04/07/2010

José María Castillo

O Deus dos ricos não está em crise

Uma das notícias que mais se comenta hoje na mídia é o surpreendente aumento do número de ricos, em todo o mundo e especificamente na Espanha: 16.000 a mais que em 2008. Ou seja, os ricos aumentaram, em 2009, 12,5% em relação ao ano anterior. O relatório da Merril Lynch Global Health Management entende por ricos os que têm, ao menos, um milhão de euros, sem contar a residência e os gastos de consumo. A reflexão é de José María Castillo e está publicada em seu blog Sin Censura, 23-06-2010. A tradução é do Cepat.
Fonte: UNISINOS



Portanto, quando a crise mais aperta os pobres e os trabalhadores, quando mais aumenta o número de desempregados, acontece que os ricos têm mais sorte e, pelo que dizem os que sabem do assunto, os ricos são cada dia mais ricos.

Dizer isto é o mesmo que dizer que aumenta a violência, a crueldade, a desumanização, o sofrimento e a desesperança de milhões de criaturas. Isto é o pior de tudo. Mas, além disso, o aumento do número de ricos é também um patético indicador religioso. Os cristãos sabem que Jesus disse: “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”. E a razão é clara: “Ninguém pode servir a dois senhores. Com efeito, ou odiará um e amará o outro, ou se apegará ao primeiro e desprezará o segundo” (Mt 6, 24).

A consequência – se é que Jesus tinha razão – é que o Deus dos ricos não está em crise. O que está em crise são a economia e as vítimas da economia de mercado. Mas, o que mais chama a atenção é que precisamente quando o Deus dos pobres se vê mais excluído e desautorizado, o Deus dos ricos está cada vez mais robusto e é mais generoso com os seus fiéis.

E, enquanto isso, a Igreja está pedindo dinheiro. Vemos isso na televisão e o ouvimos nas mensagens publicitárias veiculadas pelas rádios. Os bispos pedem às pessoas para que coloquem o dinheiro na caixa postal da Igreja. É verdade que a Igreja afirma que esse dinheiro é para as suas obras assistenciais e de caridade, que são muitas. Mas, não é só para isso. Sabemos que os bispos que conseguem generosos empréstimos dos bancos, nestes tempos de penúria, para fazer enormes construções, para suas obras enormes. Como os tempos mudaram!

Nos séculos III e IV, o bispo era o encarregado de administrar os bens da comunidade. Mas o bispo (todo bispo) sabia que o sujeito de domínio dos bens da Igreja eram os pobres e desamparados: assim aparece no cânon 25 do Concílio de Antioquia (341). O Papa Gelásio repete a mesma legislação, no final do século V, numa carta aos bispos da Sicília (PL 59, 57). E, sobretudo, a Igreja era, naqueles tempos, sumamente zelosa com algo que agora nos parece incrível: cada bispo era proibido de aceitar doações daqueles que cometiam injustiças. São Basílio não aceitou a oferenda de um prefeito injusto (PG 36, 564). E Santo Epifânio enuncia o princípio geral: “A Igreja aceita as oferendas daqueles que não fizeram mal a ninguém ou não cometeram nenhum crime, mas que se comportam com justiça” (PG 42, 832).

Mas mais exigente que tudo isto é o que ordenava a Didaskalia, documento litúrgico e canônico do século III que dava normas para o comportamento na liturgia e na vida das comunidades. O princípio geral era que “o altar de Deus são as viúvas e os órfãos” (II, 26, 3). Por isso, a obrigação principal do bispo era vigiar com sumo cuidado para que aqueles que cometiam maus-tratos e injustiças não se aproximassem do altar; nem, portanto, podiam dar esmolas para os pobres (II, 17, 1). Nem os que se aproveitavam dos pobres, nem os que pagavam diárias injustas, nem os que tratavam mal os seus trabalhadores..., de nenhum desses indivíduos, o bispo podia aceitar ajudas ou esmolas. Porque “do dinheiro que provém da injustiça, não pode viver o altar de Deus" (IV, 5, 2). Daí que, dos poderosos e dos ricos, que eram os que se ofereciam para dar esmolas, de tais pessoas não se aceitavam ajudas para a comunidade (IV, 8, 3). E esta convicção chegava ao extremo de que, segundo se dizia na mesma Didaskalia, “é preferível morrer de fome do que receber dos iníquos e dos que cometem injustiças” (IV, 8, 2). Este preceito é repetido pelas Constituições Apostólicas, no Oriente, e pelos Statuta Ecclesiae Antiqua, no século V.

Mas os tempos mudaram. Nossa Igreja recebe agora dinheiro de quem quer que seja. E quanto mais, melhor. Evidentemente, o sujeito de propriedade desse dinheiro já não são os pobres. Agora, os pobres estão na porta da Igreja pedindo esmola. O problema está em que cada dia menos gente vai às igrejas de nossa Igreja. O Deus da Igreja está tão em crise quanto os pobres. As pessoas agora vão aos novos templos do Deus dos ricos. Esses templos são os bancos, que, segundo dizem, estão bem protegidos, são seguros e não cambaleiam.

A coisa está clara: o Deus dos ricos está no auge, precisamente quando o Deus dos pobres se debate entre as dúvidas, o descrédito e o ressentimento de muitos cidadãos. Tudo isto tem muito a ver com o sistema econômico que manda em todos nós. Mas aqueles que vão com mais preocupação e fervor aos bancos que às igrejas também têm a sua parte de responsabilidade. E, de passagem, que se perguntem os bispos se eles se sentem sucessores daqueles antigos bispos que preferiram morrer de fome antes que aceitar o dinheiro dos que oprimem os pobres. Continuaremos crendo no Deus de Jesus? Ou já trocamos de Deus e encontramos outro mais cômodo e menos exigente, por mais que seja cruel com os mais infelizes?

Já termino. Aos que dizem de mim que ataco a Igreja, eu pergunto (e me pergunto) se é melhor continuar calando e tornar-se cúmplice destas coisas ou, ao contrário, dizer o que precisa ser dito, mesmo que dizemos isso daquela que dizem que é a “nossa mãe”. Prefiro que me chamem de “traidor” em vez de dizerem que a minha boca está selada pelo vil dinheiro. Em qualquer caso, a minha convicção é que Jesus e seu Evangelho estão acima de tudo, também da Igreja.