20/11/2009

"Construindo pontes de justiça e equidade"


Sob o lema “Construindo pontes de justiça e equidade” o Seminário Evangélico de Teologia, de Matanzas, Cuba, abrigou encontro nacional de reflexão bíblico-sócio-teológico e pastoral a respeito de temas pontuais como a perspectiva de gênero, a problemática da mulher, a masculinidade. A reportagem é de José Aurelio Paz e publicada pela Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação - ALC, 19-11-2009.
Fonte: UNISINOS
Foto: Ivonte Gebara


O evento, encerrado na quinta-feira, 12, integrou a Década de Luta contra a Violência, instituída pelo programa de Mulher e Gênero do Conselho de Igrejas de Cuba (CIC).

Propostas e desafios atuais da teologia feminista na América Latina e Cuba” foi o tema que reuniu as teólogas Ivone Gebara, do Brasil, Rebeca Montemayor, do México, a doutora Ofélia Ortega, de Cuba, e a pastora Miriam Laranjeira, da Igreja Presbiteriana Reformada de Cuba.

Ivone Gebara destacou que é importante trabalhar o tema voltado às massas, também para analisar as novas identidades femininas, “já que construímos a identidade desde o patriarcado, mas ao mesmo tempo construímos outras, para as quais temos que achar um significado”.

Em entrevista para a ALC, Gebara disse que “vivemos um momento crítico de dogmatismo e autoritarismo nas instituições religiosas”.

A teologia feminista no continente, disse, não se considera que ande muito bem, sobretudo dentro das igrejas onde quase não a suportam “porque significa aceitar uma crítica ao poder hierárquico que se concentra em mãos de uma elite masculina”, assim como os conteúdos, que “também estão no poder hierárquico”, afirmou.

É insuportável ouvir que a teologia é obra criativa somente dos homens, declarou. “Se a teologia é uma maneira de pensar os valores que constroem a vida, por aí vai a teologia feminista”, agregou.

A maior parte da produção teológica cubana sobre gênero não está nos livros, mas em artigos de revistas ou em teses do Seminário Evangélico de Matanzas, arrolou Ofélia Ortega.

O encontro também se dedicou a projetar as perspectivas teológicas e pastorais do futuro, de prática e raiz ecumênica, que leve em conta a problemática feminina, as masculinidades e as relações de gênero.

Pe. John W. O'Malley


Um novo horizonte católico

Publicamos a seguir a resenha crítica do novo livro do vaticanista norte-americano John L. Allen Jr., "The Future Church: How Ten Trends Are Revolutionizing the Catholic Church" [A Igreja do futuro: Como dez tendências estão revolucionando a Igreja católica] (Ed. Doubleday). O artigo foi escrito por John W. O'Malley, padre jesuíta, historiador da Igreja e professor de teologia da Georgetown University, de Washington, nos EUA. O'Malley é autor de"What Happened at Vatican II" [O que aconteceu no Vaticano II] (Ed. Harvard) e "A History of the Popes" [Uma história dos Papas] (Ed. Sheed and Ward). O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 10-11-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS


Perceptivo, imparcial, provoca o pensamento, expande horizontes, incrivelmente bem informado – palavras como essas pulam em minha cabeça enquanto leio o novo livro de John L. Allen Jr., "The Future Church: How Ten Trends Are Revolutionizing the Catholic Church". Eu pensei em ter detectado em sua introdução uma nota de desculpas por escrever como "um jornalista, não um padre, um teólogo ou um acadêmico". Suas credenciais, como os leitores do NCR sabem, são muito boas. Se você tem dúvidas, o livro irá dissipá-las.

O título é provocativo por prometer mais do que qualquer um pode oferecer. Allen tem muito senso para tentar oferecer isso. Ele não fornece nenhum plano para o futuro, nenhum projeto de Igreja. Ele faz exatamente o oposto.

Suas análises das tendências deixam duas coisas claras. Primeiro, estamos à beira de mudanças que, tomadas em conjunto, irão remodelar radicalmente a Igreja. "Revolucionar" é a palavra de Allen. Segundo, as tendências irão seguir seu próprio curso, interagindo entre si e com a cultura em geral, de forma que é impossível dizer quais poderão ser os resultados finais da revolução. Um revolução radical até que ponto? Essa é a dúvida de qualquer um, suponho. As tendências apresentam desafios cuja novidade e magnitude fazem o coração falhar uma batida. Elas, em sua importância cumulativa – falo como historiador – pressagiam mudanças nos padrões católicos sem paralelo no passado. Allen traça essas tendências imparcialmente e, como ele diz, descritivamente, não prescritivamente. Com isso, ele se refere ao fato de não apresentar as tendências nem como boas, nem como más para a Igreja. Ele as apresenta simplesmente como a forma pela qual as coisas estão se movendo.

As tendências, claro, não estão desrelacionadas entre si. "Igreja mundial", não surpreendentemente a primeira tendência com a qual Allen lida, está intimamente relacionada com "A nova demografia", com "Multipolaridade" e com "Globalização".

Até a metade do século, Nigéria, Uganda e a República Democrática do Congo estarão entre os 10 países mais católicos do mundo, tirando a Polônia e a Espanha da lista. Mas essa recente Igreja mundial, um resultado, em parte das mudanças demográficas, é afetada pela globalização. Ela eleva à proeminência valores e prioridades culturais diferentes daqueles do mundo do Atlântico Norte que ainda demarcam as nossas sensibilidades católicas, o que causa a questão multipolar. Uma tendência ameniza ou intensifica a outra, assim como a globalização faz com a afirmação dos valores e prioridades indígenas.

"Catolicismo evangélico" e "Pentecostalismo" também estão intimamente relacionados e, de certa forma, se relacionam com "Islã". Essas três tendências juntas fazem com que o futuro pareça mais conservador em questões sexuais e de gênero. Mas então existe a "Revolução biotécnica", que, junto a outros desenvolvimentos no mundo científico como o "Universo em expansão", desafia os princípios fundamentais da doutrina católica da forma como a conhecemos. Além da clonagem humana, da pesquisa com células-tronco embrionárias e outros assuntos relacionados que geralmente ouvimos falar, a revolução biotécnica cava fundo nos fundamentos da própria religião quando aquela pensa que descobriu um gene de Deus. Em comparação, a tendência "Ecologia" pode parecer inofensiva, mas, como Allen demonstra, ela também derruba padrões estabelecidos de pensamento, de comportamento e teológicos.

Os leitores podem se surpreender ao encontrar "Papéis dos leigos em expansão" entre as tendências, o que levanta a questão de como uma tendência chega às 10 principais. Allen desenvolveu seis critérios: uma tendência deve ser global, deve ter impacto nas bases, deve envolver lideranças oficiais, deve ter potencial para explicar uma ampla variedade de fatores, deve conter poder preditivo e não deve ser movida ideologicamente. Esses critérios permitiram que Allen eliminasse alguns suspeitos habituais, como a crise dos abusos sexuais, João Paulo II e as mulheres. O capítulo sobre "Tendências que não estão", embora curto, irá envolvê-lo tanto quanto os outros.

Para as tendências que estão, Allen divide cada um dos 10 capítulos em duas seções. A primeira, "O que está acontecendo", faz o que promete. Apresenta e analisa informação. Essas seções são, para mim, o que há de mais satisfatório e impressionante no livro. Allen fez a sua lição de casa. Ele estimula o leitor em um curso intensivo sobre o que está acontecendo não apenas na Igreja, mas também na economia, na diplomacia, na política mundial e em temas semelhantes. Eu não sei como os especialistas irão julgar as análises de Allen nesses campos. Tudo o que eu posso dizer é que aprendi muito e acho que você também irá aprender.

A segunda seção, "O que isso significa", especula sobre as consequências das tendências em ordem decrescente de certeza – de quase certo, provável, possível, a poucas chances. O modo subjuntivo domina essa seção. "Poderia" e "deveria" aparecem frequentemente, junto com seus companheiros de viagem "talvez" e "possivelmente". As tendências demográficas podem parecer sólidas, mas elas se reverteram no passado. Uma pandemia ou duas poderiam fazer o mesmo no futuro.

A dieta subjuntiva pode se tornar cansativa. Mas ela deixa claro que forças estão em jogo lá fora, de uma forma totalmente imprevisível. Elas são forças verdadeiramente grandes, com uma mudança errática em seu núcleo. Curingas e cartas surpresa abundam nesse jogo. Talvez essas tendências não irão, no fim, gerar o equivalente eclesial ao Big Bang, mas certamente devem chegar perto.

O livro validou o que eu acredito ser o significado mais duradouro do Concílio Vaticano II (1962-65). Em seu maior objetivo, o Concílio tentou fazer com que a Igreja enfrentasse o mundo da forma como ele é e então lidar com ele da forma como é. Ele tentou desfazer a nostalgia das "idades da fé" medievais, da ordem do mundo perfeito que prevaleceu antes da Revolução Francesa e de outras ilusões históricas.

A Igreja decidiu encarar os fatos do "mundo moderno", incluindo o pluralismo cultural e religioso e todos os enigmas que a ciência moderna nos impôs com relação a nossas origens, nossa sobrevivência e nosso bem-estar.

Enfrentar os fatos é exatamente o que Allen está pedindo que a Igreja faça – que nós façamos.

