes e dons que carregaria consigo e que, no viver, deveria alimentar e fazer crescer, tal com as viçosas roças de milho.

Se o menino Jesus decidisse ficar entre nós para ver se sua história seria diferente, em pleno século XXI, talvez ele encontrasse desafios bem semelhantes daqueles que enfrentou para semear sua palavra de amor, há mais de dois mil anos. Viveria em um acampamento à beira da estrada, como centenas de Guarani-Kaiowá que aguardam ainda a regularização de suas terras. Cresceria alimentado por tradições que preparam a pessoa para viver numa coletividade e não na individualidade. Seria uma criança entre as muitas que crescem cercadas de cuidados e de atenção, mesmo quando o alimento é escasso. Mas, com dois anos de vida, talvez Ele morresse prematuramente, vítima da falta de assistência e da negligência do Poder Público, tal como a pequena Tatirrara, em Kurussu Ambá, que morreu no dia 18 de dezembro por falta de assistência. Apesar dos contínuos apelos da comunidade para obter medicamentos, a Fundação Nacional de Saúde negou-se a prestar assistência porque a terra está “em litígio”.

Se Jesus sobrevivesse, aos 15 anos talvez decidisse participar, junto com sua comunidade, de uma retomada de terra tradicional – o tekohá, a “terra prometida” para viver plenamente o Nandê Recó, “o jeito de ser Guarani”. Neste caso, talvez Ele fosse mais um jovem assassinado brutalmente, tal como Osmair Fernandes, encontrado morto em uma escola, com indícios de espancamento e de tortura.

Vamos imaginar que, com sorte, o jovem Jesus escapasse a essas violências e tivesse a chance de estudar. Afinal, Ele nasceu para ser Mestre! Quem sabe, hoje escolhesse ser professor! Conhecendo um pouquinho da história de Jesus, vivida há mais de dois mil anos, podemos imaginar que ele também não se calaria diante das injustiças e, assim, utilizaria o “dom da palavra” para ensinar, para abrir os olhos, para aconselhar, para reivindicar que a justiça fosse a medida de toda a nossa vida. Neste caso, talvez seu destino fosse o mesmo que o de Genivaldo ou Rolindo Verá, os dois professores Guarani-Kaiowá seqüestrados e arrastados pelos cabelos por homens encapuzados, de dentro de sua comunidade.

E se não fosse, ainda, a hora de entregar o corpo em sacrifício, o Filho de Deus seguiria um pouco mais, junto a seu povo, cultivando a esperança cotidiana, tecendo a vida como quem trama fibras de taquara, que se transformam em cestos para transportar os frutos da vida e do trabalho. Ele viveria transitando entre um lugar e outro, em acampamentos provisórios e, junto com os seus, sofreria com as precárias condições para a sobrevivência, tal como qualquer povo que vive em exílio, impedido de ocupar definitivamente o seu próprio lugar.

Seria, como há dois mil anos, um homem de paz, desses que buscam construir a harmonia, que buscam falar a sua verdade calmamente, manifestando, pela argumentação, as razões de sua esperança, de suas lutas, de seus anseios. Ele aprenderia esse jeito de ser com os próprios Guarani, quando fosse, por exemplo, fazer uma reivindicação junto a qualquer órgão público ou quando fosse conversar com qualquer visitante, em sua aldeia.

Para os Guarani, essa forma de lutar só é rompida quando a espera se estende em demasia, e não há mais como resistir, se não retomando uma porção de terra. Nessas ocasiões, eles seguem em grupo, com suas famílias, seus animais de estimação, e os poucos objetos que possuem. Armam seus acampamentos e ali permanecem, pacificamente, à espera de providências legais. Quase sempre são recebidos com violências, são ameaçados com rajadas de tiros, são agredidos, espancados, impedidos de obter água, alimentos, medicamentos. Por isso, nascendo novamente hoje, penso que Jesus estaria entre eles e, possivelmente, se tornaria um Pajé, um líder religioso dedicado a curar doenças, a dizer as “belas palavras”, a aconselhar aqueles que vivem à sua volta.

Envelhecendo entre os Guarani-Kaiowá, Ele seria respeitado por adquirir a sabedoria dos anos – a idade é, para este povo, “o tempo que age sobre a pessoa” e que torna a alma mais aproximada da divindade. Como Pajé, talvez liderasse uma retomada, quando a vida num certo acampamento se mostrasse impossível. Ele, então, conduziria um grupo de famílias para uma terra tradicional, onde se pudessem ouvir melhor os conselhos dos espíritos ancestrais. E, nesse lugar, talvez seu grupo fosse vítima da ação criminosa de alguns jagunços de fazendeiros, armados e encapuzados. No embate, poderia Ele ser assassinado a tiros, como foi vítima a anciã e rezadora Xuretê Lopes, numa expulsão comandada por jagunços, em 2007.

Se Jesus Cristo decidisse nascer novamente entre nós, e se fizesse gente entre os Guarani-Kaiowá, correria o risco de ser, novamente, humilhado, torturado, assassinado, com a mesma crueldade daqueles tempos em que se crucificavam os homens que desafiavam as leis, e também aqueles que desafiavam o poder político e econômico para fazer cumprir as leis.

Por isso, neste Natal, é melhor pedirmos a Jesus que permaneça lá mesmo, à direita de Deus Pai, pelo menos por enquanto, pois a maioria dos homens e mulheres que vivem no Brasil contemporâneo ainda não entendeu o significado de suas lições de amor e de solidariedade. Mas acreditamos que um dia todos nós formaremos uma multidão que já não grita “soltem Barrabás”, mas que brada “Demarcação já”! Justiça para os Povos Indígenas!



FELIZ NATAL!
Enoisa

20/12/09

Entrevista - José Maria Castillo

O poder da Igreja de hoje me dá pena e coragem, diz teólogo espanhol

José María Castillo é um dos grandes da Teologia na Espanha e no mundo. É um teólogo de fibra, que sabe combinar perfeitamente o ensaio profundo, o livro sério, com a divulgação. Por isso, se converteu em um teólogo de referência, tanto a nível clerical como a nível das bases. Há alguns anos deixou a Companhia de Jesus. Dizia, naquela época, que para se sentir mais livre. É um teólogo, como todos os que estão em campos de fronteira, perseguidos pela Congregação para a Doutrina da Fé (com vários monitums [advertências] contra ele), mas que segue na luta. Não se queimou. É daqueles que seguem dando o pão de seus livros às pessoas. Por exemplo, seu novo ensaio editado pela Trota: La humanización de Dios. A entrevista é de José Manuel Vidal e está publicada no sítio espanhol Religión Digital, 09-12-2009. A tradução é do Cepat.
Fonte: UNISINOS


José María, bom-dia. É um prazer que estejas conosco.

Muito prazer, obrigado.

É um duplo prazer, porque contamos também com teu blog, que dignifica ainda mais a nossa página.

Isso para mim também é um presente. Me sinto bem à vontade, e o considero uma generosidade da parte de vocês.

Qual é a tese fundamental do teu novo livro?

Creio que a tese está suficientemente indicada no título. Deus, na história das religiões, é considerado como um ser transcendente e, portanto, distante e inalcançável. Em uma ordem completamente diferente e inacessível ao ser humano. Portanto, as religiões ao máximo que chegam é falar da relação do homem com Deus. A originalidade do cristianismo está em que fala da união do homem com Deus. E a partir desse momento é preciso se perguntar se é o homem que deve ser elevado à condição divina, ou se Deus desce e se identifica com a condição humana.

Como o texto dos Filipenses?

Claro, porque não há um termo médio. É preciso optar por um ou outro. É verdade que a definição dogmática do Concílio de Calcedônia, no século V, optou por uma solução que parecia intermediária: dizer que Deus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, mas que Nele há uma única pessoa que é divina. Dessa maneira, sem dizê-lo, está dizendo que é mais Deus que homem.

E pretendes dar a volta?

Pretendo simplesmente tomar como ponto de partida um mistério central do cristianismo: a Encarnação. Que Deus se faz carne, como diz o Novo Testamento. E fazer-se carne é descer e identificar-se com o mais profundamente humano. Deste ponto de vista, temos todo o direito do mundo para dizer que Deus, em Jesus, se humanizou. E, portanto, se identifica com tudo o que é humano. Ao extremo de poder dizer, no famoso texto do Juízo Final: “O que fizestes a um destes pequeninos foi a mim que fizestes”.

Mas isso também é doutrina da Igreja?

Isso está no Evangelho, e por isso a Igreja tem o dever sagrado de ensiná-lo, defendê-lo e explicá-lo.

E no Credo.

Sim, mas acontece que o Credo, tanto em sua fórmula curta (do Concílio de Nicéia) como na mais longa (do I Concílio de Constantinopla) foi redigido em condições marcadas por uma forte influência política. Dos imperadores. Não esqueçamos que os quatro primeiros Concílios da Igreja não foram convocados pelos Papas, mas pelos imperadores. Foram pagos, aprovados e promulgados por eles. E que até Teodósio I (final do século IV) utilizavam o título de Sumo Pontífice.

Ou seja, que a nossa fé descansa sobre os imperadores romanos?

Não diria tanto, mas que os imperadores tiveram uma influência determinante na formulação daqueles Concílios. A ponto de que um dos grandes temas que se estuda sobre aqueles tempos é o cesaropapismo, que foi o fato da intervenção dos imperadores na teologia, impondo seus critérios e seus pontos de vista. Eu, no livro, dou o exemplo muito eloquente e atual: imaginemos que Obama convoque um concílio ecumênico na Casa Branca. Que reúna ali todos os bispos do mundo, custeie sua estadia, aprove os documentos e os promulgue. Muita gente ficaria com reservas.

Evidentemente.

É verdade que não se pode transpor o século IV ou V para o século XXI, porque seria uma injustiça histórica e uma ingenuidade pedagógica. Mas não esqueçamos que há grandes paralelismos entre uma coisa e outra.

Então, esse cesaropapismo arrastou a definição de Cristo mais para o divino, em detrimento da parte humana.

Efetivamente. O empenho de Nicéia contra o imperador Constantino foi afirmar como dogma a identidade de substância, de ser, de Jesus Cristo com Deus, com o Pai. Nesse sentido, se salvou a divindade de Cristo, ao afirmar que a sua natureza era a mesma que a do Pai. Mas se carregou tanto a mão nos séculos seguintes no aspecto da divindade (e aqui aparecem os Padres da Igreja), que aquilo terminou em que no Concílio de Calcedônia o que se teve que defender foi a humanidade. Porque o que o monofisismo do monge Êutiques defendia era que Jesus não era um ser humano como os outros. Divino, mas não humano. E isso a Igreja também condenou.

Acontece que a Igreja segue tendo um monofisismo eterno oculto, dissimulado. Há muitas pessoas que estão convencidas de que Jesus Cristo é Deus. Santo Tomás, na Suma Teológica, se pergunta se Jesus fazia as necessidades humanas.

Se ia ao banheiro como qualquer ser humano.

Claro. Um velho professor meu dizia que isso que Santo Tomás disse é uma estupidez, porque Jesus era um ser humano, e tudo o que é humano é próprio de Jesus.

Dá a sensação de que a Igreja tem certa vergonha dessa realidade. Não só esse tema, mas o do desejo sexual de Cristo. Teve ou não desejos sexuais?

Se isso é humano, teve que tê-los.

E por que esse medo de reconhecê-lo?

Porque há certas constantes na experiência humana. Nos séculos I, II e III era o agnosticismo, que antepunha o divino ao humano. Espírito-matéria, sobrenatural-natural. Depois, essa tendência foi reaparecendo de diferentes formas. No fundamentalismo e nas tendências mais liberais.

A Igreja continua tendo medo da humanização de Cristo?

E não apenas de Cristo, que era plenamente humano, mas de Deus. A chave está na pergunta de Felipe na Última Ceia, quando disse a Jesus: “Senhor, mostra-nos o Pai”. Jesus lhe responde: “Felipe, ainda não me conheces?”. Se eu fosse Felipe lhe teria dito: “Sim, eu te conheço. O que quero é conhecer Deus”. Mas é que Jesus acrescentou, sem que esta intervenção fizesse falta: “Aquele que me vê, vê o Pai”.

Ver Jesus era ver Deus. Ouvi-lo era ouvir Deus. Tocar Jesus era tocar Deus. Portanto, desde o momento em que Deus se humaniza, se funde com a carne. Com o mais frágil da condição humana.

Assumindo todas as consequências.

Toda a fraqueza, menos o pecado. Menos a maldade, que é desumana, desumanização. Assume tudo o que é plenamente humano.

Mas também teve que se zangar.

Claro que sim. Na sinagoga, no episódio do coxo, perguntou se a religião permitia salvar ou condenar uma vida. Aqueles que queriam colocá-lo à prova se calaram, e o Evangelho de Marcos diz que Jesus lhes dirigiu um olhar de ira. Ira, não indignação!

Na famosa cena do Templo, que se coloca às vezes como exemplo disso, quando pega o chicote, sentiu indignação ou também ira?

Provavelmente as duas coisas, porque haviam convertido o Templo em uma cova de ladrões.

A humanização segue trazendo problemas? José Antonio Pagola é um exemplo atual claro disso.

Evidentemente. Há uma resistência não confessada, mas muito forte. Porque o humano é a coisa mais básica da nossa condição, anterior ao cultural, ao religioso, etc. E Deus se identifica com isso. Deus se encontra sobretudo no laico, no comum a todos os seres humanos. Estas foram as grandes preocupações de Jesus. E para isso apelava a Deus. Porque Jesus sabia muito bem que sem fé, sem profundas convicções, a condição humana não é capaz de nada. Porque o desumano predomina em nós. O Pecado Original. Então, me parece que a originalidade do meu livro está em dizer que devemos buscar a Deus, sobretudo, no humano. E que o cristianismo existe para nos humanizarmos.

Isso não quer dizer que negues que Deus era também perfeito?

Não, de jeito nenhum. Estou afirmando: o perfeito Deus se expressa, se revela, na perfeita humanidade. Este é o grande mistério de Jesus.

E uma das questões pendentes da teologia é a perfeita humanidade. Por que se pesquisou pouco nessa área?

É que os teólogos muitas vezes dão a impressão de que conhecem mais a Deus do que o homem. Prova disso é que se perguntam: “Jesus é Deus?”. Se analisam essa pergunta, te dás conta de que no fundo estão dizendo que sabem o que é Deus. E perguntam se isso se pode aplicar a Jesus. Eu perguntaria a quem faz essa pergunta: “Você sabem quem é Deus? O viu, o conhece?”.

Conhecemos Jesus pela história evangélica. Pode-se discutir sobre o valor histórico, mas aí há a realidade de um galileu, trabalhador do século I, que viveu de determinada forma, teve tais convicções, fez tais coisas e morreu de tal maneira; sabemos disso com muita segurança. A partir daí temos que conhecer a Deus.

Seria mais fácil conhecer o Jesus homem do que o Jesus deus?

Claro. A partir do Jesus homem podemos começar a conhecer o Jesus deus. Porque se eu vou diretamente ao deus em si, o que posso saber? Disse-o Aristóteles, é a metafísica dos gregos. A especulação dos intelectuais merece respeito, mas o Evangelho tem mais credibilidade.

Ou seja, o que sabemos de Deus sabemo-lo porque Jesus o disse?

Evidentemente. Por isso, ele é revelador e revelação de Deus. É a imagem de Deus invisível. Ou, como diz a Carta aos Hebreus, “Deus finalmente nos falou em seu Filho”. Por meio de seu filho, que é Jesus.

Uma lacuna que assinalas na cristologia é a cristologia política da Igreja antiga. O que queres dizer com isso?

Me refiro ao cesaropapismo, à influência dos interesses políticos na teologia. Compreende-se que isto tenha acontecido, porque era o tempo da decadência do Império. Aquilo estava naufragando e se agarraram ao que era possível. Como viram que o cristianismo estava crescendo, se agarraram a ele. Mas, claro, não lhes interessava um Deus crucificado. E o problema com o qual se defrontaram foi que o cristianismo pregava que o deus no qual acreditavam era um crucificado. E isso significava um escravo, ou um estrangeiro, ou um subversivo. Como resolveram isso? Criando um deus Todo Poderoso. Um pantocrator, que era um título imperial, que colocaram em Jesus Cristo. Mas o Deus que emerge dos Evangelhos é um Deus misericordioso.

“Todo Poderoso”.

É isso. As pessoas não necessitam de poderes que as dominem, mas compreensão, misericórdia, respeito, tolerância, ajuda para a nossa debilidade. Este seria o melhor serviço que a Igreja poderia prestar.

E isso a igreja do poder, identificada com o Vaticano, pode cumprir? Olhando para o Vaticano dá a sensação de que estamos diante de um grande poder.

Não é apenas uma sensação, é uma realidade. A cúpula da Praça de São Pedro, a imponência de um cardeal revestido com todos os seus ornamentos, são uma expressão simbólica de uma realidade. A Igreja prega constantemente o Evangelho. Há muitas pessoas na Igreja que pregam e vivem e sofrem por causa do Evangelho. Há bispos e sacerdotes e religiosos e religiosas em lugares onde não vai ninguém. Por exemplo, na América Latina. Padres que estão nos piores lugares. Mas isso não é notícia em nenhuma parte. O que é notícia são as grandes reuniões na Praça de São Pedro ou em qualquer lugar para onde o Papa vai para ser recebido como um grande deste mundo, como um chefe de estado.

E as pessoas não são esclarecidas. Porque, como juntar essas imagens com o que se lê no Evangelho? Jesus também deu muita importância a isto. E quando mandou os apóstolos a evangelizar, lhes disse: “Não levem dinheiro, nem bastão, nem sandálias; não levem duas túnicas”. Porque assim se evangeliza. Eu creio que São Francisco de Assis evangelizou mais na sua humildade e na sua simplicidade – ou a boa gente por aí perdida, padres, freiras, leigos... – que estes personagens que aparecem com essa pompa. Muitos ficam desconcertados e a outros causa mal-estar. Mesmo que haja grupos que sentem necessidade disso.

E o pior, do meu ponto de vista, é que essa tendência está crescendo ultimamente. Vamos rumo a uma Igreja da pompa e da liturgia e nos afastamos dos pobres.

Claro, porque a Igreja, à medida que vai perdendo poder no tecido social, se aferra a essas coisas.

Pela perda de influência?

Sim. Já está perdendo influência por toda a Europa; em todas as partes do mundo, à medida que a cultura vai avançando. Por isso, a Igreja se agarra ao integrismo dogmático, à política, etc., pensando que com isso vai compensar as carências em outros âmbitos. Que são os decisivos. Decisivo é o Sermão da Montanha, que determina a convivência entre as pessoas. Por isso, não se transmite, não se contagia a opinião pública, o povo.

Vês alguma saída? Há alguma possibilidade de que esta crescente involução seja reversível? É a Igreja uma instituição sábia? Se soubesse equilibrar, ao passar para um lado, o movimento pendular teria que ir para o centro, para admitir a todos.

Bom, a esperança que temos é que vão esbarrar neste limite, que vão se dar conta de que por aí já não se avança mais. Há muita gente convencida disso, não apenas entre leigos e seculares, mas também entre os bispos. Acontece que nos ambientes clericais há muito medo. E, portanto, falta de liberdade.

Medo da perda do poder?

Sim. E das reprimendas que vêm de Roma. Quando era jesuíta, um bispo me falou com toda a confiança. Estava em uma diocese da Espanha e me contou como são controlados por Roma, mediante um monitum, uma advertência. E me contou o exemplo do cardeal de Barcelona, que morreu há alguns anos, a quem mandavam monitum após monitum por coisas muito estranhas. Até que um dia se cansou, tomou um avião, foi a Roma e perguntou: “O que está acontecendo aqui?”.

Na época de Paulo VI ou de João Paulo II?

Creio que de Paulo VI.

A coisa já começou aí?

A coisa vem de muito tempo atrás, de muito longe. O mundo interno na Cúria romana é um mistério, inclusive para os que estão dentro dela. O caso é que procuraram, e descobriram que aqueles monitums vinham de Roma para o cardeal de Barcelona nada menos que por denúncias de um sacerdote que estava em um hospital psiquiátrico.

Que barbaridade.

Claro. E se em Roma dão atenção a um anônimo ou a uma denúncia de um demente para intimidar um cardeal, há algo que não funciona bem.

Há medo entre os teólogos que estão na fronteira?

Sim.

E autocensura, portanto?

Acontece que muitos de nós estamos conscientes do medo. Há uma afirmação de um psicanalista francês que diz: “A obra-prima do poder consiste em fazer-se amar”. E se o poder é religioso, se faz amar muito mais. Amamos a quem nos controla, a quem nos proíbe, nos ameaça e não nos deixa pensar com liberdade.

E isso impede a rebelião.

Claro. Eu penso, por exemplo, em Santo Antonio de Pádua. Eu recomendaria a muitos bispos e sacerdotes ler seus sermões. Ou o Tratado de Consideratione de São Bernardo. Ou Santa Catarina de Sena. E não estou citando teólogos da Libertação, mas santos dos séculos XII e XIII, místicos da Idade Média.

É esse círculo que rompes quando decides que não há espaço suficiente para respirar (dentro da Companhia de Jesus)?

Sim, isso me influenciou notavelmente para tomar a decisão que tomei e que, aos 78 anos, não é fácil tomar. Tive dificuldades para pensar com liberdade e dizer livremente o que pensava. E falei para mim mesmo: “O pouco tempo de vida que me resta, que não será muito, quero poder pensar e falar com liberdade, até onde me seja possível”.

E isso é algo que se agradece, porque há poucas vozes absolutamente livres, que possam expressar o que sentem. Porque na Igreja se murmura muito, se critica por baixo, mas há poucas pessoas que se atrevem a dizer publicamente, por exemplo, o que tu estás dizendo.

O que eu sinto é que há pessoas que podem se escandalizar. Que vão se irritar ou sentir mal lendo meus livros ou esta entrevista. Mas também penso que nos Evangelhos (Deus me livre de nem sequer querer assemelhar-me ao Senhor) Jesus escandalizou muita gente. E Monsenhor Romero, ou Dom Hélder Câmara, também escandalizaram muita gente. Lembro dessa frase tão conhecida: “Quando eu dou de comer aos pobres, me chamam de santo. Quando eu pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista!” Quer dizer, se escandalizam. Mas eu creio que isto é inevitável.

Mas os simples não se escandalizam. Quem se escandaliza, ou diz que se escandalizar, são os talibans que defendem a Igreja esclerosada.

É verdade. Eu sempre digo uma coisa: Jesus foi extremamente tolerante. Mas foi intolerante com os intolerantes. Essa é a razão da dureza e da firmeza com que trata a escribas e fariseus, segundo os relatos evangélicos.

Uma questão de atualidade. Houve nomeações, uma muito polêmica: a do Monsenhor Munilla para San Sebastián, sem consultar a diocese, etc. Quem manda na Igreja espanhola neste momento?

O cardeal Antonio María Rouco [presidente da Conferência Episcopal Espanhola] tem um poder muito grande.

Sem contrapesos?

Ele os tem, mas estão ocultos, segundo dizem aqueles que conhecem o mundo interno da Conferência Episcopal. Rouco se deu conta de que a linha que ele tomou é bastante similar àquela que domina atualmente no Vaticano. Alguém dirá: “Mas é isso que tem que ser feito”. Mas eu diria: “Cuidado”. Porque essa linha é coincidente com o fundamentalismo religioso mais taxativo, e com a direita política.

Eu respeito o fato de que querem seguir essa linha, são livres para fazê-lo. Mas que não queiram impô-la a todos. Porque há muitas pessoas de uma esquerda saudável, de uma postura mais respeitosa, liberal e tolerante do ponto de vista religioso, que são bons cristãos. Mas na Espanha se tem a impressão de que, como não te identificas com a direita para além da qual já está a parede, como dizia alguém outro dia, não podes identificar-te com Roma.

E isso inclusive fecha o “mercado religioso”, o potencial. Se a Igreja somos todos, sejamos todos, não?

Uma das esperanças que tenho é que se vejam cada dia mais angustiados economicamente. Porque a cruz vai colocar cada vez menos gente na casinha da declaração de renda, porque cada vez menos gente vai à Igreja e, portanto, as doações diminuem vertiginosamente. E se verão numa situação em que não lhes resta outro remédio – e é duro e desagradável dizê-lo – que rever muitas coisas.

Deveriam rever muitas coisas por esgotamento? O celibato dos padres, a ordenação de mulheres, que me parece...

...vidente. Começando porque Cristo não ordenou mulheres, mas tampouco homens. Cristo não ordenou ninguém. Outro dia, no blog de Rebelión Digital, coloquei uma entrada sobre isso: a ordem não é bíblica nem evangélica, é uma instituição política do Império. Havia três ordens: a dos cavaleiros, dos senadores e da plebe. E isso foi tomado pelo clero no século III. Dizer que Jesus ordenou os apóstolos sacerdotes é um despropósito teológico e histórico. Portanto, por que não vão poder ordenar mulheres para sacerdotes? O Concílio diz que o povo cristão tem direito a que seja atendido com a pregação da Palavra e a administração dos sacramentos pela Hierarquia. Hoje, mais da metade das paróquias do mundo não tem pároco, porque não há sacerdotes suficientes. Acima do direito da Igreja de impor sacerdotes célibes ou só homens, está o direito dos fiéis de serem atendidos. Porque a Comunidade está em primeiro lugar.

Outro assunto que o cardeal Rouco trouxe novamente à pauta são as aulas de religião. Diz que estão marginalizadas, que os acordos Igreja-Estado não estão sendo cumpridos, que não há alternativa... As aulas de religião nas escolas públicas devem continuar?

Do jeito que a questão está colocada, as aulas de religião (para isso é preciso ver os livros e manuais usados pelos colégios, censurados pela Conferência Episcopal), creio que também teria que haver aulas de religião para os muçulmanos, para os budistas, etc. Ou seja, se a Constituição diz que as crenças religiosas são livres e que o Estado não é confessional, não pode converter-se em um assunto tão importante como é o ensino. A Igreja quer obrigar o Estado a ensinar religião porque ela se sente incapaz de transmiti-la aos jovens. Então, são adoutrinados no colégio.

Que opinião tem sobre o Papa Ratzinger?

E primeiro lugar, não deveríamos nunca esquecer que a Igreja é uma instituição de mais de um bilhão de crentes. E, para governá-los todos, colocar um homem com essa idade, com um cargo vitalício que pode prolongar-se como nos últimos papados, como João Paulo II, que, devido à idade e à saúde, não podia mais governar, em uma instituição de poder centralizado, nenhuma outra instituição no mundo o faria. Nem o faz.

A igreja lança mão do Espírito Santo quando lhe convém. Caso contrário, oculta padres pederastas. O Espírito Santo também inspira isso? Vamos ser coerentes. Eu creio que o Papa Ratzinger foi um grande teólogo, mas que já não está, devido à idade e à saúde, em condições de ocupar o cargo que ocupa, dado o sistema organizativo que a Igreja tem, de um poder concentrado todo em um só homem.

Vês que a Igreja é capaz de mudar o sistema? Por exemplo, apresentar a renúncia, dar passagem a outros...

Não creio que o faça.

Não é nem o tempo nem a pessoa?

Não. Pode nos preparar uma bela surpresa no dia em que menos esperamos, mas não creio. A mudança na Igreja não virá de cima. A renovação também não virá pelos movimentos antieclesiásticos (como os Pobres de Lyon e todos aqueles grupos da Idade Média). Por aí, também não. A mudança na Igreja tem que vir em comunhão com a Igreja.

Reivindicando a partir de dentro?

Todos se tornando responsáveis por sua caminhada. Na paróquia e nas dioceses. Acontece que as pessoas foram educadas para ficarem caladas. Para que vão à missa no domingo e digam que o resto é “coisa de padres”.

E os movimentos mais reivindicativos dentro da Igreja são estigmatizados, taxados de “vermelhos”, marginalizados...