O livro também confirma uma verdade básica sobre a trajetória histórica da Igreja: o que acontece fora da Igreja é mais importante para ela do que aquilo que acontece dentro. As reformas da Igreja como a Controvérsia da Investidura do século XI, o Concílio de Trento no século XVI e o Vaticano II no século XX foram mudanças introduzidas na vida e na prática da Igreja pelos líderes da Igreja e operacionalizadas por eles. Essas mudanças, embora importantes, podem parecer quase insignificantes em comparação com o impacto de coisas como o reconhecimento da Igreja por Constantino no século IV ou algo tão mundano no século XIX como a invenção do telefone.

"The Future Church" não é uma leitura casual para a hora de dormir. Sua mensagem requer uma mente alerta, disposta a digerir informações e a compreender complexidades. Allen acredita, e eu também, que o impacto dessas tendências, independentemente de como elas irão ocorrer concretamente, requer um novo tipo de coragem de nossa parte. Ele requer coragem "para pensar além dos interesses de nossa própria tribo católica", a coragem de se levantar para um novo horizonte, que também é católico. Ler o livro é, em si mesmo, um primeiro passo.

John L. Allen Jr.


A dimensão horizontal da Igreja

Publicamos a seguir um trecho do livro do vaticanista norte-americano John L. Allen Jr. (foto), intitulado "The Future Church: How Ten Trends Are Revolutionizing the Catholic Church" [A Igreja do futuro: Como dez tendências estão revolucionando a Igreja católica] (Ed. Doubleday Religion, 2009). O texto foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 10-11-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS



O jesuíta e sociólogo norte-americano Pe. John Coleman observou que, apesar de seus ricos recursos intelectuais e humanos, o Catolicismo desempenhou um curioso papel "subalterno" em grande parte dos debates contemporâneos sobre globalização, com a única exceção talvez no Jubileu do ano 2000, com a campanha pelo cancelamento da dívida. Na tentativa de dar conta desse desajuste entre o potencial da Igreja e seu impacto real, Coleman cita um estudo sobre ONGs de 1998, intitulado "Activists Beyond Borders" [Ativistas além das fronteiras], de Margaret Keck e Kathryn Sikkink, que defende que hoje os atores mundiais de sucesso geralmente são redes políticas frouxamente organizadas e sem múltiplas camadas de comando. Talvez, sugere Coleman, o modelo de organização hierárquico do Catolicismo não possui a flexibilidade necessária para se manter no intenso ritmo em que as coisas mudam em um mundo globalizado.

Para ser franco, o Catolicismo tem sim uma ampla variedade de atores horizontais de sucesso, na forma de ordens religiosas, movimentos leigos e uma ampla variedade de coalizões de base. Quando esses sujeitos somam forças, eles podem produzir resultados surpreendentes. Um exemplo disso surgiu nos debates nos Estados Unidos sobre o destino de Terri Schiavo, a mulher da Flórida em um estado vegetativo persistente que morreu em 2005 depois que seu suporte vital foi removido. Grande parte da energia católica em favor de manter Schiavo viva veio não das lideranças oficiais da Igreja, mas sim de uma ampla variedade de grupos pró-vida e movimentos formados largamente pela Internet para esse fim. Independentemente do posicionamento que se possa ter sobre essa instância, o fato ilustra a capacidade de um Catolicismo horizontal energizado mobilizar opiniões e obter resultados. Nesse caso, o movimento não evitou a morte de Schiavo, mas gerou um exame de consciência nacional em torno de questões sobre o fim da vida, que ainda é um trabalho em andamento.

Porém, Coleman indica que essa dimensão horizontal do ativismo católico continua subdesenvolvida, pelo menos em comparação com as estruturas verticais da Igreja. Remediar esse déficit não é primeiramente uma tarefa para a hierarquia. De fato, em muitos casos, sua contribuição mais valiosa pode ser ficar fora do caminho. A construção de um setor horizontal mais convincente e articulado na Igreja sobre questões esboçadas acima depende de uma parcela crescente de católicos leigos, especialmente da ampla maioria que não pertence a nenhum movimento ou grupo formais, que assumam sobre si a tradução de sua fé em ação. O autêntico Catolicismo horizontal não pode vir à existência por meio de um "fiat" hierárquico. Ele deve brotar das bases, refletindo uma determinação popular para que algo seja feito.

Esperar que o Vaticano ou os bispos ajam, ou culpá-los por fazer da forma errada, não é suficiente. É o cúmulo do clericalismo acreditar que tudo na Igreja depende de seu clero, ou que nada de útil pode ser feito até que Roma vire uma nova página. Essa posição lê erroneamente tanto a teoria quanto a prática de como a mudança funciona na Igreja. Quando todo o resto é removido, a responsabilidade principal da hierarquia é assegurar que, quando Cristo voltar, a fé ainda possa ser encontrada sobre a Terra. Por definição, de muitas maneiras, esse é um papel conservador, cauteloso, defensivo. Esperar também que a hierarquia seja o "agente de mudança" primordial no Catolicismo, a fonte principal de sua visão e de sua nova energia, é tanto injusto quando irreal. Emprestando-me de uma metáfora esportiva, é como esperar que a defesa marque todos os pontos. Quando um bispo se apresenta como um visionário, deveríamos receber isso como uma graça, mas esperar que isso seja o curso normal dos fatos é uma prescrição de azia.

Na realidade, a mudança no Catolicismo infiltra-se tipicamente pelas bases e então é sujeita a um longo período de discernimento teológico e espiritual em múltiplos níveis, bem antes de ser ratificada e assimilada pela hierarquia. A Igreja gerou ordens medicantes nos séculos XII e XIII, por exemplo, não por causa de um decreto papal que assim determinou, mas porque indivíduos criativos como São Domingos e São Francisco viram uma necessidade emergente e responderam a ela. Da mesma forma, a grande explosão de novos ensinamentos e ordens missionárias no século XIX foi o trabalho de católicas e católicos visionários que aproveitaram a iniciativa, geralmente lutando pelas suas vidas com superiores e bispos recalcitrantes, preocupados sobre aonde as coisas iriam parar.

A realidade simples é que, se o Catolicismo deve gerar a imaginação requerida para enfrentar os desafios das tendências que pesquisamos, essa não é principalmente uma tarefa para a hierarquia. Ela deve ser desenvolvida em comunhão com as lideranças da Igreja, claro, mas não pode depender delas. Pensar de outra forma é sucumbir a uma espécie de "eclesiologia lilás", na qual a Igreja é reduzida aos seus bispos. Sim, os bispos às vezes podem abusar de sua autoridade e podem reprimir artificialmente energias criativas. Sua precaução natural às vezes se traduz em rigidez ou fechamento. Em última instância, porém, o tempo e as marés não podem ser parados, e as boas ideias irão perdurar independentemente de qual seja a sua recepção inicial pelos poderes.

A questão real, entretanto, não é se os bispos estão à altura dos desafios do século XXI. A questão é se o resto de nós está.

15/11/2009

'Dom Romero e tu': Carta de Jon Sobrino a Ignacio Ellacuría


Publicamos aqui a carta póstuma do jesuíta e teólogo espanhol Jon Sobrino a Ignacio Ellacuría, um dos seis jesuítas assassinados em El Salvador, há 20 anos. Na verdade, segundo ele, esta é uma homenagem principalmente a Julia Elba e Celina, a funcionária da residência dos jesuítas e sua filha de 15 anos, que também foram assassinadas naquele 27 de outubro de 1979, na UCA, Universidad Centroamericana José Simeón Cañas. "Elas são o símbolo de centenas de milhões de homens e mulheres que morreram e morrem inocente e indefesamente aqui, no Congo, na Palestina, no Afeganistão, sem que ninguém faça muito caso delas", afirma. A carta foi publicada no sítio Religión Digital, 27-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto Fonte: UNISINOS


Dom Romero e tu

Querido "Ellacu": Este ano é o 20º aniversário do seu martírio e logo chegará o 30º de Dom Romero. Cabe-nos falar de vocês com frequência, com responsabilidade especial e também com algum escrúpulo. Vocês, os jesuítas, são mártires bem conhecidos, mas Julia Elba e Celina, nem tanto. Porém, elas são o símbolo de centenas de milhões de homens e mulheres que morreram e morrem inocente e indefesamente aqui, no Congo, na Palestina, no Afeganistão, sem que ninguém faça muito caso delas.

Praticamente, elas não existem, nem em vida, nem em morte, para as sociedades da abundância. E a instituição Igreja também não sabe o que fazer com tantas pessoas que morreram assassinadas. Se é difícil que canonizem um mártir da justiça como Dom Romero, muito mais difícil é que canonizem esses homens e mulheres que viveram e morreram em pobreza e opressão. E, no entanto, muitas vezes te ouvi dizer que eles são "os preferidos de Deus".

Deveria escrever-te, pois, sobre Julia Elba e Celina, mas conheço pouco delas. De Julia Elba, sei que passou trabalhando toda a sua vida nas podas, na cozinha. E tudo isso desde que tinha 10 anos. Não sei muito mais sobre ela. Sim, me perguntei "quem é mais mártir, Ellacuría ou Julia Elba", e seria terrível que os mártires jesuítas fizessem esquecer dessas duas mulheres que morreram assassinadas a 50 metros do jardim de rosas. Nesses dias, escrevi que "Ellacuría não viveu nem morreu para que o esplendor de sua figura opacasse o rosto de Julia Elba". Ellacu, este é o escrúpulo.