Sim, complica-se a vida deles. Não são ouvidos. Eu gostaria que os bispos em cada diocese recebessem cada movimento como recebem os kikos [referência a Kiko Argüello, fundador do Caminho Neocatecumenal]. Me parece bem que sejam recebidos com entusiasmo, porque são pessoas de muita generosidade religiosa e de muita entrega, que merecem todo o respeito. Mas os bispos não deveriam esquecer que também há muitas pessoas que, por motivos que nem eles mesmos se atrevem a confessar, estão aí, marginalizados. Não são nem ouvidos nem recebidos. Tenhamos magnanimidade de coração. Jesus comia com os pecadores, recebia pessoas mais marginalizadas e pior vistas, colocava um samaritano como modelo, acolhia um centurião romano, não fazia diferenças...

E deixava as 99 [ovelhas] para ir atrás da desgarrada.

Claro. Se perdia uma, ia em busca dela. E agora, a impressão que se tem é que quem está perdido é o bispo.

Mas, então, “largo me lo fiáis” [que prazo me dais]. Há esperança de uma mudança real próxima?

A curto prazo, não. Seria preciso convocar um novo Concílio, mas hoje, assim como é a política de nomeações de bispos de Bento XVI, e assim como foi a de João Paulo II, daria na mesma. Porque na maioria das dioceses colocaram homens orientados numa linha que um concílio não poderia mudar. Seria preciso pensá-la.

João XXIII o fez numa época tão difícil ou mais que a nossa.

É verdade, mas há uma diferença. Pio XII foi um Papa de uma mentalidade muito tradicional e conservadora, que tentou degolar os movimentos renovadores, por exemplo, a Nouvelle Teologie, dos anos 1940-50. E aqueles grandes teólogos, como Karl Rahner, foram condenados. Mas Pio XII, sendo tão conservador como era, não teve medo de nomear grandes personalidades como bispos e cardeais. E por isso o Concílio foi possível. Porque não deu tempo para João XXIII renovar o episcopado nem de mudá-lo. O Concílio veio na sequência. Entretanto, os dois últimos papas tiveram esse medo.

Preferem nomear bispos mais facilmente controláveis?

Preferem homens submissos.

E Jesus nunca foi um submisso.

Não! Também não foi um revolucionário alegremente, nem muito menos perigoso. Andava sempre com os últimos. Foi um homem de uma liberdade absoluta e surpreendente.

Eu lembro da passagem do Evangelho de Lucas em que conta que Pilatos havia degolado alguns galileus que estavam oferecendo um sacrifício no templo ou num lugar sagrado. Então, certa ocasião queriam colocar Jesus à prova, e Jesus nada disse. O que disse foi: “Se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo”.

Jesus interpelava à conversão de cada um. A conversão aos valores do Sermão da Montanha e de suas parábolas. Que os últimos são os primeiros, que os frágeis, as crianças, as mulheres, os pecadores, os excluídos e os indefesos são os que mais necessitam de cuidados.

Uma Igreja assim, teria hoje um poder e uma força incríveis. E o que me dá pena e às vezes coragem é que se agarram a poderes deste mundo.

José María, foi um prazer. Quem quiser aprofundar o seu pensamento teológico, pode comprar o seu ensaio de cristologia. E quem quiser, pode diariamente acessar o seu blog Teología sin censura, no sítio do Religión Digital.

17/12/09

Antônio Cechin e Jacques Alfonsin


Os nossos mártires da caminhada


Artigo de Antonio Cechin, irmão marista e militante dos movimentos sociais; e, Jacques Távora Alfonsin,  advogado do MST e procurador do Estado do Rio Grande do Sul aposentado.
Fonte: UNISINOS


A UNISINOS está celebrando, neste ano de 2009, o 20° aniversário do martírio de uma leva de militantes cristãos da Universidade Centro Americana (UCA). São os padres Jesuítas Ignácio Ellacuria, Segundo Montes, Ignácio Martín-Baró, Amando Lopez, Juan Ramón Moreno e Joaquín López y López, e a cozinheira da residência Elza Julia Ramos, juntamente com sua filha Celina, de 15 anos. A Comunidade inteira foi chacinada pelo governo salvadorenho de maneira brutal, no dia 16 de novembro de 1989. Fazia parte ainda dessa comunidade de Jesuítas o teólogo Jon Sobrino que, por se encontrar em viagem na Tailândia, sobreviveu ao massacre.

Quando iniciamos de maneira concreta a opção pelos pobres, propugnada no Brasil e depois em toda a América Latina por Dom Hélder Câmara, recuperamos a palavra Caminhada. Embora eminentemente bíblica, perdera-se na poeira dos tempos. O Homem Jesus de Nazaré se apresentara como o Caminho, a Verdade e a Vida. Na Igreja dos primórdios, descrita nos Atos dos Apóstolos, os cristãos, especialmente durante as perseguições implacáveis que lhes infligiam os imperadores romanos, se declaravam Seguidores do Caminho, em vez de “Seguidores de Jesus Cristo” a fim de não correrem riscos desnecessários de serem presos e condenados à morte.

Nada melhor que a palavra Caminhada para expressar o que é a inserção: ir para o meio dos pobres, nas periferias dos campos e das cidades e tomar como ponto de partida para qualquer trabalho, a situação bem concreta em que se encontram os excluídos, e junto com eles, desencadear um processo de mudança, passo a passo, rumo a uma fé adulta e a uma autêntica cidadania, criando assim Comunidades Eclesiais de Base. É o novo jeito de ser Igreja, outra expressão nova, inventada pelo Cardeal Aloísio Lorscheider, para designar a base da nova Igreja e ao mesmo tempo a base da nova sociedade com que sonhamos.

Dom Pedro Casaldáliga, devotíssimo de nossos mártires, erigiu em sua diocese, o santuário dos Mártires da Caminhada. na cidade de Ribeirão Bonito, no lugar exato em que sofreu o martírio outro jesuíta, o padre Burnier, De então a esta parte, todos os que sofrem o martírio pela justiça, são os mártires da CAMINHADA ou também mártires das Comunidades Eclesiais de Base, ou da Teologia da Libertação, ou mesmo dos Movimentos Populares.

O mesmo arcebispo Dom Hélder Câmara, por ocasião do Concílio Ecumênico Vaticano II, lutou bravamente para que a Igreja, como um todo, passasse a ser, mais do que Igreja dos pobres, uma Igreja pobre. Enquanto o Concílio encerrava suas atividades na Praça São Pedro no Vaticano, em solenidade transmitida pela mídia do mundo inteiro, Dom Hélder, acompanhado de várias dezenas de bispos, foi para debaixo da terra, nas catacumbas romanas. Com os Irmãos bispos que o acompanharam, celebrou o chamado Pacto das Catacumbas. Esse gesto tinha também o significado de uma reconciliação da Igreja de hoje com a Igreja das Catacumbas, que foi também a da CAMINHADA inicial, com seus milhares de mártires. Estava Dom Hélder profetizando também que o pós-concílio para nossa Igreja Latino-americana seria igualzinha àquela, com nova leva de mártires. Ontem eram os mártires por ódio explícito à fé cristã e hoje mártires pela justiça, em prol da libertação dos irmãos..

Em seus sermões e homilias, Dom Hélder costumava se referir ao martírio como “coisa fina, mas que é para poucos, pois Deus reserva esse privilégio só para pessoas muito especiais.” Dom Pedro Casaldáliga costuma dizer: “uma Comunidade que esquece seus mártires, não merece continuar existindo!” O Mestre Jesus mostrou que o ponto mais alto a que pode chegar um discípulo seu “é testemunhar o maior amor possível, dando a própria vida em favor dos outros”.

Em Roma, no começo da Igreja, quando tombasse algum cristão, vítima dos imperadores que se tinham na conta de deuses, os irmãos na fé imediatamente resgatavam o corpo do mártir, em geral à noite, o sepultavam com todas as honras nas catacumbas, invocando-o imediatamente como santo protetor. A fé lhes dizia que todo mártir era santo, sem necessidade de canonização oficial por parte da Igreja, convictos que estavam, de que Jesus ainda em vida, já canonizara todos os que o imitassem dando a própria vida em favor do próximo. Não tinham nenhum escrúpulo em transformar a pedra que cobria o tumulo em pedra de altar sobre a qual celebravam a missa. Até o Vaticano II, portanto durante 20 séculos, não se podia rezar missa sem ter a chamada pedra “ara” (de altar) dentro da qual tinha que haver uma relíquia de mártir.

O que é de todo estranho em nossa Igreja Católica de hoje, é que não tenhamos nenhum mártir da teologia da libertação reconhecido oficialmente como santo, pela cúpula da Igreja. O direito canônico continua dizendo que só há martírio, com direito a canonização imediata, quando a morte foi infligida por explícito ódio à fé. Ora, não raro, quem mata nossos irmãos mártires da caminhada, são governos, militares, ou pessoas que até fazem questão de se afirmar como cristãos. Nada estranho que isso aconteça, porque o próprio Senhor Jesus Cristo nos preveniu quando disse: “Haverá pessoas que vos hão de matar pensando fazer um bem.

Acontece que o martírio pela Justiça está exaltado em todas as páginas da Bíblia. Por isso, nosso bispo Casaldáliga, sem escrúpulo nenhum, costuma chamar o bispo Romero, mártir centro-americano, de San Romero de América. E como Roma se nega até hoje em canonizar os mártires da Caminhada, nosso bispo-profeta, na Agenda Latino-Americana com edição anual, no calendário de cada dia, não faz preceder a nenhum nome o designativo são ou santo.

Já que estamos falando em mártires da Caminhada, ou mártires da Libertação, ou mártires pela Justiça, nossa Igreja que está no Rio Grande do Sul, nesse ano quatrocentão do início das Missões Jesuíticas, está com uma dívida para com o povo guarani e para com os pobres do Rio Grande do Sul. A consciência popular, tanto dos índios quanto do povão, canonizou Sepé Tiaraju, logo que foi abatido pelas armas assassinas dos exércitos de Espanha e Portugal no ano de 1756. Assim como Santo Estevão foi o protomártir cristão, São Sepé é o nosso protomártir pela Justiça, lutando bravamente em prol de Justiça e Paz para seus irmãos guarani. Nossos movimentos populares que lutam por Terra, Saúde, Habitação, Educação, de há muito viram em São Sepé, o mártir por excelência a indicar o caminho das transformações sociais de que todos estamos necessitados. Ele é “nosso Facho de Luz” como bem significa a palavra Sepé.

Na falta de beatificação ou canonização oficial de nossos mártires da Caminhada, por parte do Vaticano, corretíssimo está nosso bispo-profeta Dom Pedro Casaldáliga quando, todos os anos nos fornece sua “Agenda Latino-Americana” aonde no calendário de todos os dias nos fornece o nome dos santos, tanto dos antigos quanto dos da Caminhada. Na frente de todos nenhum adjetivo. Nem são, nem santo, a fim de marcar absoluta igualdade em santidade. Por exemplo, no dia 15 de dezembro, lá está: Valeriano e em 1975, Daniel Bombara, membro da JUC, mártir dos universitários comprometidos com os pobres da Argentina. Hoje, dia 16 de dezembro: Adelaide e em 1984, Eloy Ferreira da Silva, líder sindical, São Francisco, Minas Gerais. Em 1991, indígenas mártires do Cauca, Colômbia.

14/12/09

Irmã beneditina quer imepdir vacina contra a gripe A


A irmã beneditina Teresa Forcades, doutora em medicina, começou um movimento civil na Internet para impedir que a vacina contra a gripe AH1N1 seja obrigatória e contra a gestão da doença. Em um vídeo que ela postou na rede, essa irmã faz um chamado à participação popular para que ninguém possa ser forçado a ser vacinado na Espanha e para que aqueles que sejam vacinados não percam seu direito a exigir responsabilidades se sofrerem efeitos colaterais. A reportagem é de Gaspar Hernández, publicada no sítio Religión Digital e no jornal catalão El Periódico, 08-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS


Teresa Forcades é autora de "Los crímenes de las grandes compañías farmacéuticas", um livro em que denuncia como o poder político e econômico que as grandes empresas farmacêuticas adquiriram serve-lhes para garantir enormes benefícios econômicos, mesmo às custas da saúde da população.

A freira e doutora explica que a vacina contra a gripe AH1N1 é obrigatória por causa da declaração de pandemia por parte da Organização Mundial da Saúde, já que, segundo lembra, desde 2005 a OMS pode dar ordens aos governos sobre vacinas em casos de pandemias.

Forcades explica em seu vídeo (clique aqui para assistir, em espanhol) que "a nova gripe"não é nova porque é do tipo A, nem por ser do subtipo H1N1. A única coisa que é nova é pertencer à cepa S-OIV. Ela lembra que a epidemia de gripe de 1918 foi do tipo AH1N1 e que, desde 1977, os vírus AH1N1 fazem parte da temporada de gripe de cada ano.

A religiosa destaca que, desde que essa enfermidade começou a ser detectada em abril de 2009 e até o dia 15 de setembro de 2009, morreram 137 pessoas na Europa e 3.559 em todo o mundo, quando, por sua vez, por causa da gripe estacional, falecem entre 40.000 e 220.000 pessoas.

Multiplicação de efeitos secundários

A doutora também alerta que a maioria dos laboratórios projetam vacinas em duas doses, que devem se somar à vacina da gripe estacional, algo que nunca se fez e que multiplica por três os possíveis efeitos secundários.

Ela também revela que os laboratórios que fazem vacinas usam coadjuvantes muito potentes para estimular o sistema imunitário, e que a vacina que o laboratório Glaxo-Smith-Kline está fabricando contém um, denominado AS03, que multiplica por dez a resposta imunitária, o que poderia provocar doenças autoimunitárias graves ao cabo de um tempo.

As empresas farmacêuticas, segundo essa freira, estão exigindo que os Estados firmem acordos ed imunidade para que, em caso de as vacinas terem mais efeitos secundários dos previstos, a indústria fique isenta de toda responsabilidade.

Eis a entrevista.

O que faz uma freira falando na Internet sobre os perigos da vacina da gripe A?

Nossa regra prescreve cinco horas de oração e seis de trabalho. Ora et labora. Eu dedico as horas de trabalhas em parte à pesquisa médica. Sou doutora em medicina e, em 2006, publiquei o estudo "Los crímenes de las grandes compañías farmacéuticas".

Quando decidiu que tinha que falar sobre a gripe A?

Em maio deste ano, me pediram uma conferência sobre a vacina do papiloma e fiquei muito impactada pela falta de base científica das recomendações oficiais. Ao final de alguns dias, falei com na TV-3 sobre essa vacina e, a partir daí, fui recebendo pedidos para que opinasse sobre a vacina da gripe A.

A Organização Mundial da Saúde não merece confiança?

Não entendo os motivos que levaram a OMS a atuar da maneira absurda que está agindo.

Absurda?

Sim. Em maio passado, a OMS mudou a definição oficial de pandemia: passou de uma definição lógica (uma pandemia é uma infecção de alcance global e de grande mortalidade) para uma definição ilógica (uma pandemia é uma infecção de alcance global).

Que consequências tem essa mudança?

Segundo a nova definição de pandemia, a gripe de cada ano cumpre com acréscimo os requisitos para ser pandemia. Vamos declarar o mundo em alerta sanitário a cada outono? Além de absurdo do ponto de vista científico, isso tem graves consequências financeiras e políticas.

A senhora não confia na vacina. Por quê?

Diferentemente da vacina da gripe de cada ano, a vacina da gripe A contém substâncias coadjuvantes tão potentes que podem chegar a multiplicar por dez a resposta imunitária normal. Além disso, ela é recomendada em duas doses, que devem ser recebidas após a injeção da gripe estacional, que também contém coadjuvantes, mesmo que de menor potência. Nunca antes se injetaram essas substâncias três vezes seguidas na população geral, começando por crianças, doentes crônicos e grávidas.

Que efeitos pode provocar?

A estimulação artificial do sistema imunitário pode provocar doenças autoimunitárias. O mesmo prospecto de duas das vacinas da gripe A que foram aprovadas na Europa (Pandemrix e Focetra) indica que se espera que, de cada milhão de pessoas vacinadas, 99 podem experimentar uma doença autoimunitária conhecida como paralisia ascendente de Guillain-Barré.

Se isso acontecer, as indústrias farmacêuticas irão receber denúncias...

Mas nos Estados Unidos já foi aprovado um decreto que exime os políticos e as indústrias farmacêuticas de toda responsabilidade.

A senhora sugere que as indústrias farmacêuticas trabalharam irresponsavelmente?

O que fizeram foi trabalhar a favor de seus interesses.

Pode-se obrigar alguém a se vacinar?

No ano 2007, a OMS aprovou uma normativa que estabelece uma exceção. Em todos os casos, exceto um, a OMS emite recomendações e só em um caso ela pode dar ordens que invalidem a soberania dos países membros.

Esse caso é o da pandemia.

Exato. Em caso de pandemia, a OMS pode obrigar por lei que os países membros vacinem uma parte de sua população ou toda ela. Os governos desses países estariam obrigados, então, a impôr multas ou outras sanções aos cidadãos que se neguem a se vacinar.

A senhora acredita em conspirações mundiais?

Acredito que há interesses em jogo que não são o bem da população. Como justificar o dinheiro investido na aquisição de vacinas, se a gripe A é mais benigna do que a gripe de cada ano? Gastar tanto dinheiro em vacinas e em medidas profiláticas sem a base científica suficiente é um escândalo, e devem ser pedidas responsabilidades.

O que as suas coirmãs dizem sobre o vídeo e suas afirmações?

Uma irmã de quase 90 anos me objetou que o tema da gripe A era muito sério e que eu não podia falar contra a vacina sem ter argumentos muito bem fundamentados.

E?

Após ler meu informe, ela se aproximou de mim na saída da oração de Vésperas e simplesmente me disse: "Compreendido".

A senhora não tem medo?

Às vezes.

Reza muito?

Tanto quanto posso.

03/12/09

Antonio Cechin e Jacques Távora Alfonsin


Entre o Menino Jesus e o Papai Noel

"Em que lugar, hoje, Maria e José obteriam acolhida para o parto iminente do filho esperado? Se estivesse nascendo agora, com qual criança mais se assemelharia o Menino Jesus? Às vésperas do seu aniversário, parece de todo oportuno procurar-se responder tais perguntas, já que o natal é a celebração de um nascimento que mudou a história da humanidade toda", escrevem Antônio Cechin e Jacques Távora Alfonsin, lembrando o Natal que se aproxima. Cechin é irmão marista, miltante dos movimentos sociais. Távora Alfonsin é advogado do MST e procurador do Estado do Rio Grande do Sul aposentado.
Fonte: UNISINOS


Em que lugar, hoje, Maria e José obteriam acolhida para o parto iminente do filho esperado? Se estivesse nascendo agora, com qual criança mais se assemelharia o Menino Jesus? Às vésperas do seu aniversário, parece de todo oportuno procurar-se responder tais perguntas, já que o natal é a celebração de um nascimento que mudou a história da humanidade toda.

Pela sua conhecida pobreza, a mãe o pai procurariam, quem sabe, a emergência de algum hospital que atenda pelo SUS. Ansiosos, são recebidos no balcão de informações, em meio a um grupo grande de gente doente e triste, cabeça baixa, esperando chamada, com uma senha na mão.

Começa, mais de dois mil anos depois, a histórica desculpa: “Não. Lamentamos. Vocês terão de procurar outro hospital. Vejam que até os nossos corredores estão lotados. Não temos um leito sequer, disponível, nem médicos e enfermeiras suficientes para tanta gente.”

Sem o dinheiro que, como se sabe, dificilmente deixa de abrir qualquer porta, batem na sacristia de uma Igreja. “Não. Aqui não se pode hospedar ninguém. A gente batiza, reza missa todos os domingos, faz a catequese da primeira eucaristia, celebra casamentos, exéquias de pessoas falecidas. Uma vez por mês reunimos a comunidade num almoço. É verdade que temos hospitais, também, mas eles são obrigados a cobrar internações porque os subsídios públicos nunca chegam em dia e os atrasos estão levando todos eles à falência.”

A preocupação e a angústia crescendo, José meio desesperado, Maria sentindo as primeiras contrações, resolvem tomar o rumo da periferia urbana para, quem sabe, em algum galpão abandonado, a mulher consiga parir, quando menos, abrigada.

Lua que se acende e apaga no andar das nuvens, por ela conseguem entrever algumas luzes, ouvir algumas vozes numa corrente de barracas de lona preta estendida na beira da estrada. Denunciados pelo latido dos cachorros, chegam muito envergonhados numa delas. Um casal tão pobre como os recém chegados, levanta o candeeiro para identificá-los e pede para eles entrarem imediatamente, pois já adivinhou que a urgência não admite outro gesto.

Maria, já sem tempo, consegue se deitar num acolchoado velho que, no chão da barraca, serve de cama para o casal. Três crianças, duas meninas e um menino, dormem profundamente, recolhidas num canto mais abrigado. Os visitantes mal conseguem se apresentar. “Eu sou Laurindo. Prazer.” “Eu sou Joana, prazer”. Juntamente com José, passam a se movimentar ligeiro, como se tivessem ensaiado, pois a coisa toda não pode acabar mal. Os homens reavivam brasas que já estavam agonizando num fogo de chão, achegam gravetos que sobraram do uso anterior que cozinhou só feijão, por sinal queimado, pelo cheiro que ainda se sente. A fumaça toma conta do ambiente e faz arder os olhos de quem espera, agora, numa ansiedade do tipo que afoga. A mulher conseguiu ferver água e escaldar uma faca de cozinha, à vista de Maria, mal coberta por um lençol surpreendentemente limpo que uma vizinha, avisada do caso, lhe alcançou.

O homenzinho se livrou do ventre materno, separado pela faca de Dona Joana, a um choro alto e forte, de quem sorve o primeiro ar e reclama a primeira mamada.

Uma alegria aliviada se desata. Serena, se apossa de todos. Os ocupantes das outras barracas, tudo gente sem-terra e sem-teto, que também ainda não encontrou lugar para ficar, como o pai e a mãe do recém nascido, acorrem pressurosos em ajudar. Laurindo e Joana honrados, Maria e José confortados, há um que de solidariedade amorosa, feita de palavras e gestos, todo o mundo querendo repartir o pouco que tem com o casal de viajantes que festeja a chegada do primeiro filho.

No outro lado da cidade, muito longe dali, um foguetório faz-se ouvir, a noite se enche de sons, risos, as ruas, as árvores e os edifícios cobertos por milhares de pequenas lâmpadas coloridas, piscando, são cercados por gente que troca presentes, se abraça, anda atrás de um papai noel arquejante, vermelho na roupa e no rosto, o cabelo e a barba branca artificiais mal dependurados num gorro já meio caído, pelo peso de um saco que ele balança nas costas, cansado de representar, apenas, um papel.

Comparadas essas pessoas, comparados esses lugares, será aqui, ou lá, que o Menino Jesus nasceria hoje? Entre a pobreza e a escassez de lá, ou a fartura e até o desperdício daqui? Por tudo o que a criança viveu e ensinou depois, soube-se que ela acabou sendo perseguida, tanto pelo poder político, como pelo econômico e, até, o religioso. Acabou morrendo numa cruz, resultado de um julgamento no qual nem o direito de defesa lhe foi garantido.

A semelhança do seu nascimento e da sua vida com o nascimento numa barraca e a luta que empreendeu depois em favor das/os pobres, não nos deixa duvidar de que, hoje como ontem, são milhares as crianças que nascem nas condições miseráveis nas quais nasceu o Menino Jesus, e são muitas/os as/os adultas/os sem-terra e sem-teto que morrem por defender a mesma Justiça que Ele defendeu.

Entre a devoção que se presta ao Papai Noel e ao Menino Jesus, então, há uma distância que beira ao escárnio. Substituir esse por aquele, no natal, é como dar-se preferência às coisas, às mercadorias, aos símbolos do consumo, do que às pessoas, aquelas que conosco vivem, especialmente as que, como a Tal Criança, é necessitada e pobre.

Há um tal poder de repressão a esse povo pobre, do qual Ela fazia parte, que até as farmácias caseiras e as escolas itinerantes que, por força de sua própria condição humana, ele é forçado a criar, em defesa de sua dignidade, são destruídas pela perseguição que contra ele movem forças públicas e privadas. Não raro, como aconteceu recentemente aqui no Rio Grande do Sul, algum/a dos/das seus/suas integrantes derrama o seu sangue sobre a terra que lhe é negada, como negada foi a hospedagem “normal” para José e Maria.

Como Jesus Cristo, esse também é um povo crucificado. Em vez de andar atrás de um velho ridículo, então, o natal nos convida mesmo é a descer esse povo da cruz, incorporar o seu sofrimento, servindo-o ao ponto de enxugar-lhe os pés, assim seguindo o exemplo de Quem nasceu, viveu, amou e morreu por ele.

20/11/09

"Construindo pontes de justiça e equidade"


Sob o lema “Construindo pontes de justiça e equidade” o Seminário Evangélico de Teologia, de Matanzas, Cuba, abrigou encontro nacional de reflexão bíblico-sócio-teológico e pastoral a respeito de temas pontuais como a perspectiva de gênero, a problemática da mulher, a masculinidade. A reportagem é de José Aurelio Paz e publicada pela Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação - ALC, 19-11-2009.
Fonte: UNISINOS
Foto: Ivonte Gebara


O evento, encerrado na quinta-feira, 12, integrou a Década de Luta contra a Violência, instituída pelo programa de Mulher e Gênero do Conselho de Igrejas de Cuba (CIC).

Propostas e desafios atuais da teologia feminista na América Latina e Cuba” foi o tema que reuniu as teólogas Ivone Gebara, do Brasil, Rebeca Montemayor, do México, a doutora Ofélia Ortega, de Cuba, e a pastora Miriam Laranjeira, da Igreja Presbiteriana Reformada de Cuba.

Ivone Gebara destacou que é importante trabalhar o tema voltado às massas, também para analisar as novas identidades femininas, “já que construímos a identidade desde o patriarcado, mas ao mesmo tempo construímos outras, para as quais temos que achar um significado”.

Em entrevista para a ALC, Gebara disse que “vivemos um momento crítico de dogmatismo e autoritarismo nas instituições religiosas”.

A teologia feminista no continente, disse, não se considera que ande muito bem, sobretudo dentro das igrejas onde quase não a suportam “porque significa aceitar uma crítica ao poder hierárquico que se concentra em mãos de uma elite masculina”, assim como os conteúdos, que “também estão no poder hierárquico”, afirmou.

É insuportável ouvir que a teologia é obra criativa somente dos homens, declarou. “Se a teologia é uma maneira de pensar os valores que constroem a vida, por aí vai a teologia feminista”, agregou.

A maior parte da produção teológica cubana sobre gênero não está nos livros, mas em artigos de revistas ou em teses do Seminário Evangélico de Matanzas, arrolou Ofélia Ortega.

O encontro também se dedicou a projetar as perspectivas teológicas e pastorais do futuro, de prática e raiz ecumênica, que leve em conta a problemática feminina, as masculinidades e as relações de gênero.

Pe. John W. O'Malley


Um novo horizonte católico

Publicamos a seguir a resenha crítica do novo livro do vaticanista norte-americano John L. Allen Jr., "The Future Church: How Ten Trends Are Revolutionizing the Catholic Church" [A Igreja do futuro: Como dez tendências estão revolucionando a Igreja católica] (Ed. Doubleday). O artigo foi escrito por John W. O'Malley, padre jesuíta, historiador da Igreja e professor de teologia da Georgetown University, de Washington, nos EUA. O'Malley é autor de"What Happened at Vatican II" [O que aconteceu no Vaticano II] (Ed. Harvard) e "A History of the Popes" [Uma história dos Papas] (Ed. Sheed and Ward). O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 10-11-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS


Perceptivo, imparcial, provoca o pensamento, expande horizontes, incrivelmente bem informado – palavras como essas pulam em minha cabeça enquanto leio o novo livro de John L. Allen Jr., "The Future Church: How Ten Trends Are Revolutionizing the Catholic Church". Eu pensei em ter detectado em sua introdução uma nota de desculpas por escrever como "um jornalista, não um padre, um teólogo ou um acadêmico". Suas credenciais, como os leitores do NCR sabem, são muito boas. Se você tem dúvidas, o livro irá dissipá-las.