Mas Julia Elba e muitas mulheres salvadorenhas como elas me perdoarão, talvez até se alegrarão, pelo fato de que nesta carta eu te fale sobre o nosso Monsenhor, pois elas não têm ciúmes de uma pessoa muito querida. E eu a intitulei: "Dom Romero e tu". Minha intenção é ajudar as novas gerações, àqueles que não sobra orientação cristã e salvadorenha. Que saibam que uma vez houve um país e uma Igreja extraordinária: a de Dom Romero. E tu és um mistagogo de luxo para introduzir-nos em sua pessoa. Por isso, vou recordar como vocês dois se relacionaram.

As pessoas sabem que os dois foram eloquentes profetas e mártires. Mas gosto de lembrar outra semelhança importante sobre como começaram. Os dois receberam uma tocha cristã e salvadorenha e, sem discernimento algum, fizeram a opção fundamental de mantê-la ardendo. Monsenhor recebeu-a de Rutilio Grande na noite em que o mataram. E, morto Monsenhor, tu a retomaste. É verdade que tu já tinhas começado antes, mas após seu assassinato tua voz ficou mais poderosa e começou a soar mais como a do Monsenhor. Ouvi uma senhora dizer na UCA: "Desde que mataram o Monsenhor, ninguém aqui no país falou como o Pe. Ellacuría".

O que me interessa recordar e reforçar é que, em El Salvador, existiu uma tradição magnífica: a entrega e o amor aos pobres, o enfrentamento aos opressores, a firmeza no conflito, a esperança e a utopia que passavam de mão em mão. E, nessa tradição, resplandecia o Jesus do evangelho e o mistério de seu Deus. Não podemos dilapidar essa herança e devemos fazer com que ela chegue aos jovens.

O início de tua relação com Dom Romero não foi positiva. No começo dos anos 70, tu já eras conhecido como um perigoso jesuíta de esquerda por tua defesa da reforma agrária, o apoio à greve dos professores da Andes [Associação Nacional de Educadores Salvadorenhos] e a análise da fraude eleitoral de 1972. Mas com o teu livro "Teologia Política", de 1973, começaste a tocar temas mais explicitamente cristãos: salvação e história, o messianismo de Jesus, a missão da Igreja, violência e política... E mesmo que no país não se falasse ainda de teologia da libertação – e de como seus defensores eram perigosos –, os bispos se assustaram com o Ellacuría teólogo que emergia com força. E coube a Dom Romero escrever uma crítica de sete páginas sobre o teu livro. Fez isso em tom sério e educado, diferentemente da crítica que chegou de um teólogo de uma cúria romana, chamado Garofallo. O primeiro encontro entre vocês foi um choque.

As coisas seguiram seu curso. Tu, com ciência e profecia, e às vezes com humor e ironia. Em uma pequena revista da UCA, escreveste um breve artigo com este título: "Um bispo disfarçado de militar e um núncio disfarçado de diplomata" – os da minha geração saberão a quais hierarcas tu te referias. Não era o teu estilo, mas sim a tua convicção.

Assim chegou 1976. Dom Luis Chávez y González, benemérito e bom amigo, depois de 38 anos, deixava a responsabilidade da arquidiocese. Na ECA [revista da UCA], reunimo-nos para escrever um editorial sobre um assunto tão importante: "Quem será o novo arcebispo". Apoiamos Dom Rivera e nos distanciamos criticamente daquele que parecia ser um possível candidato: o bispo Oscar Arnulfo Romero. A eleição, certamente, deu errado para o Vaticano, e mais tarde tu escreverias que "Dom Romero não foi eleito para que fosse o que foi; foi eleito quase para o contrário".

Chegaram a conversão do Monsenhor e uma profunda mudança em tua relação com ele. Quando, em março de 1977, mataram Rutilio, tu estavas na Espanha e, de Madri, no dia 09 de abril, lhe escreveste uma carta, que chegou em minhas mãos, por casualidade, muitos anos depois. Publicamo-la em "Carta a las Iglesias", março de 2006.

"Tenho que vos expressar, em minha modesta condição de cristão e sacerdote de vossa arquidiocese, que me sinto orgulhoso de vossa atuação como pastor. Deste longínquo exílio, quero mostrar-vos minha admiração e respeito, porque vi, na ação de Vossa Eminência, o dedo de Deus. Não posso negar que vosso comportamento superou todas as minhas expectativas, e isso me produziu uma profunda alegria, que quero comunicar-vos neste sábado de gloria".

Ellacu, essa carta é um dos teus textos mais bonitos. Falas com Monsenhor com total verdade e te mostras em facetas desconhecidas para quem só te conheceu como professor e reitor. Depois do assassinato de Rutilio, lhe agradeces por "vossa valentia e prudência evangélicas diante de claras covardias e prudências mundanas", pelo acerto ao "ouvir todos, mas decidindo o que parecia ser mais arriscado a olhos prudentes". Referias-te à missa única, à supressão das atividades nos colégios católicos, a promessa do Monsenhor de não participar de nenhum ato oficial... Felicitas-lhe: "O senhor fez Igreja e fez unidade na Igreja". A maioria do clero, religiosos e religiosas se aglutinaram ao redor do Monsenhor. E tu voltas a lhe desejar no final: "Se conseguirdes manter a unidade de vosso presbitério mediante vossa máxima fidelidade ao evangelho de Jesus, tudo será possível".

Na carta, aparece a dialética evangélica e inaciana, recorrente em ti: "conseguistes não pelos caminhos da bajulação ou da dissimulação, mas sim pelo caminho do evangelho: sendo fiel a ele e sendo valente com ele". "Não poderíeis ter começado melhor a fazer Igreja". Eu também escrevi que, mesmo que tudo parecia ter começado muito mal para Monsenhor, tudo começava muito bem. E assinaste: "Este membro da arquidiocese, que agora se vê afastado contra a sua vontade".

Quando voltaste em 1978, te colocaste, com entrega e devoção, ao serviço do Monsenhor. Escreveste para a YSAX, a rádio do arcebispado, uma longa série de comentários à sua terceira carta pastoral, "A Igreja e as organizações políticas populares". Ajudaste-lhe a redigir a parte central sobre as idolatrias na quarta carta pastoral, "A Igreja na atual situação do país". Em suas últimas semanas, estiveste com ele na coletiva de imprensa depois da homilia dominical, e ele te dava a palavra quando lhe perguntavam sobre a situação política. Com ele estiveste na véspera de seu assassinato, depois daquela homilia irrepetível: "Em nome de Deus e em nome deste sofrido povo, cujos lamentos sobem até o céu, peço-lhes, rogo-lhes, ordeno-lhes, em nome de Deus: cesse a repressão!". E, no funeral, carregaste o caixão. Vemos-te com Walter Guerra, Jesús Delgado e Juan Spain.

O que fizeste pelo Monsenhor não foi simplesmente mais um de teus muitos serviços ao país. Também não o consideraste um serviço estratégico, dada a imensa influência de Monsenhor. Dom Romero chegou a ser para ti alguém muito especial, diferente de como havia sido Rahner ou Zubiri. Ele se meteu dentro de ti e tocou tuas fibras mais profundas. Eu tive essa sensação desde o começo. E ficou gravada para sempre em tua homilia na missa de funeral que tivemos na UCA. Nela, disseste: "Com Dom Romero, Deus passou por El Salvador".

Muitas vezes citei essas palavras, Ellacu. São muito tuas, pela precisão da linguagem e pelo peso do conceito. Conhecendo-te, estavas dizendo a verdade. E uma verdade teologal: neste El Salvador, massacrado e esperançado, teimoso e valente, cruel e generoso, sentiu-se a passagem do mistério. A passagem de Deus. Por isso, Dom Romero se converteu para ti em referência de Deus e em princípio e fundamento de tua teologia. Vou recordar disso brevemente.

Comecemos com a eclesiologia. O "povo de Deus" não era um tema qualquer e menos ainda quando o Vaticano II já estava em declive, e a hierarcologia voltava a ressurgir. Sobre ele, escreveste um artigo sistemático em 1983, mas antes, em 1981, tinhas escrito: "El verdadero pueblo de Dios, según Monseñor Romero". Não tentavas analisar as ideias de algum teólogo importante, mas sim ir ao fundo do problema a partir da fonte que tu tinhas mais à mão e que te parecia a mais frutífera.

Mencionaste quatro características do verdadeiro povo de Deus:

- A opção preferencial pelos pobres;

- A encarnação histórica das lutas do povo pela justiça e pela libertação;

- A introdução do fermento cristão nas lutas pela justiça;

- A perseguição por causa do reino de Deus na luta pela justiça.

Nem toda a novidade provinha do Monsenhor, mas a mais nova, por assim dizer, as três últimas características, provinham dele. Pelo menos, Dom Romero te fez aprofundar nelas.

Monsenhor te pôs na pista da "Igreja dos pobres", que nem sequer no Concílio teve êxito, apesar dos desejos de João XXIII, do cardeal Lercaro e de alguns poucos bispos. E certamente te inspirou a falar do martírio, realidade fundante para a Igreja, como a cruz de Jesus. Várias vezes citaste umas palavras escandalosas de Dom Romero: "Alegro-me, irmãos, que a Igreja seja perseguida. É a verdadeira Igreja de Cristo. Seria muito triste se, em um país onde está se assassinando tão horrorosamente, não houvesse sacerdotes assassinados. São o sinal de uma Igreja encarnada". Melhor e mais profundamente do que com muitos conceitos, Monsenhor define a Igreja a partir de duas relações essenciais: com o destino de Cristo e com o destino do povo. Alguém, com boa intenção, questionou uma vez o fato de que Dom Romero corresse tantos riscos, até de sua vida. Mas tu lhe respondeste: "Isso é o que ele tem que fazer". E isso é o que tu também fizeste com a tua vida. A eclesiologia não era um conjunto de conceitos tomados da realidade com alfinetes, mas sim surgidos dela.