O título é provocativo por prometer mais do que qualquer um pode oferecer. Allen tem muito senso para tentar oferecer isso. Ele não fornece nenhum plano para o futuro, nenhum projeto de Igreja. Ele faz exatamente o oposto.

Suas análises das tendências deixam duas coisas claras. Primeiro, estamos à beira de mudanças que, tomadas em conjunto, irão remodelar radicalmente a Igreja. "Revolucionar" é a palavra de Allen. Segundo, as tendências irão seguir seu próprio curso, interagindo entre si e com a cultura em geral, de forma que é impossível dizer quais poderão ser os resultados finais da revolução. Um revolução radical até que ponto? Essa é a dúvida de qualquer um, suponho. As tendências apresentam desafios cuja novidade e magnitude fazem o coração falhar uma batida. Elas, em sua importância cumulativa – falo como historiador – pressagiam mudanças nos padrões católicos sem paralelo no passado. Allen traça essas tendências imparcialmente e, como ele diz, descritivamente, não prescritivamente. Com isso, ele se refere ao fato de não apresentar as tendências nem como boas, nem como más para a Igreja. Ele as apresenta simplesmente como a forma pela qual as coisas estão se movendo.

As tendências, claro, não estão desrelacionadas entre si. "Igreja mundial", não surpreendentemente a primeira tendência com a qual Allen lida, está intimamente relacionada com "A nova demografia", com "Multipolaridade" e com "Globalização".

Até a metade do século, Nigéria, Uganda e a República Democrática do Congo estarão entre os 10 países mais católicos do mundo, tirando a Polônia e a Espanha da lista. Mas essa recente Igreja mundial, um resultado, em parte das mudanças demográficas, é afetada pela globalização. Ela eleva à proeminência valores e prioridades culturais diferentes daqueles do mundo do Atlântico Norte que ainda demarcam as nossas sensibilidades católicas, o que causa a questão multipolar. Uma tendência ameniza ou intensifica a outra, assim como a globalização faz com a afirmação dos valores e prioridades indígenas.

"Catolicismo evangélico" e "Pentecostalismo" também estão intimamente relacionados e, de certa forma, se relacionam com "Islã". Essas três tendências juntas fazem com que o futuro pareça mais conservador em questões sexuais e de gênero. Mas então existe a "Revolução biotécnica", que, junto a outros desenvolvimentos no mundo científico como o "Universo em expansão", desafia os princípios fundamentais da doutrina católica da forma como a conhecemos. Além da clonagem humana, da pesquisa com células-tronco embrionárias e outros assuntos relacionados que geralmente ouvimos falar, a revolução biotécnica cava fundo nos fundamentos da própria religião quando aquela pensa que descobriu um gene de Deus. Em comparação, a tendência "Ecologia" pode parecer inofensiva, mas, como Allen demonstra, ela também derruba padrões estabelecidos de pensamento, de comportamento e teológicos.

Os leitores podem se surpreender ao encontrar "Papéis dos leigos em expansão" entre as tendências, o que levanta a questão de como uma tendência chega às 10 principais. Allen desenvolveu seis critérios: uma tendência deve ser global, deve ter impacto nas bases, deve envolver lideranças oficiais, deve ter potencial para explicar uma ampla variedade de fatores, deve conter poder preditivo e não deve ser movida ideologicamente. Esses critérios permitiram que Allen eliminasse alguns suspeitos habituais, como a crise dos abusos sexuais, João Paulo II e as mulheres. O capítulo sobre "Tendências que não estão", embora curto, irá envolvê-lo tanto quanto os outros.

Para as tendências que estão, Allen divide cada um dos 10 capítulos em duas seções. A primeira, "O que está acontecendo", faz o que promete. Apresenta e analisa informação. Essas seções são, para mim, o que há de mais satisfatório e impressionante no livro. Allen fez a sua lição de casa. Ele estimula o leitor em um curso intensivo sobre o que está acontecendo não apenas na Igreja, mas também na economia, na diplomacia, na política mundial e em temas semelhantes. Eu não sei como os especialistas irão julgar as análises de Allen nesses campos. Tudo o que eu posso dizer é que aprendi muito e acho que você também irá aprender.

A segunda seção, "O que isso significa", especula sobre as consequências das tendências em ordem decrescente de certeza – de quase certo, provável, possível, a poucas chances. O modo subjuntivo domina essa seção. "Poderia" e "deveria" aparecem frequentemente, junto com seus companheiros de viagem "talvez" e "possivelmente". As tendências demográficas podem parecer sólidas, mas elas se reverteram no passado. Uma pandemia ou duas poderiam fazer o mesmo no futuro.

A dieta subjuntiva pode se tornar cansativa. Mas ela deixa claro que forças estão em jogo lá fora, de uma forma totalmente imprevisível. Elas são forças verdadeiramente grandes, com uma mudança errática em seu núcleo. Curingas e cartas surpresa abundam nesse jogo. Talvez essas tendências não irão, no fim, gerar o equivalente eclesial ao Big Bang, mas certamente devem chegar perto.

O livro validou o que eu acredito ser o significado mais duradouro do Concílio Vaticano II (1962-65). Em seu maior objetivo, o Concílio tentou fazer com que a Igreja enfrentasse o mundo da forma como ele é e então lidar com ele da forma como é. Ele tentou desfazer a nostalgia das "idades da fé" medievais, da ordem do mundo perfeito que prevaleceu antes da Revolução Francesa e de outras ilusões históricas.

A Igreja decidiu encarar os fatos do "mundo moderno", incluindo o pluralismo cultural e religioso e todos os enigmas que a ciência moderna nos impôs com relação a nossas origens, nossa sobrevivência e nosso bem-estar.

Enfrentar os fatos é exatamente o que Allen está pedindo que a Igreja faça – que nós façamos.

O livro também confirma uma verdade básica sobre a trajetória histórica da Igreja: o que acontece fora da Igreja é mais importante para ela do que aquilo que acontece dentro. As reformas da Igreja como a Controvérsia da Investidura do século XI, o Concílio de Trento no século XVI e o Vaticano II no século XX foram mudanças introduzidas na vida e na prática da Igreja pelos líderes da Igreja e operacionalizadas por eles. Essas mudanças, embora importantes, podem parecer quase insignificantes em comparação com o impacto de coisas como o reconhecimento da Igreja por Constantino no século IV ou algo tão mundano no século XIX como a invenção do telefone.

"The Future Church" não é uma leitura casual para a hora de dormir. Sua mensagem requer uma mente alerta, disposta a digerir informações e a compreender complexidades. Allen acredita, e eu também, que o impacto dessas tendências, independentemente de como elas irão ocorrer concretamente, requer um novo tipo de coragem de nossa parte. Ele requer coragem "para pensar além dos interesses de nossa própria tribo católica", a coragem de se levantar para um novo horizonte, que também é católico. Ler o livro é, em si mesmo, um primeiro passo.

John L. Allen Jr.


A dimensão horizontal da Igreja

Publicamos a seguir um trecho do livro do vaticanista norte-americano John L. Allen Jr. (foto), intitulado "The Future Church: How Ten Trends Are Revolutionizing the Catholic Church" [A Igreja do futuro: Como dez tendências estão revolucionando a Igreja católica] (Ed. Doubleday Religion, 2009). O texto foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 10-11-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS



O jesuíta e sociólogo norte-americano Pe. John Coleman observou que, apesar de seus ricos recursos intelectuais e humanos, o Catolicismo desempenhou um curioso papel "subalterno" em grande parte dos debates contemporâneos sobre globalização, com a única exceção talvez no Jubileu do ano 2000, com a campanha pelo cancelamento da dívida. Na tentativa de dar conta desse desajuste entre o potencial da Igreja e seu impacto real, Coleman cita um estudo sobre ONGs de 1998, intitulado "Activists Beyond Borders" [Ativistas além das fronteiras], de Margaret Keck e Kathryn Sikkink, que defende que hoje os atores mundiais de sucesso geralmente são redes políticas frouxamente organizadas e sem múltiplas camadas de comando. Talvez, sugere Coleman, o modelo de organização hierárquico do Catolicismo não possui a flexibilidade necessária para se manter no intenso ritmo em que as coisas mudam em um mundo globalizado.

Para ser franco, o Catolicismo tem sim uma ampla variedade de atores horizontais de sucesso, na forma de ordens religiosas, movimentos leigos e uma ampla variedade de coalizões de base. Quando esses sujeitos somam forças, eles podem produzir resultados surpreendentes. Um exemplo disso surgiu nos debates nos Estados Unidos sobre o destino de Terri Schiavo, a mulher da Flórida em um estado vegetativo persistente que morreu em 2005 depois que seu suporte vital foi removido. Grande parte da energia católica em favor de manter Schiavo viva veio não das lideranças oficiais da Igreja, mas sim de uma ampla variedade de grupos pró-vida e movimentos formados largamente pela Internet para esse fim. Independentemente do posicionamento que se possa ter sobre essa instância, o fato ilustra a capacidade de um Catolicismo horizontal energizado mobilizar opiniões e obter resultados. Nesse caso, o movimento não evitou a morte de Schiavo, mas gerou um exame de consciência nacional em torno de questões sobre o fim da vida, que ainda é um trabalho em andamento.

Porém, Coleman indica que essa dimensão horizontal do ativismo católico continua subdesenvolvida, pelo menos em comparação com as estruturas verticais da Igreja. Remediar esse déficit não é primeiramente uma tarefa para a hierarquia. De fato, em muitos casos, sua contribuição mais valiosa pode ser ficar fora do caminho. A construção de um setor horizontal mais convincente e articulado na Igreja sobre questões esboçadas acima depende de uma parcela crescente de católicos leigos, especialmente da ampla maioria que não pertence a nenhum movimento ou grupo formais, que assumam sobre si a tradução de sua fé em ação. O autêntico Catolicismo horizontal não pode vir à existência por meio de um "fiat" hierárquico. Ele deve brotar das bases, refletindo uma determinação popular para que algo seja feito.

Esperar que o Vaticano ou os bispos ajam, ou culpá-los por fazer da forma errada, não é suficiente. É o cúmulo do clericalismo acreditar que tudo na Igreja depende de seu clero, ou que nada de útil pode ser feito até que Roma vire uma nova página. Essa posição lê erroneamente tanto a teoria quanto a prática de como a mudança funciona na Igreja. Quando todo o resto é removido, a responsabilidade principal da hierarquia é assegurar que, quando Cristo voltar, a fé ainda possa ser encontrada sobre a Terra. Por definição, de muitas maneiras, esse é um papel conservador, cauteloso, defensivo. Esperar também que a hierarquia seja o "agente de mudança" primordial no Catolicismo, a fonte principal de sua visão e de sua nova energia, é tanto injusto quando irreal. Emprestando-me de uma metáfora esportiva, é como esperar que a defesa marque todos os pontos. Quando um bispo se apresenta como um visionário, deveríamos receber isso como uma graça, mas esperar que isso seja o curso normal dos fatos é uma prescrição de azia.

Na realidade, a mudança no Catolicismo infiltra-se tipicamente pelas bases e então é sujeita a um longo período de discernimento teológico e espiritual em múltiplos níveis, bem antes de ser ratificada e assimilada pela hierarquia. A Igreja gerou ordens medicantes nos séculos XII e XIII, por exemplo, não por causa de um decreto papal que assim determinou, mas porque indivíduos criativos como São Domingos e São Francisco viram uma necessidade emergente e responderam a ela. Da mesma forma, a grande explosão de novos ensinamentos e ordens missionárias no século XIX foi o trabalho de católicas e católicos visionários que aproveitaram a iniciativa, geralmente lutando pelas suas vidas com superiores e bispos recalcitrantes, preocupados sobre aonde as coisas iriam parar.

A realidade simples é que, se o Catolicismo deve gerar a imaginação requerida para enfrentar os desafios das tendências que pesquisamos, essa não é principalmente uma tarefa para a hierarquia. Ela deve ser desenvolvida em comunhão com as lideranças da Igreja, claro, mas não pode depender delas. Pensar de outra forma é sucumbir a uma espécie de "eclesiologia lilás", na qual a Igreja é reduzida aos seus bispos. Sim, os bispos às vezes podem abusar de sua autoridade e podem reprimir artificialmente energias criativas. Sua precaução natural às vezes se traduz em rigidez ou fechamento. Em última instância, porém, o tempo e as marés não podem ser parados, e as boas ideias irão perdurar independentemente de qual seja a sua recepção inicial pelos poderes.

A questão real, entretanto, não é se os bispos estão à altura dos desafios do século XXI. A questão é se o resto de nós está.

15/11/09

'Dom Romero e tu': Carta de Jon Sobrino a Ignacio Ellacuría


Publicamos aqui a carta póstuma do jesuíta e teólogo espanhol Jon Sobrino a Ignacio Ellacuría, um dos seis jesuítas assassinados em El Salvador, há 20 anos. Na verdade, segundo ele, esta é uma homenagem principalmente a Julia Elba e Celina, a funcionária da residência dos jesuítas e sua filha de 15 anos, que também foram assassinadas naquele 27 de outubro de 1979, na UCA, Universidad Centroamericana José Simeón Cañas. "Elas são o símbolo de centenas de milhões de homens e mulheres que morreram e morrem inocente e indefesamente aqui, no Congo, na Palestina, no Afeganistão, sem que ninguém faça muito caso delas", afirma. A carta foi publicada no sítio Religión Digital, 27-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto Fonte: UNISINOS


Dom Romero e tu

Querido "Ellacu": Este ano é o 20º aniversário do seu martírio e logo chegará o 30º de Dom Romero. Cabe-nos falar de vocês com frequência, com responsabilidade especial e também com algum escrúpulo. Vocês, os jesuítas, são mártires bem conhecidos, mas Julia Elba e Celina, nem tanto. Porém, elas são o símbolo de centenas de milhões de homens e mulheres que morreram e morrem inocente e indefesamente aqui, no Congo, na Palestina, no Afeganistão, sem que ninguém faça muito caso delas.