Em cristologia, coincidiste com Monsenhor em muitas coisas. Só vou recordar uma, para mim a mais decisiva hoje, certamente no terceiro mundo, mas também no primeiro: ver Cristo no povo crucificado, considerar este como a continuação do servo de Javé. São hoje as centenas e milhares de milhões de pobres, famintos, oprimidos, mortos violentamente, massacrados, inocentes e indefesos, desconhecidos em vida e em morte. Com eles, comecei esta carta ao recordar de Julia Elba e Celina.

Em 1978, em preparação para Puebla, escreveste "El pueblo crucificado. Ensayo de soteriología histórica", em que analisas a realidade dos pobres e vítimas como o servo sofredor de Javé. Em 1981, em teu segundo exílio de Madri, escreveste "El pueblo crucificado como 'el' signo de los tiempos". No primeiro texto, reforças seu caráter salvífico. No segundo, seu caráter de revelação.

Dom Romero disse em 1977, em Aguilares, aos agricultores perseguidos e assassinados: "Vocês são o divino Transpassado". E, em uma homilia de 1978, mostrou sua alegria porque os estudiosos do Antigo Testamento não sabiam dizer se o servo, do qual Isaías fala, é "todo um povo" ou é "Cristo que vem libertá-los".

Não sei dizer "quem copiou quem" ou se aconteceu como com Leibnitz e Newton, que descobriram os fundamentos do cálculo infinitesimal independentemente um do outro. O que, sim, me parece certo é que vocês tiveram a mesma assombrosa intuição de equipar a humanidade sofredora com o crucificado e o servo de Javé. E, pelo que eu sei, só vocês dois. Isso não aparece em encíclicas, nem em concílios. Normalmente, também não nas teologias. E depois que vocês morreram, parece que não há vigor nem rigor para falar assim de um mundo que hoje está evidentemente crucificado.

E uma coisa mais. Em teu segundo exílio, escreveste outro breve texto ao qual deste muita importância: "Por qué muere Jesús y por qué lo matan". O título é mais do que uma demonstração de gênio. Trata-se de esclarecer o sentido transcendente dessa morte e de suas causas históricas. Em teologia, podem-se encontrar reflexões afins, mas não assim, certamente não com essa radicalidade, em textos oficiais da Igreja. Para o primeiro, é preciso ter presente, antes de tudo, o desígnio de Deus. Para o segundo, é preciso ter em conta a historicidade radical da vida de Jesus: defensor daqueles a quem os poderosos ofendem. Por essa razão, Jesus denunciou o poder, entrou em conflito com ele, perdeu e foi crucificado. Isso, tão evidente, costuma ser oficialmente silenciado – inclusive em Aparecida, um bom documento por causa de outros capítulos.

Dom Romero não silenciou isso. Na missa fúnebre de um dos sacerdotes assassinados, ele disse peremptoriamente: "Mata-se quem incomoda". E os que incomodavam não eram demônios ou poderes transcendentes, mas sim oligarcas, militares, órgãos de segurança, esquadrões da morte. Assim se entende o "por que mataram Jesus", como tu perguntavas.

Termino com a teologia, com Deus e com tua fé. Na primeira carta, te escrevi que a tua fé em Deus não pôde ser ingênua. Em 1969, falaste em Madri sobre as dúvidas de fé que Rahner levava com elegância – e entendi que dizias algo parecido sobre ti mesmo. Acredito que lutaste com Deus como Jacó, naqueles anos duros para a fé. E, aos teus 47 anos, Dom Romero "apareceu" a ti – e uso o termo "aparecer", opthe, conscientemente, para expressar o que houve nisso de inesperado, desorientador, questionador e bem-aventurado. Disso, só se pode falar com temor e terror, mas penso que, em contato com Monsenhor, tiveste uma experiência nova da realidade última, de Deus. E acredito que isso se notou em teu falar sobre Deus.

Escrevi que, para Jesus, Deus é "Pai" em quem se pode descansar, e que o Pai continua sendo "Deus", que não deixa descansar. Em Dom Romero, em sua compaixão para com os sofredores, sua denúncia para defendê-los, o amor sem arranjos, viste o Deus que é "Pai" dos pobres. Em sua conversão, em seu adentrar-se no desconhecido e no não controlável, em seu caminhar sem apoios institucionais eclesiásticos, em seu manter-se firme, fosse aonde o caminho fosse, viste o Pai que continua sendo "Deus". E talvez no Monsenhor também viste que, apesar de tudo, o compromisso é mais real do que o niilismo; o gozo, mais real do que a tristeza; a esperança, mais real do que o absurdo. Assim interpreto suas simples palavras: "Com esse povo, não custa ser um bom pastor". Nelas, surge a utopia.

Termino. Não era a primeira vez que te encontravas com alguém que ia influenciar importantemente em tua vida, como bem analisa Rodolfo Cardenal. No entanto, encontrar-te com Dom Romero significou algo diferente. E essa diferença radica no fato de que te encontraste com a profecia, com a entrega, a bondade do Monsenhor, mas sobretudo com a sua fé, o que configura toda a pessoa. Por isso, nunca te consideraste "colega" do Monsenhor. Nunca ouvi de ti, sendo tu de estilo crítico, uma crítica ao Monsenhor. E em teu nome e no da UCA, disseste que "Dom Romero já se havia adiantado a nós". E insististe: "Não há dúvida sobre quem era o mestre e quem era o auxiliar, quem era o pastor que marca as diretrizes e quem era o executor, quem era o profeta que desentranhava o mistério e quem era o seguidor, quem era o animador e quem era o animado, quem era a voz e quem era o eco". Dizias isso com total sinceridade.

"Dom Romero, um enviado de Deus para salvar o seu povo", escreveste. E o Monsenhor te falou sobre o que há, em Deus, de "mais aqui". Mas também te falou do que há, em Deus, de inefável, de mistério bem-aventurado, do que há, em Deus, de "mais além". "Nem o homem nem a história se bastam. Por isso, [o Monsenhor] não deixava de chamar à transparência. Em quase todas as suas homilias, saía este tema: a palavra de Deus, a ação de Deus rompendo os limites do humano". Dom Romero veio ser como o rosto de Deus em nosso mundo.

Ellacu, termino esta carta com as palavras com as quais terminaste teu último escrito de teologia. São para aqueles que não te conheceram, para todos os que te conheceram e especialmente para que ajudem que a Igreja retome o seu rumo.

"A negação profética de uma Igreja como o velho céu de uma civilização da riqueza e do império e a afirmação utópica de uma Igreja como o novo céu de uma civilização da pobreza é um clamor irrecusável dos sinais dos tempos e da dinâmica soteriológica da fé cristã historizada em homens novos, que continuam anunciando firmemente, mesmo que sempre às escuras, um futuro sempre maior, porque, além dos sucessivos futuros históricos, se vislumbra o Deus salvador, o Deus libertador".

Dom Vincenzo Paglia


Romero, santo pela liberdade

Dom Vincenzo Paglia, arcebispo de Terni, recém voltou de El Salvador. Lá naquele país de diversas belezas, os salvadorenhos vão agora às praças há meses. O que querem? Simplesmente, querem dar uma acelerada no processo de beatificação de Dom Óscar Arnulfo Romero. E sobre essa questão que envolve amor e liturgia, vão periodicamente às praças "para exigir que o Estado peça perdão publicamente pela morte assassina de Dom Romero". A reportagem é de Igor Man, publicada no jornal La Stampa, 13-11-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Fonte: UNISINOS


Como excelente diplomata, Dom Paglia diz e não diz, buscando tranquilizar um pouco todos. Romero foi nomeado arcipreste de San Salvador com a permissão das 14 famílias salvadorenhas que o consideravam um "padre alinhado". Mas um longo reconhecimento de fiéis de sua confiança o convenceu a descer à realidade – verdadeira –, e foi assim que a sua homilia dominical assumiu o papel de uma denúncia, mas cristã, de uma acusação dos parafascistas da Arena.

Em resumo: sob o impulso de uma opinião popular sempre mais forte, a homilia de Dom Romero se tornou uma espécie de apontamento da esperança, uma denúncia corajosa das intrigas do poder.

Nunca se havia visto a catedral transbordando em El Salvador, nunca a denúncia do celebrante foi tão participativa. O pequeno escritório de Romero na catedral se transformou em sucursal do Correio.

A quem lhe recomendava "prudência, prudência", Romero respondia sereno: "Mas no máximo poderão me tirar. E daí?". Embedidos de ódio, os neofascistas da Arena decidiram em um encontro mafioso que "apagariam a vela". E a morte de Romero foi marcado. No dia 24 de março de 1980, o major d’Aubuisson e dois assassinos irromperam na capela de uma clínica privada. Dom Romero não piscou e, exatamente enquanto elevava a hóstia da comunhão, o assassino disparou. Um só tiro, um só cartucho que acertou a veia jugular de Dom Romero.

O sacerdote curvou-se sobre si mesmo na vã tentativa de proteger a hóstia – e com ela entre os dedos, caiu. O seu sangue de agricultor manchou os paramentos.

A morte de Dom Romero foi o prelúdio, o longo prelúdio do retorno. Simplesmente para a liberdade. Teoricamente, a guerra prolongada saiu da porta de serviço, mas de fato não terminou.

El Salvador é um país mártir, porque, se é verdade que não se combate mais e que há um Parlamento etc., também é verdade que quem comanda são sempre as 14 famílias, habilíssimas em perpetuar uma espécie de pós-moderno medieval, em que imperam os senhores, e os agricultores labutam, labutam sempre, em troca de escassas mercadorias. E, lenta, aparece a justiça social.

Na sua última homilia na catedral, Dom Romero concluiu assim, com a voz destroçada de emoção: "Os Estados Unidos colocam as armas. A URSS coloca as armas. El Salvador coloca os mortos. Em nome de Deus: deixem-nos a sós".

No dia seguinte, 24 de março de 1980, o major d’Aubuisson o matava, durante a Elevação.

10/11/2009

Ignacio Ellacuría. Um pensador, negociador e cristão



No dia 09 de novembro de 2009, Ignacio Ellacuría, filósofo e teólogo jesuíta, assassinado como reitor da Universidade Centro Americana - UCA - de El Salvador, em 1989, completaria 79 anos. Ana Formoso, doutoranda em teologia e colaboradora do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, é autora do artigo "Na fragilidade de Deus a esperança das vítimas. Um estudo da cristologia de Jon Sobrino", publicado pelos Cadernos Teologia Pública, no. 29, que recorda a vida e o martírio de Ellacuría. O Instituto Humanitas Unisinos - IHU, celebrará a memória do martírio de Ignacio Ellacuría e companheiros e das duas mulheres, no dia 10 de dezembro de 2009, com a apresentação do debate "Memory and Its Strength: The Martyrs of El Salvador" [A memória e sua força: Os mártires de El Salvador], que irá ocorrer no Boston College, nos Estados Unidos, no dia 30 de novembro. Participam do debate Noam Chomsky, Jon Sobrino e J. Donald Monan.
Fonte: UNISINOS



No meio acadêmico, um importante filósofo e teólogo, na sociedade civil, um negociador para pôr fim à guerra, tudo isto por um homem que buscou a justiça junto com seu povo e sua comunidade acadêmica.

Ignacio Ellacuría, um homem que soube contribuir com as ciências, especialmente a filosofia e teologia, e, com lucidez, buscou junto à comunidade dar respostas aos desafios sociais de El Salvador. Não temos pessoas sozinhas, temos um grupo de pessoas que dedicaram tempo, estudo, reflexão, oração e escuta às pessoas mais injustiçadas. Como reitor, buscou conduzir a universidade com pesquisa, reflexão e, sobretudo, colaborar para resolver os problemas sociais.

Não se pode entender Ellacuría sem Xavier Zubiri e sem Karl Rahner. A filosofia de Zubiri ajudou a buscar sempre a relação que há entre a inteligência e a fé. A questão em Zubiri não consiste tanto em saber se nosso pensamento encontra algo que possa designar por Deus, mas em qual via concreta se coloca seu acesso e qual é o problema a que corresponde. As provas clássicas da existência de Deus se moviam em esquemas puramente objetivistas. Por isso, Zubiri sentiu a necessidade de uma nova fundamentação para o tema de Deus. Não é o espaço para um desenvolvimento do pensamento de Zubiri, mas compreender como este autor marcou o pensamento de Ellacuría. Para ele, o problema de Deus já está dado na realidade pessoal do homem. O homem descobre Deus a partir desta realidade e como meio de realização de seu viver. Desenvolve uma nova “via de religação”, da qual vislumbramos as verdadeiras consequências. Zubiri opõe-se a qualquer concepção de Deus como algo alheio ao mundo. Deus se manifesta no mundo, fundamentando a realidade última das coisas, e, ainda que racionalmente, é preciso estabelecer seu caráter transcendente. Trata-se de uma transcendência na realidade – nunca fora dela.

Karl Rahner (1904-1984) é considerado um dos maiores teólogos católicos do século XX. Seu pensamento se caracteriza pela seriedade do pensar, preocupou-se com definições de abertura ecumênica e diálogo inter-religioso. Os escritos de Ellacuría, de Sobrino e de Rahner refletem uma pergunta que tem que continuar sendo feita: O que é ser cristão/a e como se pode realizar esse estilo de vida com honestidade intelectual?

Zubiri, uma transcendência na realidade, Rahner escreveu um artigo memorável que “a realidade quer tomar a palavra”. Na expressão de Sobrino, se me permitem um jogo de palavras, se “a palavra se fez realidade (carne, sarx), a realidade quer fazer-se palavra” (Sobrino, p.76, 2007). Ellacuría insistiu que há sempre um sinal dos tempos que é principal: o povo crucificado. Este conceito tem um vigor conceitual hoje perdido na descrição da realidade, e, muitas vezes, banalizado. “Crucificado”, na realidade, tem a conotação de: a) conceitualmente morte, não simples dano, limitação ou carência; b) “provocar a morte” – não morte natural; c) uma “morte infame e injusta”; d) afinidade com Jesus e seu destino, importante a partir da perspectiva da fé, como o que se eleva à realidade última- teológica – a realidade de grande parte da humanidade .

A realidade dos povos crucificados nos interpela? A natureza que está sendo crucificada nos interpela? Assim podemos seguir fazendo-nos perguntas. O pensamento de Ellacuría nos interpela a olhar a realidade com honestidade intelectual e social.

Termino com as palavras de Ignacio Ellacuría que usou com precisão conceitual ao falar do que deve ser e fazer uma universidade:

A universidade deve encarnar-se entre os pobres intelectualmente para ser ciência dos que não têm voz, o respaldo intelectual dos que, na sua própria realidade, têm a verdade e a razão, embora, às vezes, seja à maneira de despojo, mas que não contam com as razões acadêmicas que justifiquem e legitimem sua verdade e sua razão” .

29/10/2009

As fotos do cardeal Rodé: uma meditação

O cardeal Franc Rodé, prefeito da Congregação para os Religiosos e a pessoa encarregada pelo Papa Bento XVI para conduzir a Investigação Apostólica das congregações religiosas femininas nos EUA, ordenou, no último mês de março, seis novos diáconos do Instituto de Cristo Rei e Soberano Sacerdote na casa mãe do instituto, em Gricigliano, próximo de Florença, na Itália. A reportagem é de Thomas C. Fox, publicada no sítio National Catholic Reporter, 28-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS


Olhando essas fotos, lembramo-nos da diversidade cultural, eclesial e sócio-psicológica que compõe a nossa Igreja. Ao viver, como nós vivemos, no início do século XXI, devemos reconhecer que somos produtos de uma mistura de influências e temperamentos pré-modernos, modernos e pós-modernos complexos e sem precedentes.

Olhando essas fotos, nos sentimos movidos a perguntar se o cardeal Rodé, que, de acordo com o perfil de John Allen, é uma pessoa encantadora e um produto de antigas forças europeias, eslovenas e anticomunistas, está, de fato, tão distante dos padrões culturais e sociais dos EUA contemporâneos que possivelmente não entenderia muito bem as vidas e o trabalho de nossas religiosas. O cardeal, cuja inclinação por uma Igreja pré-conciliar de estilo tradicional, monárquica e europeia está claramente evidente nestas fotos, disse a John Allen que o Vaticano II provocou "a maior crise na história da Igreja". Nossas religiosas dedicaram suas vidas para dar continuidade aos mandatos do concílio de serviço e reforma.

Olhando essas fotos, lembramo-nos de que o multiculturalismo é um ingrediente central em nossa Igreja e em nosso mundo hoje, que requer compreensão, paciência e tolerância especial. Também é verdade que um julgamento leva a outro julgamento, e é por isso que cada vez mais pessoas em nossas comunidades estão perguntando: "Quem exatamente é esse homem que foi encarregado de julgar as almas, as vidas, a dedicação e a fé de nossas religiosas?".

Olhando essas fotos, dificilmente podemos evitar a conclusão de que a Investigação Apostólica, da forma em que atualmente está estruturada e é desenvolvida, está tragicamente equivocada e pode causar um dano irreparável à nossa Igreja, a menos que mentes sábias encontrem uma forma de suspendê-la.










Leia mais no sítio New Liturgical Movement e veja mais fotos aqui.

Pe. Hans Küng

O Papa que pesca na margem da direita

Artigo do teólogo suíço-alemão Hans Küng, presidente da Fundação Ética Mundial, publicado no jornal La Repubblica, 28-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS


É uma tragédia: depois das ofensas já provocadas por Bento XVI aos judeus e aos muçulmanos, aos protestantes e aos católicos reformistas, agora é a vez da Comunhão Anglicana. Ela conta com 77 milhões de aderentes e é a terceira confissão cristã, depois da Igreja católica romana e da ortodoxa. O que aconteceu? Depois de ter reintegrado a antirreformista Fraternidade de São Pio X, agora Bento XVI quer engordar as fileiras reduzidas dos católicos romanos também com anglicanos simpatizantes de Roma. Os sacerdotes e bispos anglicanos poderiam se converter mais facilmente à Igreja católica, mantendo seu próprio status, também de casados. Tradicionalistas de todas as Igrejas, uni-vos – sob a cúpula de São Pedro! Vejam: o pescador de homens pesca principalmente na margem direita do lago. Mas ali a água é turva.