Praticamente, elas não existem, nem em vida, nem em morte, para as sociedades da abundância. E a instituição Igreja também não sabe o que fazer com tantas pessoas que morreram assassinadas. Se é difícil que canonizem um mártir da justiça como Dom Romero, muito mais difícil é que canonizem esses homens e mulheres que viveram e morreram em pobreza e opressão. E, no entanto, muitas vezes te ouvi dizer que eles são "os preferidos de Deus".

Deveria escrever-te, pois, sobre Julia Elba e Celina, mas conheço pouco delas. De Julia Elba, sei que passou trabalhando toda a sua vida nas podas, na cozinha. E tudo isso desde que tinha 10 anos. Não sei muito mais sobre ela. Sim, me perguntei "quem é mais mártir, Ellacuría ou Julia Elba", e seria terrível que os mártires jesuítas fizessem esquecer dessas duas mulheres que morreram assassinadas a 50 metros do jardim de rosas. Nesses dias, escrevi que "Ellacuría não viveu nem morreu para que o esplendor de sua figura opacasse o rosto de Julia Elba". Ellacu, este é o escrúpulo.

Mas Julia Elba e muitas mulheres salvadorenhas como elas me perdoarão, talvez até se alegrarão, pelo fato de que nesta carta eu te fale sobre o nosso Monsenhor, pois elas não têm ciúmes de uma pessoa muito querida. E eu a intitulei: "Dom Romero e tu". Minha intenção é ajudar as novas gerações, àqueles que não sobra orientação cristã e salvadorenha. Que saibam que uma vez houve um país e uma Igreja extraordinária: a de Dom Romero. E tu és um mistagogo de luxo para introduzir-nos em sua pessoa. Por isso, vou recordar como vocês dois se relacionaram.

As pessoas sabem que os dois foram eloquentes profetas e mártires. Mas gosto de lembrar outra semelhança importante sobre como começaram. Os dois receberam uma tocha cristã e salvadorenha e, sem discernimento algum, fizeram a opção fundamental de mantê-la ardendo. Monsenhor recebeu-a de Rutilio Grande na noite em que o mataram. E, morto Monsenhor, tu a retomaste. É verdade que tu já tinhas começado antes, mas após seu assassinato tua voz ficou mais poderosa e começou a soar mais como a do Monsenhor. Ouvi uma senhora dizer na UCA: "Desde que mataram o Monsenhor, ninguém aqui no país falou como o Pe. Ellacuría".

O que me interessa recordar e reforçar é que, em El Salvador, existiu uma tradição magnífica: a entrega e o amor aos pobres, o enfrentamento aos opressores, a firmeza no conflito, a esperança e a utopia que passavam de mão em mão. E, nessa tradição, resplandecia o Jesus do evangelho e o mistério de seu Deus. Não podemos dilapidar essa herança e devemos fazer com que ela chegue aos jovens.

O início de tua relação com Dom Romero não foi positiva. No começo dos anos 70, tu já eras conhecido como um perigoso jesuíta de esquerda por tua defesa da reforma agrária, o apoio à greve dos professores da Andes [Associação Nacional de Educadores Salvadorenhos] e a análise da fraude eleitoral de 1972. Mas com o teu livro "Teologia Política", de 1973, começaste a tocar temas mais explicitamente cristãos: salvação e história, o messianismo de Jesus, a missão da Igreja, violência e política... E mesmo que no país não se falasse ainda de teologia da libertação – e de como seus defensores eram perigosos –, os bispos se assustaram com o Ellacuría teólogo que emergia com força. E coube a Dom Romero escrever uma crítica de sete páginas sobre o teu livro. Fez isso em tom sério e educado, diferentemente da crítica que chegou de um teólogo de uma cúria romana, chamado Garofallo. O primeiro encontro entre vocês foi um choque.

As coisas seguiram seu curso. Tu, com ciência e profecia, e às vezes com humor e ironia. Em uma pequena revista da UCA, escreveste um breve artigo com este título: "Um bispo disfarçado de militar e um núncio disfarçado de diplomata" – os da minha geração saberão a quais hierarcas tu te referias. Não era o teu estilo, mas sim a tua convicção.

Assim chegou 1976. Dom Luis Chávez y González, benemérito e bom amigo, depois de 38 anos, deixava a responsabilidade da arquidiocese. Na ECA [revista da UCA], reunimo-nos para escrever um editorial sobre um assunto tão importante: "Quem será o novo arcebispo". Apoiamos Dom Rivera e nos distanciamos criticamente daquele que parecia ser um possível candidato: o bispo Oscar Arnulfo Romero. A eleição, certamente, deu errado para o Vaticano, e mais tarde tu escreverias que "Dom Romero não foi eleito para que fosse o que foi; foi eleito quase para o contrário".

Chegaram a conversão do Monsenhor e uma profunda mudança em tua relação com ele. Quando, em março de 1977, mataram Rutilio, tu estavas na Espanha e, de Madri, no dia 09 de abril, lhe escreveste uma carta, que chegou em minhas mãos, por casualidade, muitos anos depois. Publicamo-la em "Carta a las Iglesias", março de 2006.

"Tenho que vos expressar, em minha modesta condição de cristão e sacerdote de vossa arquidiocese, que me sinto orgulhoso de vossa atuação como pastor. Deste longínquo exílio, quero mostrar-vos minha admiração e respeito, porque vi, na ação de Vossa Eminência, o dedo de Deus. Não posso negar que vosso comportamento superou todas as minhas expectativas, e isso me produziu uma profunda alegria, que quero comunicar-vos neste sábado de gloria".

Ellacu, essa carta é um dos teus textos mais bonitos. Falas com Monsenhor com total verdade e te mostras em facetas desconhecidas para quem só te conheceu como professor e reitor. Depois do assassinato de Rutilio, lhe agradeces por "vossa valentia e prudência evangélicas diante de claras covardias e prudências mundanas", pelo acerto ao "ouvir todos, mas decidindo o que parecia ser mais arriscado a olhos prudentes". Referias-te à missa única, à supressão das atividades nos colégios católicos, a promessa do Monsenhor de não participar de nenhum ato oficial... Felicitas-lhe: "O senhor fez Igreja e fez unidade na Igreja". A maioria do clero, religiosos e religiosas se aglutinaram ao redor do Monsenhor. E tu voltas a lhe desejar no final: "Se conseguirdes manter a unidade de vosso presbitério mediante vossa máxima fidelidade ao evangelho de Jesus, tudo será possível".

Na carta, aparece a dialética evangélica e inaciana, recorrente em ti: "conseguistes não pelos caminhos da bajulação ou da dissimulação, mas sim pelo caminho do evangelho: sendo fiel a ele e sendo valente com ele". "Não poderíeis ter começado melhor a fazer Igreja". Eu também escrevi que, mesmo que tudo parecia ter começado muito mal para Monsenhor, tudo começava muito bem. E assinaste: "Este membro da arquidiocese, que agora se vê afastado contra a sua vontade".

Quando voltaste em 1978, te colocaste, com entrega e devoção, ao serviço do Monsenhor. Escreveste para a YSAX, a rádio do arcebispado, uma longa série de comentários à sua terceira carta pastoral, "A Igreja e as organizações políticas populares". Ajudaste-lhe a redigir a parte central sobre as idolatrias na quarta carta pastoral, "A Igreja na atual situação do país". Em suas últimas semanas, estiveste com ele na coletiva de imprensa depois da homilia dominical, e ele te dava a palavra quando lhe perguntavam sobre a situação política. Com ele estiveste na véspera de seu assassinato, depois daquela homilia irrepetível: "Em nome de Deus e em nome deste sofrido povo, cujos lamentos sobem até o céu, peço-lhes, rogo-lhes, ordeno-lhes, em nome de Deus: cesse a repressão!". E, no funeral, carregaste o caixão. Vemos-te com Walter Guerra, Jesús Delgado e Juan Spain.

O que fizeste pelo Monsenhor não foi simplesmente mais um de teus muitos serviços ao país. Também não o consideraste um serviço estratégico, dada a imensa influência de Monsenhor. Dom Romero chegou a ser para ti alguém muito especial, diferente de como havia sido Rahner ou Zubiri. Ele se meteu dentro de ti e tocou tuas fibras mais profundas. Eu tive essa sensação desde o começo. E ficou gravada para sempre em tua homilia na missa de funeral que tivemos na UCA. Nela, disseste: "Com Dom Romero, Deus passou por El Salvador".

Muitas vezes citei essas palavras, Ellacu. São muito tuas, pela precisão da linguagem e pelo peso do conceito. Conhecendo-te, estavas dizendo a verdade. E uma verdade teologal: neste El Salvador, massacrado e esperançado, teimoso e valente, cruel e generoso, sentiu-se a passagem do mistério. A passagem de Deus. Por isso, Dom Romero se converteu para ti em referência de Deus e em princípio e fundamento de tua teologia. Vou recordar disso brevemente.

Comecemos com a eclesiologia. O "povo de Deus" não era um tema qualquer e menos ainda quando o Vaticano II já estava em declive, e a hierarcologia voltava a ressurgir. Sobre ele, escreveste um artigo sistemático em 1983, mas antes, em 1981, tinhas escrito: "El verdadero pueblo de Dios, según Monseñor Romero". Não tentavas analisar as ideias de algum teólogo importante, mas sim ir ao fundo do problema a partir da fonte que tu tinhas mais à mão e que te parecia a mais frutífera.

Mencionaste quatro características do verdadeiro povo de Deus:

- A opção preferencial pelos pobres;

- A encarnação histórica das lutas do povo pela justiça e pela libertação;

- A introdução do fermento cristão nas lutas pela justiça;

- A perseguição por causa do reino de Deus na luta pela justiça.

Nem toda a novidade provinha do Monsenhor, mas a mais nova, por assim dizer, as três últimas características, provinham dele. Pelo menos, Dom Romero te fez aprofundar nelas.

Monsenhor te pôs na pista da "Igreja dos pobres", que nem sequer no Concílio teve êxito, apesar dos desejos de João XXIII, do cardeal Lercaro e de alguns poucos bispos. E certamente te inspirou a falar do martírio, realidade fundante para a Igreja, como a cruz de Jesus. Várias vezes citaste umas palavras escandalosas de Dom Romero: "Alegro-me, irmãos, que a Igreja seja perseguida. É a verdadeira Igreja de Cristo. Seria muito triste se, em um país onde está se assassinando tão horrorosamente, não houvesse sacerdotes assassinados. São o sinal de uma Igreja encarnada". Melhor e mais profundamente do que com muitos conceitos, Monsenhor define a Igreja a partir de duas relações essenciais: com o destino de Cristo e com o destino do povo. Alguém, com boa intenção, questionou uma vez o fato de que Dom Romero corresse tantos riscos, até de sua vida. Mas tu lhe respondeste: "Isso é o que ele tem que fazer". E isso é o que tu também fizeste com a tua vida. A eclesiologia não era um conjunto de conceitos tomados da realidade com alfinetes, mas sim surgidos dela.

Em cristologia, coincidiste com Monsenhor em muitas coisas. Só vou recordar uma, para mim a mais decisiva hoje, certamente no terceiro mundo, mas também no primeiro: ver Cristo no povo crucificado, considerar este como a continuação do servo de Javé. São hoje as centenas e milhares de milhões de pobres, famintos, oprimidos, mortos violentamente, massacrados, inocentes e indefesos, desconhecidos em vida e em morte. Com eles, comecei esta carta ao recordar de Julia Elba e Celina.

Em 1978, em preparação para Puebla, escreveste "El pueblo crucificado. Ensayo de soteriología histórica", em que analisas a realidade dos pobres e vítimas como o servo sofredor de Javé. Em 1981, em teu segundo exílio de Madri, escreveste "El pueblo crucificado como 'el' signo de los tiempos". No primeiro texto, reforças seu caráter salvífico. No segundo, seu caráter de revelação.

Dom Romero disse em 1977, em Aguilares, aos agricultores perseguidos e assassinados: "Vocês são o divino Transpassado". E, em uma homilia de 1978, mostrou sua alegria porque os estudiosos do Antigo Testamento não sabiam dizer se o servo, do qual Isaías fala, é "todo um povo" ou é "Cristo que vem libertá-los".

Não sei dizer "quem copiou quem" ou se aconteceu como com Leibnitz e Newton, que descobriram os fundamentos do cálculo infinitesimal independentemente um do outro. O que, sim, me parece certo é que vocês tiveram a mesma assombrosa intuição de equipar a humanidade sofredora com o crucificado e o servo de Javé. E, pelo que eu sei, só vocês dois. Isso não aparece em encíclicas, nem em concílios. Normalmente, também não nas teologias. E depois que vocês morreram, parece que não há vigor nem rigor para falar assim de um mundo que hoje está evidentemente crucificado.

E uma coisa mais. Em teu segundo exílio, escreveste outro breve texto ao qual deste muita importância: "Por qué muere Jesús y por qué lo matan". O título é mais do que uma demonstração de gênio. Trata-se de esclarecer o sentido transcendente dessa morte e de suas causas históricas. Em teologia, podem-se encontrar reflexões afins, mas não assim, certamente não com essa radicalidade, em textos oficiais da Igreja. Para o primeiro, é preciso ter presente, antes de tudo, o desígnio de Deus. Para o segundo, é preciso ter em conta a historicidade radical da vida de Jesus: defensor daqueles a quem os poderosos ofendem. Por essa razão, Jesus denunciou o poder, entrou em conflito com ele, perdeu e foi crucificado. Isso, tão evidente, costuma ser oficialmente silenciado – inclusive em Aparecida, um bom documento por causa de outros capítulos.

Dom Romero não silenciou isso. Na missa fúnebre de um dos sacerdotes assassinados, ele disse peremptoriamente: "Mata-se quem incomoda". E os que incomodavam não eram demônios ou poderes transcendentes, mas sim oligarcas, militares, órgãos de segurança, esquadrões da morte. Assim se entende o "por que mataram Jesus", como tu perguntavas.