Esse ato romano representa nada menos do que uma drástica mudança de rota: longe da consolidada estratégia ecumênica de diálogo direto e de uma verdadeira reconciliação. E rumo a uma pirataria não ecumênica de sacerdotes, aos quais é até dispensada a obrigação medieval de celibato, só para lhes tornar possível um retorno a Roma sob o primado papal. Claramente, o atual bispo de Canterbury, Dr. Rowan Williams, não estava à altura da sagaz diplomacia vaticana. Ao querer se galardoar, o Vaticano aparentemente não compreendeu as consequências da pesca papal em águas anglicanas. Caso contrário, não teria assinado o comunicando minimizante do arcebispo católico de Westminster. As presas na rede de Roma não entendem que, na Igreja católica romana, serão só padres de segunda classe, e que os católicos não podem participar de suas funções? O comunicado faz referência descaradamente aos documentos realmente ecumênicos da Anglican Roman Catholic International Commission (Arcic), elaborados durante anos e anos de laboriosas negociações entre o romano Secretariado para a União dos Cristãos e a anglicana Conferência de Lambeth: sobre a Eucaristia (1971), sobre o ofício e a ordenação (1973), assim como sobre a autoridade na Igreja (1976/81). Porém, os especialistas sabem que esses três documentos, subscritos em seu tempo por ambas as partes, não estão voltados à pirataria, mas sim à reconciliação.

Esses documentos de verdadeira reconciliação oferecem, de fato, a base para o reconhecimento das ordenações anglicanas, das quais o Papa Leão XIII, em 1896, havia negado a validez com argumentações pouco convincentes. Da validade das ordenações anglicanas, deriva também a validade das celebrações eucarísticas anglicanas. Seria possível, assim, uma recíproca hospitalidade eucarística, uma intercomunhão, um lento processo de unificação entre católicos e anglicanos.

Mas a vaticana Congregação para a Doutrina da Fé, à época, fez com que esses documentos de reconciliação desaparecessem o mais rápido possível nos calabouços do Vaticano. "Trancar na gaveta", diz-se. "Muita teologia künguiana", recitava, à época, um comunicado reservado da agência de imprensa católica KNA. Com efeito, eu havia dedicado a edição inglesa do meu livro "A Igreja Católica" (Objetiva, 2002) ao então arcebispo de Canterbury, Dr. Michael Ramsey, na data de 10 de outubro de 1967, quinto aniversário de abertura do Concílio Vaticano II: na "humilde esperança de que nas páginas deste livro se apresente uma base teológica para um acordo entre as Igrejas de Roma e de Canterbury".

Ali se encontra também a solução para a espinhosa questão do primado do papa, que há séculos divide essas duas Igrejas, mas também divide Roma das Igrejas do Leste e das Igreja reformistas. Uma "retomada da comunidade eclesial entre a Igreja católica e a Igreja anglicana seria possível", se, "de um lado, fosse garantido que a Igreja da Inglaterra pudesse manter a sua própria ordem eclesial sob o primado de Canterbury e, de outro, que a Igreja da Inglaterra reconhecesse o primado pastoral do sólio de Pedro como instância superior de mediação e conciliação entre as Igrejas".

"Assim", esperava eu à época, "do império romano nascerá um Commonwealth [corpo, comunidade] católico!".

Mas o Papa Bento quer restaurar absolutamente o império romano. Não faz nenhuma concessão à Comunhão Anglicana, pretende, ao contrário, manter para sempre o centralismo medieval romano – mesmo se impeça um acordo das Igrejas cristãs sobre questões fundamentais. O primado do Papa – depois do Papa Paulo VI, é preciso admitir, a "grande rocha" no caminho rumo à unidade da Igreja – não age aparentemente como "Pedra da unidade". Volta ao auge o velho convite ao "retorno para Roma", agora por meio da conversão, sobretudo de sacerdotes, possivelmente em massa. Em Roma, fala-se de meio milhão de anglicanos com 20 ou 30 bispos. E os outros 76 milhões? Uma estratégia que se demonstrou falimentar nos séculos passados e que conduzirá, no melhor dos casos, ao nascimento de uma mini-Igreja anglicana "unida" a Roma em forma de dioceses pessoais (não territoriais). Mas quais são as consequências hodiernas dessa estratégia?

1. Um ulterior enfraquecimento da Igreja anglicana: no Vaticano, os antiecumênicos jubilam pelo influxo de conservadores; os liberais, na Igreja anglicana, exultam pelo êxodo de simpatizantes católicos perturbadores. Para a Igreja anglicana, essa cisão implica em uma ulterior corrosão. Ela já sofre agora sob as consequências da eleição para bispo, desnecessariamente concretizada nos EUA, de um pároco reconhecidamente homossexual – com a conseqüente aceitação da divisão da própria diocese e de toda a comunidade anglicana. A corrosão foi reforçada pela atitude discordante da cúpula eclesiástica com relação aos casais homossexuais: alguns anglicanos aceitariam sem mais o registro civil com amplas consequências jurídicas (tipo direito de sucessão) e com eventual benção eclesiástica, mas não um "casamento" (termo reservado, há milênios, à união entre homem e mulher) com direito de adoção e consequências imprevisíveis para os filhos.

2. Desorientação geral dos fiéis anglicanos: o êxodo dos sacerdotes anglicanos e a nova ordenação na Igreja católica proposta a eles levantam, para muitos fiéis (e pastores) anglicanos, uma grave interrogação: a ordenação dos sacerdotes anglicanos é válida? E os fiéis teriam que se converter à Igreja católica junto com o seu pastor? O que será dos imóveis eclesiásticos e dos introitos dos pastores?

3. Desprezo do clero e do povo católico. A indignação com a persistência do não às reformas se difundiu também entre os fiéis membros da Igreja. Depois do Concílio, muitas conferências episcopais, inumeráveis pastores e crentes pediram a anulação da proibição medieval do casamento para os sacerdotes, que subtrai párocos já quase à metade das nossas paróquias. Mas só gritam contra a recusa persistente e obstinada de Ratzinger. E agora os padres católicos devem tolerar a seu lado pastores casados convertidos? O que devem fazer os padres que desejam o casamento: talvez fazer-se primeiro anglicanos, casar e depois reapresentar-se?

Como no cisma entre o Oriente e o Ocidente (século XI), aos tempos da Reforma (século XVI) e no Concílio Vaticano I (século XIX), a fome de poder de Roma divide a cristandade e danifica a sua Igreja. Uma tragédia.


25/10/2009

Mary E. Hunt

A proposta indecente do Vaticano aos anglicanos: um escândalo teológico

"Roma não muda nem uma vírgula com a chegada dos anglicanos dissidentes. Ela mantém em seu lugar o seu clero celibatário, enquanto acolhe anglicanos casados com gosto." Essa é a opinião da teóloga norte-americana Mary E. Hunt, publicada no sítio Religion Dispatches, 22-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Em setembro deste ano, a teóloga esteve na Unisinos durante a programação do X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades, proferindo a conferência "Narrar Deus hoje: uma reflexão a partir da teologia feminista".
Fonte: UNISINOS


O novo esquema do Vaticano para atrair anglicanos conservadores descontentes ao rebanho deve ter pego o arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, desprevenido, mas os católicos não ficam surpresos com nada do que Roma faz para ampliar a sua cota de mercado. O clero conservador, cuja oposição à ordenação de mulheres e aos indivíduos LGBT o motivou a se separar da Comunhão Anglicana, é agora bem-vindo a se mudar para o catolicismo.

Deixemos a história lembrar esse escândalo teológico pelo que ele é. Vendido por Roma como um passo adiante nas relações ecumênicas com uma comunhão-prima, ele é, de fato, a união de dois grupos unidos em sua rejeição às mulheres e aos indivíduos "queer" como indignos para a liderança religiosa.

Uma vindoura Constituição Apostólica irá pronunciar os detalhes: os anglicanos contra a ordenação de mulheres e de pessoas LGBT (como o bispo Gene Robinson, por exemplo) estão em plena comunhão com Roma. Por que se incomodar, então, com requerimentos de conversão individual ou papeladas supérfluas? Esses anglicanos podem até fazer a transição enquanto congregações ou dioceses inteiras, se preferirem. Eles serão católicos, mas, assim como os católicos de rito oriental, eles o farão a seu modo. Eles podem trazer seus próprios incensos e sinos e o seu Livro de Oração Comum, e até seus próprios padres e bispos, que irão presidir os "Ordinariatos Pessoais", que irão funcionar como dioceses. Venham como vocês são, sejam bem-vindos para discriminar contra os conteúdos do seu coração em nome de Deus.

Roma não muda nem uma vírgula com a chegada dos anglicanos dissidentes. Ela mantém em seu lugar o seu clero celibatário, enquanto acolhe anglicanos casados com gosto. Eu prevejo mais do que uma pequena consternação nas fileiras romanas com relação a isso. As políticas atuais permitem que os pastores episcopais e luteranos casados pulem a cerca com sua família a reboque. Porém, os homens católicos romanos que desejam se casar, independentemente das mulheres católicas romanas que poderiam até concordar com o celibato, são proibidos de ser ordenados. Nenhuma autoridade católica romana parece ser capaz de dizer de uma forma franca e direta por que isso é assim. Eles murmuram algo sobre tradição e certas distinções. Mas a retórica se enfraquece crescentemente enquanto eles defendem o indefensável contra a sua própria prática. Isso não é bonito.

Roma mantém sua liturgia e teologia completamente intactas. A educação teológica continua a mesma, com o acréscimo de pequenos grupos de formação para candidatos anglicanos ao sacerdócio, que podem apreciar seu próprio "patrimônio", conseguindo também uma boa dose de pensamento romano. De nenhuma forma o Vaticano se engaja em questões que conduzam à Reforma Inglesa do século XVI. Ao invés, Roma pretende ser flexível e moderna com relação a tudo isso, graciosa e complacente como uma raposa. Quando as lutas por propriedades começarem, eu prevejo que as gentilezas abrirão caminho para algumas sérias disputas, e nós veremos como Roma não consegue ser complacente.

Denominações são negócios, acima de tudo, e, dessa forma, elas prestam tanta atenção aos resultados finais quanto aos seus ensinamentos. Talvez mais aos primeiros. Nesse caso, a oportunidade de mais fácil acesso são os anglicanos britânicos que ainda não descobriram como se reorganizar à luz de suas mudanças de denominação. O grupo norte-americano liderado pelo Rev. Martyn Minns, da Virgínia, disse que eles estão muito bem, obrigado, ajeitando suas próprias estruturas para que não precisem se converter.

Alguém pode se perguntar quanto tempo eles poderão resistir ao charme de Roma. Imaginem as oportunidades imobiliárias, já que as igrejas católicas romanas fecham, e os anglicanos conservadores precisam de prédios. Pensem na solução brilhante para a falta de sacerdotes, com os padres anglicanos garantidamente fiéis às normas substituindo os rapazes romanos, assim que eles morrerem e/ou pensarem por si mesmos. Conjecturem a visão de uma grande massa com uma grande quantidade de ministros do altar e incenso tão abundante, que faz com que os paroquianos até esqueçam que houve uma vez um Vaticano II. Para os mais "católicos" entre os dissidentes anglicanos, é um casamento feito nos céus. Mas os anglicanos conservadores mais evangélicos podem considerar que esse é o seu pior pesadelo.

Como prevenir que outras denominações sigam a linha de Roma? Por exemplo, e se a Comunhão Anglicana estabelecer uma ala católica, em que aqueles católicos romanos que acreditam na ordenação de mulheres e de um clero de casais de mesmo sexo podem ser anglicanos de rito católico romano? Os Menonitas podem criar um rito católico para aqueles que os seguem em questões de paz, resultando nos menonitas católicos. Eu duvido disso. É mais provável que Roma decida que alguém nem precisa ser cristão. Essa discriminação contra mulheres e gays é um elo comum suficiente para criar alguns católicos de rito muçulmano, por exemplo. As permutas são infindáveis, mas o resultado é o mesmo: uma perversão de tudo o que o movimento ecumênico representou nos últimos cem anos. Os cristãos ecumênicos tentaram aprender sobre as tradições uns dos outros e encontrar pontos positivos de acordo – não pequenos espaços de preconceito compartilhado.

Eu sinto muito por Rowan Williams se ele não sabia contra o que estava quando se envolveu nas relações bilaterais com Roma, só para estar sujeito à sua traição. Cercado por todos os lados em sua própria comunhão, ele agora preside o potencial êxodo de alguns de seus membros que irão encontrar, na nova dispensa, um lugar confortável para viver suas ideias antiquadas de humanidade.

Eu apenas espero que Williams e companhia se consolem com o fato de que estão em boa companhia entre os colegas ecumênicos que respeitam as tradições uns dos outros, compreendem as dinâmicas das disputas internas e resistem à tentação de lucrar com os problemas dos outros. Roma, por outro lado, está em uma categoria – mesmo que baixa – só dela.
Para ler mais:
Primaz anglicano não considera a decisão católica um ''ato de agressão''
Ida e volta: 20 padres católicos espanhóis passaram para a Igreja Anglicana em 2009
Bispo anglicano questiona criação romana de prelazias pessoais
Relações anglicano-católicas: nem diálogo, nem ecumenismo
Ainda sobre os anglicanos. Testemunhos e comentários
Bento XVI e a restauração da identidade católica. Entrevista com John L. Allen Jr.
Igreja Anglicana. Pelos caminhos de Newman e Blair
Vaticano anuncia que irá acolher anglicanos conservadores dissidentes
Papa aceita padre anglicano casado e anuncia visita
Roma faz concessões a quem aderir à Igreja
''Se a pessoa quer sair, deve ter suas razões'', afirma bispo anglicano
Anglicanos, evitada a ruptura. Mas permanecem as distâncias
Roma faz concessões a quem aderir à Igreja

22/10/2009

Leonardo Boff

Querendo ser Deus?
Fonte: UNISINOS


Rose Marie Muraro é uma mulher impossível. Com extrema limitação de vista e de saúde escreveu 35 livros e editou cerca de outros 1600. Foi pioneira do feminismo brasileiro. Seu estudo sobre a sexualidade da mulher brasileira, publicado pela Vozes de Petrópolis se transformou num clássico seja pela metodologia seja pelas categorias de análise.

Formada em física, sempre se preocupou com a tecnologia e sua incidência no destino humano. Agora, no avançado dos anos e após muitas pesquisas e manejando mole imensa de fontes, informações e autores nos entrega um livro-síntese com o titulo Os avanços tecnológicos e o futuro da humanidade: querendo ser Deus? É uma publicação da Editora Vozes de Petrópolis da qual foi por 17 anos diretora editorial.

O subtítulo Querendo ser Deus? define a perspectiva de sua análise e ao mesmo tempo faz ecoar uma denúncia contra o tipo de ciência e de tecnologia dominantes na história. Na verdade, faz um soberano rastreamento histórico da tecnologia desde os alvores da humanidade quando há mais de dois milhões de anos surgiu o homo faber, aquele que, por primeiro, utilizou o instrumento para se impor à natureza, passando pelos vários períodos históricos com suas respectivas revoluções até chegar aos tempos contemporâneos da engenharia genética, da robótica, da nanotecnologia, da biologia sintética para culminar na fusão entre homem e máquina.

O que Rose nos mostra, ao longo de seu livro, é o calvário da Terra e a lenta e progressiva crucificação da vida e da natureza através do poder da tecnociência, posta a serviço da vontade de poder na sua concretização mais crua e cruel no capital/dinheiro.

Mas nem sempre foi assim. Primitivamente o saber e a técnica estavam a serviço da solidariedade e da partilha, atendendo as demandas humanas e aliviando o peso da vida. Mas do momento em que surgiu a moeda e ela se fez a mediação exclusiva para todas as trocas e se transformou ela mesma em mercadoria com preço (juros) se produz uma perversa revolução. Passa-se da cooperação para a competição, do cuidado para a agressividade. O que vige então é o ganha/perde e não o ganha/ganha. A sociedade é conflitiva com exércitos, muitas guerras e grandes mortandades Os senhores do dinheiro assujeitam a si as pessoas, controlam a sociedade e decidem que saber e que técnica cabe desenvolver para reforçar seu poder. Não se produz para a vida mas para o mercado. Não se inventa para a sociedade mas para o lucro.

O atual projeto da tecnociência acelerou enormemente a história. Em cem anos a humanidade caminhou mais do que nos dois milhões de anos anteriores. Esta velocidade estonteou a mente e está gerando uma verdadeira mutação humana, somente comparável àquela ocorrida na evolução biológica multimilenar. Cientistas projetam introduzir nanopartículas na corrente sanguínea do cérebro para gestar uma inteligência supra-humana. Emergeria assim um híbrido de ser humano e máquina, bifurcando a humanidade entre os melhorados e os não melhorados.

É contra esse intento que se insurge Rose Marie Muraro, pois ele configura suprema arrogância e atualização da antiga tentação bíblica do sereis como Deus.

O ser humano, por mais que queira, jamais superará os limites de sua natureza. Só uma ciência com consciência, servirá à vida e garantirá o futuro da Terra. A autora propugna por moedas complementares, por um consumo compassivo e reciclável, por uma revolução radical de dentro para fora e de baixo para cima, no jogo do ganha/ganha, como forma de sair com êxito do cipoal em que nos enredamos. A frase final de seu brilhante livro é esperançadora: “Quando desistirmos de ser deuses poderemos ser plenamente humanos, o que ainda não sabemos o que é mas que intuímos desde sempre”.

21/10/2009

Pe. Manfredo A. de Oliveira

A urgência de novo padrão civilizatório
Fonte: Paróquia de Santo Afonso/Fortaleza-CE




O presidente do IPEA, o economista Márcio Porchmann, tem insistindo em seus diversos pronunciamentos através do Brasil na urgência de pensar em novas bases um projeto de desenvolvimento para a o país. Sua tese de base é que vivemos hoje uma situação profundamente diferente da que serviu de referência para os projetos de desenvolvimento pensados até agora. Na realidade se tratou para nós no passado de passar de uma sociedade rural para uma sociedade urbano-industrial o que implicava que o eixo do projeto fosse o processo de industrialização.

Hoje estamos passando de uma sociedade industrial para uma sociedade pós-industrial. Alguns fatos importantes nos ajudam a compreender o que está em jogo. Atualmente no Brasil, de cada dez empregos gerados, sete a oito são empregos no setor dos serviços e a forma do exercício do trabalho neste setor é profundamente diferente do trabalho na indústria e na agricultura. Fundamental neste contexto é que esta forma de trabalho está vinculada a novas formas de gestão que estão produzindo uma enorme intensificação do trabalho que faz com que se trabalhe cada vez mais e fora do local de trabalho.