Termino com a teologia, com Deus e com tua fé. Na primeira carta, te escrevi que a tua fé em Deus não pôde ser ingênua. Em 1969, falaste em Madri sobre as dúvidas de fé que Rahner levava com elegância – e entendi que dizias algo parecido sobre ti mesmo. Acredito que lutaste com Deus como Jacó, naqueles anos duros para a fé. E, aos teus 47 anos, Dom Romero "apareceu" a ti – e uso o termo "aparecer", opthe, conscientemente, para expressar o que houve nisso de inesperado, desorientador, questionador e bem-aventurado. Disso, só se pode falar com temor e terror, mas penso que, em contato com Monsenhor, tiveste uma experiência nova da realidade última, de Deus. E acredito que isso se notou em teu falar sobre Deus.

Escrevi que, para Jesus, Deus é "Pai" em quem se pode descansar, e que o Pai continua sendo "Deus", que não deixa descansar. Em Dom Romero, em sua compaixão para com os sofredores, sua denúncia para defendê-los, o amor sem arranjos, viste o Deus que é "Pai" dos pobres. Em sua conversão, em seu adentrar-se no desconhecido e no não controlável, em seu caminhar sem apoios institucionais eclesiásticos, em seu manter-se firme, fosse aonde o caminho fosse, viste o Pai que continua sendo "Deus". E talvez no Monsenhor também viste que, apesar de tudo, o compromisso é mais real do que o niilismo; o gozo, mais real do que a tristeza; a esperança, mais real do que o absurdo. Assim interpreto suas simples palavras: "Com esse povo, não custa ser um bom pastor". Nelas, surge a utopia.

Termino. Não era a primeira vez que te encontravas com alguém que ia influenciar importantemente em tua vida, como bem analisa Rodolfo Cardenal. No entanto, encontrar-te com Dom Romero significou algo diferente. E essa diferença radica no fato de que te encontraste com a profecia, com a entrega, a bondade do Monsenhor, mas sobretudo com a sua fé, o que configura toda a pessoa. Por isso, nunca te consideraste "colega" do Monsenhor. Nunca ouvi de ti, sendo tu de estilo crítico, uma crítica ao Monsenhor. E em teu nome e no da UCA, disseste que "Dom Romero já se havia adiantado a nós". E insististe: "Não há dúvida sobre quem era o mestre e quem era o auxiliar, quem era o pastor que marca as diretrizes e quem era o executor, quem era o profeta que desentranhava o mistério e quem era o seguidor, quem era o animador e quem era o animado, quem era a voz e quem era o eco". Dizias isso com total sinceridade.

"Dom Romero, um enviado de Deus para salvar o seu povo", escreveste. E o Monsenhor te falou sobre o que há, em Deus, de "mais aqui". Mas também te falou do que há, em Deus, de inefável, de mistério bem-aventurado, do que há, em Deus, de "mais além". "Nem o homem nem a história se bastam. Por isso, [o Monsenhor] não deixava de chamar à transparência. Em quase todas as suas homilias, saía este tema: a palavra de Deus, a ação de Deus rompendo os limites do humano". Dom Romero veio ser como o rosto de Deus em nosso mundo.

Ellacu, termino esta carta com as palavras com as quais terminaste teu último escrito de teologia. São para aqueles que não te conheceram, para todos os que te conheceram e especialmente para que ajudem que a Igreja retome o seu rumo.

"A negação profética de uma Igreja como o velho céu de uma civilização da riqueza e do império e a afirmação utópica de uma Igreja como o novo céu de uma civilização da pobreza é um clamor irrecusável dos sinais dos tempos e da dinâmica soteriológica da fé cristã historizada em homens novos, que continuam anunciando firmemente, mesmo que sempre às escuras, um futuro sempre maior, porque, além dos sucessivos futuros históricos, se vislumbra o Deus salvador, o Deus libertador".

Dom Vincenzo Paglia


Romero, santo pela liberdade

Dom Vincenzo Paglia, arcebispo de Terni, recém voltou de El Salvador. Lá naquele país de diversas belezas, os salvadorenhos vão agora às praças há meses. O que querem? Simplesmente, querem dar uma acelerada no processo de beatificação de Dom Óscar Arnulfo Romero. E sobre essa questão que envolve amor e liturgia, vão periodicamente às praças "para exigir que o Estado peça perdão publicamente pela morte assassina de Dom Romero". A reportagem é de Igor Man, publicada no jornal La Stampa, 13-11-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Fonte: UNISINOS


Como excelente diplomata, Dom Paglia diz e não diz, buscando tranquilizar um pouco todos. Romero foi nomeado arcipreste de San Salvador com a permissão das 14 famílias salvadorenhas que o consideravam um "padre alinhado". Mas um longo reconhecimento de fiéis de sua confiança o convenceu a descer à realidade – verdadeira –, e foi assim que a sua homilia dominical assumiu o papel de uma denúncia, mas cristã, de uma acusação dos parafascistas da Arena.

Em resumo: sob o impulso de uma opinião popular sempre mais forte, a homilia de Dom Romero se tornou uma espécie de apontamento da esperança, uma denúncia corajosa das intrigas do poder.

Nunca se havia visto a catedral transbordando em El Salvador, nunca a denúncia do celebrante foi tão participativa. O pequeno escritório de Romero na catedral se transformou em sucursal do Correio.

A quem lhe recomendava "prudência, prudência", Romero respondia sereno: "Mas no máximo poderão me tirar. E daí?". Embedidos de ódio, os neofascistas da Arena decidiram em um encontro mafioso que "apagariam a vela". E a morte de Romero foi marcado. No dia 24 de março de 1980, o major d’Aubuisson e dois assassinos irromperam na capela de uma clínica privada. Dom Romero não piscou e, exatamente enquanto elevava a hóstia da comunhão, o assassino disparou. Um só tiro, um só cartucho que acertou a veia jugular de Dom Romero.

O sacerdote curvou-se sobre si mesmo na vã tentativa de proteger a hóstia – e com ela entre os dedos, caiu. O seu sangue de agricultor manchou os paramentos.

A morte de Dom Romero foi o prelúdio, o longo prelúdio do retorno. Simplesmente para a liberdade. Teoricamente, a guerra prolongada saiu da porta de serviço, mas de fato não terminou.

El Salvador é um país mártir, porque, se é verdade que não se combate mais e que há um Parlamento etc., também é verdade que quem comanda são sempre as 14 famílias, habilíssimas em perpetuar uma espécie de pós-moderno medieval, em que imperam os senhores, e os agricultores labutam, labutam sempre, em troca de escassas mercadorias. E, lenta, aparece a justiça social.

Na sua última homilia na catedral, Dom Romero concluiu assim, com a voz destroçada de emoção: "Os Estados Unidos colocam as armas. A URSS coloca as armas. El Salvador coloca os mortos. Em nome de Deus: deixem-nos a sós".

No dia seguinte, 24 de março de 1980, o major d’Aubuisson o matava, durante a Elevação.

10/11/09

Ignacio Ellacuría. Um pensador, negociador e cristão



No dia 09 de novembro de 2009, Ignacio Ellacuría, filósofo e teólogo jesuíta, assassinado como reitor da Universidade Centro Americana - UCA - de El Salvador, em 1989, completaria 79 anos. Ana Formoso, doutoranda em teologia e colaboradora do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, é autora do artigo "Na fragilidade de Deus a esperança das vítimas. Um estudo da cristologia de Jon Sobrino", publicado pelos Cadernos Teologia Pública, no. 29, que recorda a vida e o martírio de Ellacuría. O Instituto Humanitas Unisinos - IHU, celebrará a memória do martírio de Ignacio Ellacuría e companheiros e das duas mulheres, no dia 10 de dezembro de 2009, com a apresentação do debate "Memory and Its Strength: The Martyrs of El Salvador" [A memória e sua força: Os mártires de El Salvador], que irá ocorrer no Boston College, nos Estados Unidos, no dia 30 de novembro. Participam do debate Noam Chomsky, Jon Sobrino e J. Donald Monan.
Fonte: UNISINOS



No meio acadêmico, um importante filósofo e teólogo, na sociedade civil, um negociador para pôr fim à guerra, tudo isto por um homem que buscou a justiça junto com seu povo e sua comunidade acadêmica.

Ignacio Ellacuría, um homem que soube contribuir com as ciências, especialmente a filosofia e teologia, e, com lucidez, buscou junto à comunidade dar respostas aos desafios sociais de El Salvador. Não temos pessoas sozinhas, temos um grupo de pessoas que dedicaram tempo, estudo, reflexão, oração e escuta às pessoas mais injustiçadas. Como reitor, buscou conduzir a universidade com pesquisa, reflexão e, sobretudo, colaborar para resolver os problemas sociais.

Não se pode entender Ellacuría sem Xavier Zubiri e sem Karl Rahner. A filosofia de Zubiri ajudou a buscar sempre a relação que há entre a inteligência e a fé. A questão em Zubiri não consiste tanto em saber se nosso pensamento encontra algo que possa designar por Deus, mas em qual via concreta se coloca seu acesso e qual é o problema a que corresponde. As provas clássicas da existência de Deus se moviam em esquemas puramente objetivistas. Por isso, Zubiri sentiu a necessidade de uma nova fundamentação para o tema de Deus. Não é o espaço para um desenvolvimento do pensamento de Zubiri, mas compreender como este autor marcou o pensamento de Ellacuría. Para ele, o problema de Deus já está dado na realidade pessoal do homem. O homem descobre Deus a partir desta realidade e como meio de realização de seu viver. Desenvolve uma nova “via de religação”, da qual vislumbramos as verdadeiras consequências. Zubiri opõe-se a qualquer concepção de Deus como algo alheio ao mundo. Deus se manifesta no mundo, fundamentando a realidade última das coisas, e, ainda que racionalmente, é preciso estabelecer seu caráter transcendente. Trata-se de uma transcendência na realidade – nunca fora dela.

Karl Rahner (1904-1984) é considerado um dos maiores teólogos católicos do século XX. Seu pensamento se caracteriza pela seriedade do pensar, preocupou-se com definições de abertura ecumênica e diálogo inter-religioso. Os escritos de Ellacuría, de Sobrino e de Rahner refletem uma pergunta que tem que continuar sendo feita: O que é ser cristão/a e como se pode realizar esse estilo de vida com honestidade intelectual?

Zubiri, uma transcendência na realidade, Rahner escreveu um artigo memorável que “a realidade quer tomar a palavra”. Na expressão de Sobrino, se me permitem um jogo de palavras, se “a palavra se fez realidade (carne, sarx), a realidade quer fazer-se palavra” (Sobrino, p.76, 2007). Ellacuría insistiu que há sempre um sinal dos tempos que é principal: o povo crucificado. Este conceito tem um vigor conceitual hoje perdido na descrição da realidade, e, muitas vezes, banalizado. “Crucificado”, na realidade, tem a conotação de: a) conceitualmente morte, não simples dano, limitação ou carência; b) “provocar a morte” – não morte natural; c) uma “morte infame e injusta”; d) afinidade com Jesus e seu destino, importante a partir da perspectiva da fé, como o que se eleva à realidade última- teológica – a realidade de grande parte da humanidade .

A realidade dos povos crucificados nos interpela? A natureza que está sendo crucificada nos interpela? Assim podemos seguir fazendo-nos perguntas. O pensamento de Ellacuría nos interpela a olhar a realidade com honestidade intelectual e social.

Termino com as palavras de Ignacio Ellacuría que usou com precisão conceitual ao falar do que deve ser e fazer uma universidade:

A universidade deve encarnar-se entre os pobres intelectualmente para ser ciência dos que não têm voz, o respaldo intelectual dos que, na sua própria realidade, têm a verdade e a razão, embora, às vezes, seja à maneira de despojo, mas que não contam com as razões acadêmicas que justifiquem e legitimem sua verdade e sua razão” .

29/10/09

As fotos do cardeal Rodé: uma meditação

O cardeal Franc Rodé, prefeito da Congregação para os Religiosos e a pessoa encarregada pelo Papa Bento XVI para conduzir a Investigação Apostólica das congregações religiosas femininas nos EUA, ordenou, no último mês de março, seis novos diáconos do Instituto de Cristo Rei e Soberano Sacerdote na casa mãe do instituto, em Gricigliano, próximo de Florença, na Itália. A reportagem é de Thomas C. Fox, publicada no sítio National Catholic Reporter, 28-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS


Olhando essas fotos, lembramo-nos da diversidade cultural, eclesial e sócio-psicológica que compõe a nossa Igreja. Ao viver, como nós vivemos, no início do século XXI, devemos reconhecer que somos produtos de uma mistura de influências e temperamentos pré-modernos, modernos e pós-modernos complexos e sem precedentes.

Olhando essas fotos, nos sentimos movidos a perguntar se o cardeal Rodé, que, de acordo com o perfil de John Allen, é uma pessoa encantadora e um produto de antigas forças europeias, eslovenas e anticomunistas, está, de fato, tão distante dos padrões culturais e sociais dos EUA contemporâneos que possivelmente não entenderia muito bem as vidas e o trabalho de nossas religiosas. O cardeal, cuja inclinação por uma Igreja pré-conciliar de estilo tradicional, monárquica e europeia está claramente evidente nestas fotos, disse a John Allen que o Vaticano II provocou "a maior crise na história da Igreja". Nossas religiosas dedicaram suas vidas para dar continuidade aos mandatos do concílio de serviço e reforma.

Olhando essas fotos, lembramo-nos de que o multiculturalismo é um ingrediente central em nossa Igreja e em nosso mundo hoje, que requer compreensão, paciência e tolerância especial. Também é verdade que um julgamento leva a outro julgamento, e é por isso que cada vez mais pessoas em nossas comunidades estão perguntando: "Quem exatamente é esse homem que foi encarregado de julgar as almas, as vidas, a dedicação e a fé de nossas religiosas?".

Olhando essas fotos, dificilmente podemos evitar a conclusão de que a Investigação Apostólica, da forma em que atualmente está estruturada e é desenvolvida, está tragicamente equivocada e pode causar um dano irreparável à nossa Igreja, a menos que mentes sábias encontrem uma forma de suspendê-la.










Leia mais no sítio New Liturgical Movement e veja mais fotos aqui.

Pe. Hans Küng

O Papa que pesca na margem da direita

Artigo do teólogo suíço-alemão Hans Küng, presidente da Fundação Ética Mundial, publicado no jornal La Repubblica, 28-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS


É uma tragédia: depois das ofensas já provocadas por Bento XVI aos judeus e aos muçulmanos, aos protestantes e aos católicos reformistas, agora é a vez da Comunhão Anglicana. Ela conta com 77 milhões de aderentes e é a terceira confissão cristã, depois da Igreja católica romana e da ortodoxa. O que aconteceu? Depois de ter reintegrado a antirreformista Fraternidade de São Pio X, agora Bento XVI quer engordar as fileiras reduzidas dos católicos romanos também com anglicanos simpatizantes de Roma. Os sacerdotes e bispos anglicanos poderiam se converter mais facilmente à Igreja católica, mantendo seu próprio status, também de casados. Tradicionalistas de todas as Igrejas, uni-vos – sob a cúpula de São Pedro! Vejam: o pescador de homens pesca principalmente na margem direita do lago. Mas ali a água é turva.

Esse ato romano representa nada menos do que uma drástica mudança de rota: longe da consolidada estratégia ecumênica de diálogo direto e de uma verdadeira reconciliação. E rumo a uma pirataria não ecumênica de sacerdotes, aos quais é até dispensada a obrigação medieval de celibato, só para lhes tornar possível um retorno a Roma sob o primado papal. Claramente, o atual bispo de Canterbury, Dr. Rowan Williams, não estava à altura da sagaz diplomacia vaticana. Ao querer se galardoar, o Vaticano aparentemente não compreendeu as consequências da pesca papal em águas anglicanas. Caso contrário, não teria assinado o comunicando minimizante do arcebispo católico de Westminster. As presas na rede de Roma não entendem que, na Igreja católica romana, serão só padres de segunda classe, e que os católicos não podem participar de suas funções? O comunicado faz referência descaradamente aos documentos realmente ecumênicos da Anglican Roman Catholic International Commission (Arcic), elaborados durante anos e anos de laboriosas negociações entre o romano Secretariado para a União dos Cristãos e a anglicana Conferência de Lambeth: sobre a Eucaristia (1971), sobre o ofício e a ordenação (1973), assim como sobre a autoridade na Igreja (1976/81). Porém, os especialistas sabem que esses três documentos, subscritos em seu tempo por ambas as partes, não estão voltados à pirataria, mas sim à reconciliação.

Esses documentos de verdadeira reconciliação oferecem, de fato, a base para o reconhecimento das ordenações anglicanas, das quais o Papa Leão XIII, em 1896, havia negado a validez com argumentações pouco convincentes. Da validade das ordenações anglicanas, deriva também a validade das celebrações eucarísticas anglicanas. Seria possível, assim, uma recíproca hospitalidade eucarística, uma intercomunhão, um lento processo de unificação entre católicos e anglicanos.

Mas a vaticana Congregação para a Doutrina da Fé, à época, fez com que esses documentos de reconciliação desaparecessem o mais rápido possível nos calabouços do Vaticano. "Trancar na gaveta", diz-se. "Muita teologia künguiana", recitava, à época, um comunicado reservado da agência de imprensa católica KNA. Com efeito, eu havia dedicado a edição inglesa do meu livro "A Igreja Católica" (Objetiva, 2002) ao então arcebispo de Canterbury, Dr. Michael Ramsey, na data de 10 de outubro de 1967, quinto aniversário de abertura do Concílio Vaticano II: na "humilde esperança de que nas páginas deste livro se apresente uma base teológica para um acordo entre as Igrejas de Roma e de Canterbury".

Ali se encontra também a solução para a espinhosa questão do primado do papa, que há séculos divide essas duas Igrejas, mas também divide Roma das Igrejas do Leste e das Igreja reformistas. Uma "retomada da comunidade eclesial entre a Igreja católica e a Igreja anglicana seria possível", se, "de um lado, fosse garantido que a Igreja da Inglaterra pudesse manter a sua própria ordem eclesial sob o primado de Canterbury e, de outro, que a Igreja da Inglaterra reconhecesse o primado pastoral do sólio de Pedro como instância superior de mediação e conciliação entre as Igrejas".

"Assim", esperava eu à época, "do império romano nascerá um Commonwealth [corpo, comunidade] católico!".

Mas o Papa Bento quer restaurar absolutamente o império romano. Não faz nenhuma concessão à Comunhão Anglicana, pretende, ao contrário, manter para sempre o centralismo medieval romano – mesmo se impeça um acordo das Igrejas cristãs sobre questões fundamentais. O primado do Papa – depois do Papa Paulo VI, é preciso admitir, a "grande rocha" no caminho rumo à unidade da Igreja – não age aparentemente como "Pedra da unidade". Volta ao auge o velho convite ao "retorno para Roma", agora por meio da conversão, sobretudo de sacerdotes, possivelmente em massa. Em Roma, fala-se de meio milhão de anglicanos com 20 ou 30 bispos. E os outros 76 milhões? Uma estratégia que se demonstrou falimentar nos séculos passados e que conduzirá, no melhor dos casos, ao nascimento de uma mini-Igreja anglicana "unida" a Roma em forma de dioceses pessoais (não territoriais). Mas quais são as consequências hodiernas dessa estratégia?

1. Um ulterior enfraquecimento da Igreja anglicana: no Vaticano, os antiecumênicos jubilam pelo influxo de conservadores; os liberais, na Igreja anglicana, exultam pelo êxodo de simpatizantes católicos perturbadores. Para a Igreja anglicana, essa cisão implica em uma ulterior corrosão. Ela já sofre agora sob as consequências da eleição para bispo, desnecessariamente concretizada nos EUA, de um pároco reconhecidamente homossexual – com a conseqüente aceitação da divisão da própria diocese e de toda a comunidade anglicana. A corrosão foi reforçada pela atitude discordante da cúpula eclesiástica com relação aos casais homossexuais: alguns anglicanos aceitariam sem mais o registro civil com amplas consequências jurídicas (tipo direito de sucessão) e com eventual benção eclesiástica, mas não um "casamento" (termo reservado, há milênios, à união entre homem e mulher) com direito de adoção e consequências imprevisíveis para os filhos.

2. Desorientação geral dos fiéis anglicanos: o êxodo dos sacerdotes anglicanos e a nova ordenação na Igreja católica proposta a eles levantam, para muitos fiéis (e pastores) anglicanos, uma grave interrogação: a ordenação dos sacerdotes anglicanos é válida? E os fiéis teriam que se converter à Igreja católica junto com o seu pastor? O que será dos imóveis eclesiásticos e dos introitos dos pastores?

3. Desprezo do clero e do povo católico. A indignação com a persistência do não às reformas se difundiu também entre os fiéis membros da Igreja. Depois do Concílio, muitas conferências episcopais, inumeráveis pastores e crentes pediram a anulação da proibição medieval do casamento para os sacerdotes, que subtrai párocos já quase à metade das nossas paróquias. Mas só gritam contra a recusa persistente e obstinada de Ratzinger. E agora os padres católicos devem tolerar a seu lado pastores casados convertidos? O que devem fazer os padres que desejam o casamento: talvez fazer-se primeiro anglicanos, casar e depois reapresentar-se?

Como no cisma entre o Oriente e o Ocidente (século XI), aos tempos da Reforma (século XVI) e no Concílio Vaticano I (século XIX), a fome de poder de Roma divide a cristandade e danifica a sua Igreja. Uma tragédia.


25/10/09

Mary E. Hunt

A proposta indecente do Vaticano aos anglicanos: um escândalo teológico

"Roma não muda nem uma vírgula com a chegada dos anglicanos dissidentes. Ela mantém em seu lugar o seu clero celibatário, enquanto acolhe anglicanos casados com gosto." Essa é a opinião da teóloga norte-americana Mary E. Hunt, publicada no sítio Religion Dispatches, 22-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Em setembro deste ano, a teóloga esteve na Unisinos durante a programação do X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades, proferindo a conferência "Narrar Deus hoje: uma reflexão a partir da teologia feminista".
Fonte: UNISINOS


O novo esquema do Vaticano para atrair anglicanos conservadores descontentes ao rebanho deve ter pego o arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, desprevenido, mas os católicos não ficam surpresos com nada do que Roma faz para ampliar a sua cota de mercado. O clero conservador, cuja oposição à ordenação de mulheres e aos indivíduos LGBT o motivou a se separar da Comunhão Anglicana, é agora bem-vindo a se mudar para o catolicismo.

Deixemos a história lembrar esse escândalo teológico pelo que ele é. Vendido por Roma como um passo adiante nas relações ecumênicas com uma comunhão-prima, ele é, de fato, a união de dois grupos unidos em sua rejeição às mulheres e aos indivíduos "queer" como indignos para a liderança religiosa.

Uma vindoura Constituição Apostólica irá pronunciar os detalhes: os anglicanos contra a ordenação de mulheres e de pessoas LGBT (como o bispo Gene Robinson, por exemplo) estão em plena comunhão com Roma. Por que se incomodar, então, com requerimentos de conversão individual ou papeladas supérfluas? Esses anglicanos podem até fazer a transição enquanto congregações ou dioceses inteiras, se preferirem. Eles serão católicos, mas, assim como os católicos de rito oriental, eles o farão a seu modo. Eles podem trazer seus próprios incensos e sinos e o seu Livro de Oração Comum, e até seus próprios padres e bispos, que irão presidir os "Ordinariatos Pessoais", que irão funcionar como dioceses. Venham como vocês são, sejam bem-vindos para discriminar contra os conteúdos do seu coração em nome de Deus.

Roma não muda nem uma vírgula com a chegada dos anglicanos dissidentes. Ela mantém em seu lugar o seu clero celibatário, enquanto acolhe anglicanos casados com gosto. Eu prevejo mais do que uma pequena consternação nas fileiras romanas com relação a isso. As políticas atuais permitem que os pastores episcopais e luteranos casados pulem a cerca com sua família a reboque. Porém, os homens católicos romanos que desejam se casar, independentemente das mulheres católicas romanas que poderiam até concordar com o celibato, são proibidos de ser ordenados. Nenhuma autoridade católica romana parece ser capaz de dizer de uma forma franca e direta por que isso é assim. Eles murmuram algo sobre tradição e certas distinções. Mas a retórica se enfraquece crescentemente enquanto eles defendem o indefensável contra a sua própria prática. Isso não é bonito.

Roma mantém sua liturgia e teologia completamente intactas. A educação teológica continua a mesma, com o acréscimo de pequenos grupos de formação para candidatos anglicanos ao sacerdócio, que podem apreciar seu próprio "patrimônio", conseguindo também uma boa dose de pensamento romano. De nenhuma forma o Vaticano se engaja em questões que conduzam à Reforma Inglesa do século XVI. Ao invés, Roma pretende ser flexível e moderna com relação a tudo isso, graciosa e complacente como uma raposa. Quando as lutas por propriedades começarem, eu prevejo que as gentilezas abrirão caminho para algumas sérias disputas, e nós veremos como Roma não consegue ser complacente.

Denominações são negócios, acima de tudo, e, dessa forma, elas prestam tanta atenção aos resultados finais quanto aos seus ensinamentos. Talvez mais aos primeiros. Nesse caso, a oportunidade de mais fácil acesso são os anglicanos britânicos que ainda não descobriram como se reorganizar à luz de suas mudanças de denominação. O grupo norte-americano liderado pelo Rev. Martyn Minns, da Virgínia, disse que eles estão muito bem, obrigado, ajeitando suas próprias estruturas para que não precisem se converter.

Alguém pode se perguntar quanto tempo eles poderão resistir ao charme de Roma. Imaginem as oportunidades imobiliárias, já que as igrejas católicas romanas fecham, e os anglicanos conservadores precisam de prédios. Pensem na solução brilhante para a falta de sacerdotes, com os padres anglicanos garantidamente fiéis às normas substituindo os rapazes romanos, assim que eles morrerem e/ou pensarem por si mesmos. Conjecturem a visão de uma grande massa com uma grande quantidade de ministros do altar e incenso tão abundante, que faz com que os paroquianos até esqueçam que houve uma vez um Vaticano II. Para os mais "católicos" entre os dissidentes anglicanos, é um casamento feito nos céus. Mas os anglicanos conservadores mais evangélicos podem considerar que esse é o seu pior pesadelo.

Como prevenir que outras denominações sigam a linha de Roma? Por exemplo, e se a Comunhão Anglicana estabelecer uma ala católica, em que aqueles católicos romanos que acreditam na ordenação de mulheres e de um clero de casais de mesmo sexo podem ser anglicanos de rito católico romano? Os Menonitas podem criar um rito católico para aqueles que os seguem em questões de paz, resultando nos menonitas católicos. Eu duvido disso. É mais provável que Roma decida que alguém nem precisa ser cristão. Essa discriminação contra mulheres e gays é um elo comum suficiente para criar alguns católicos de rito muçulmano, por exemplo. As permutas são infindáveis, mas o resultado é o mesmo: uma perversão de tudo o que o movimento ecumênico representou nos últimos cem anos. Os cristãos ecumênicos tentaram aprender sobre as tradições uns dos outros e encontrar pontos positivos de acordo – não pequenos espaços de preconceito compartilhado.

Eu sinto muito por Rowan Williams se ele não sabia contra o que estava quando se envolveu nas relações bilaterais com Roma, só para estar sujeito à sua traição. Cercado por todos os lados em sua própria comunhão, ele agora preside o potencial êxodo de alguns de seus membros que irão encontrar, na nova dispensa, um lugar confortável para viver suas ideias antiquadas de humanidade.

Eu apenas espero que Williams e companhia se consolem com o fato de que estão em boa companhia entre os colegas ecumênicos que respeitam as tradições uns dos outros, compreendem as dinâmicas das disputas internas e resistem à tentação de lucrar com os problemas dos outros. Roma, por outro lado, está em uma categoria – mesmo que baixa – só dela.
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