A novidade aqui é a produtividade imaterial no sentido de que se trata de um trabalho não materializado, não tangível, com base cada vez mais forte no conhecimento e cujo salário é reajustado de acordo com a meta da produção e das metas de venda. A impressão que se passa ao trabalhador é que ele é uma espécie de sócio do empreendimento uma vez que seu salário depende da evolução do faturamento. Esta produtividade imaterial está gerando grandes parcelas de riqueza que não está sendo discutida, contabilizada e muito menos repassada para os salários o que significa dizer que estamos vivendo uma fase do capitalismo de gigantesco aumento da concentração de riqueza, marcada por um processo de fusão que não vai permitir a existência de mais de quinhentas grandes corporações transnacionais capazes de dominar qualquer setor da atividade econômica. Estamos num mundo em que fica claro que o que realmente importa não são as pessoas, nem os países, mas as grandes corporações. Nesse novo contexto, as instituições criadas no pós-guerra para administrar países simplesmente não servem mais. No entanto, aqui está para ele o grande desafio de nosso tempo: esta nova forma de constituição da sociedade pós-industrial, sociedade de serviços e de conhecimento, está gerando um ganho de produtividade que permite construir um novo padrão civilizatório.

No entanto, o Brasil está com muita dificuldade para passar para este novo estágio de desenvolvimento porque ainda não realizou tarefas que foram indispensáveis nos países que se modernizaram. O sinal mais claro disto é o Brasil não ter realizado as reformas básicas que foram fundamentais para a consolidação de uma sociedade industrial entre as quais a reforma agrária e, sobretudo, a reforma tributária. Na realidade, diz ele, os ricos vivem aqui muito melhor que a classe média e os ricos nos Estados Unidos e na Europa porque aqui eles não pagam impostos. E lá não existe essa massa de serviçais. No Brasil, as famílias de classe média e ricas têm, em média, 13 serviçais à sua disposição para prestar serviços, mais de 20 milhões de pessoas, um exército com remuneração extremamente baixa. Por que é possível ir para a churrascaria no Brasil e comer bem pagando preços módicos? Porque os que lá trabalham, têm remunerações extremamente baixas. O que chama atenção é que viabilizar e internalizar esse padrão de consumo só é possível com um sistema tributário que concentra renda, que tira dos pobres e dá para os ricos e com um Estado que se organizou para atender fundamentalmente os ricos, o andar de cima da sociedade. Esse andar de cima tem tudo. Tem banco público, tem sistema de tecnologia, tem compras públicas, ou seja, montou-se uma estrutura para sustentar os de cima.

18/10/2009

Entrevista - Hans Küng

''Vivi sete vidas. Não tenho medo de morrer''.

Nesta longa entrevista à revista alemã Stern, o teólogo alemão Hans Küng é confrontado pelo entrevistador sobre suas convicções de fé e teológicas. Há 20 anos de sua "missio canonica" - a autorização para o ensino da teologia católica - ter sido revogada pela Congregação para a Doutrina da Fé, devido às suas críticas a João Paulo II, Küng encara também o tema da morte e avalia a sua trajetória de vida. A reportagem é de Arno Luik, publicada na revista alemã Stern, 15-10-2009. A entrevista publicada em alemão, foi traduzida do italiano por Moisés Sbardelotto.
Fonte: UNISINOS


Senhor Küng, tenho uma tia com 98 anos que tem um grave problema: ela tem certeza que vai para o paraíso e irá encontrar lá seu marido, filhos e conhecidos, mas se questiona em que estado estarão: jovens, velhos, doentes, sãos?

Entendo que a sua tia tenha tais preocupações. Não se sabe o que pode nos esperar além da porta da morte. Pessoalmente, não posso e não quero imaginar como é o paraíso. Toda pessoa gosta de imaginar, mas deve saber que são só suas imagens. Vivemos em uma época posterior a Copérnico e a Darwin - e portanto não podemos mais imaginar o paraíso como fizeram, por exemplo, Michelangelo e os pintores da Idade Média e do Barroco. Eu não acredito nessas representações simplistas do paraíso, segundo as quais ficaremos sentados em uma cadeirinha de ouro cantando "aleluia".

O Papa Bento XVI acredita seguramente que no além, de algum modo, todos estão sentados juntos. Há não muito tempo, ele dizia que seu antecessor, João Paulo II, estava escorado na sacada da casa do Senhor olhando-nos: então, há um morto que olha lá de cima.

Essa é uma representação surpreendentemente ingênua. O Papa se expressa às vezes de maneira pré-moderna e popular - uma herança da sua fé bávara agrícola. Naturalmente, ele também sabe que o paraíso não é uma casa em cima das nuvens com janelas do céu. Os cristãos iluminados entendem que, no além, nenhum cadáver é ressuscitado, mas que - como dizemos na liturgia - ocorre uma total transformação do modo de ser. Estou curioso para descobrir como será no além.

Senhor Küng, o senhor certamente está desiludido com a sua vida aqui na terra.

Como assim?

O senhor escreveu mais de 60 livros, mais de 30 mil páginas e...

Trabalho com muito prazer. Com toda a modéstia, acredito ter produzido algo que torna o cristianismo, a religião, a ética novamente compreensíveis ao homem moderno.

No entanto, o seu ardor...

Não fui e não sou um fanático, nem um santo. Escrevo para as pessoas que estão em busca.

Apesar do seu compromisso, desde 1989 as duas maiores Igrejas na Alemanha perderam mais de sete milhões de fiéis, e na oração das quartas-feiras em Roma participam anualmente dois milhões e meio de pessoas a menos com relação a alguns anos atrás com João Paulo II. O senhor consumiu seus dedos escrevendo, mas inutilmente.

Não. Tive êxito! Um número incalculável de pessoas me escreve - diariamente - que eu fui uma ajuda para elas. Eu me tornei, involuntariamente, um porta-voz da leal oposição à sua Santidade. Um porta-voz que é levado a sério - até pelo próprio Papa. Estou presente dentro e fora da Igreja. Sem mim, muitos teriam abandonado a Igreja. Muitos me dizem: "Enquanto o senhor resistir dentro da Igreja, eu também resisto".

No entanto, o senhor perdeu a sua batalha. O seu antagonista Ratzinger...

Não é o meu antagonista, e a minha profissão não é crítico do Papa. Sou um reformador, não um subversivo. E não suporto ser sempre chamado de rebelde da Igreja ou...

O seu antagonista se tornou Papa, entrou na história. O senhor será só uma nota de rodapé...

É um desrespeito o que você está dizendo. Você não pode ver o futuro, você...

Mas será assim!

Você acredita? Como uma pessoa entra na história só a própria pessoa decide. Não importa a função, nem o poder. Um exemplo: Tomás de Aquino - não quero me colocar à sua altura - renunciou voluntariamente a qualquer cargo importante na Igreja. O Papa Inocêncio III, seu contemporâneo cultíssimo, foi o mais poderoso de todos os papas. Você conhece Inocêncio III? Não. Esse papa, poderosíssimo em seu tempo, é uma nota de rodapé, mesmo que ainda importante para os historiadores. Mas Tomás de Aquino é constantemente citado ainda hoje como uma autoridade. Não, não me sinto um perdedor.

É claro que o senhor deve dizer e deve ver assim.

Certamente eu vejo assim! Mas há uma outra coisa que entristece na vida: que Joseph Ratzinger, que, em 1966, eu chamei para a Universidade de Tübingen, não continuou no mesmo caminho da reforma, como eu fiz. Então, provavelmente temos hoje essa divisão da Igreja católica entre Igreja alta e Igreja baixa. Eu represento a Igreja baixa; ele, a Igreja alta. Todo o meu trabalho estava voltado para que a Igreja alta mudasse. E nisso, e aqui você tem razão, eu tive só um sucesso limitado. Mas quem venceu uma batalha ainda está longe de ter vencido a guerra. Eu acredito que a atual política do Vaticano é um fiasco. A tentativa de empurrá-la novamente para trás, para a Idade Média, a esvazia. Não se pode trazer os velhos tempos de volta à vida!

Mas, diga-me, por que 200 anos depois do Iluminismo ainda se deveria acreditar em Deus?

Sim, justamente como iluminista, eu lhe digo: existem milhares de motivos para não acreditar.

Nisso o senhor tem razão.

Diante da miséria do mundo e da própria vida, pode-se duvidar de Deus ou confiar em Deus. Não há nenhuma prova estritamente científica a favor de Deus. A sua existência não pode ser fundamentada em argumentos logicamente convincentes. Justamente segundo Immanuel Kant: a razão pura teorética fora do tempo e do espaço não é competente. Por isso, a existência de Deus não pode ser baseada em argumentos logicamente convincentes.

Sério?!

Não brinque. Você certamente ainda tem em mente, de um lado, a sua fé de criança, mas, de outro lado, a sua razão também não tem competência na questão da fé. A existência de Deus é uma questão de confiança razoável.

Confiança razoável? Parece-me ser, pelo contrário, irrazoável, e acho que Mark Twain tinha razão: "A fé consiste em crer em algo que se sabe que não é verdade".

Exatamente uma péssima frase de espírito. Porém, eu lhe respondo muito seriamente com uma frase da Carta aos Hebreus: "A fé é fundamento das coisas que se esperam e prova daquelas que não se veem". Portanto, apesar das suas dúvidas há milhares de motivos pelos quais uma pessoa - apesar de todas as contrariedades da vida - pode acreditar em Deus.

Diga-me um.

Sobre isso, justamente, recém escrevi um livro inteiro: "Quello in cui credo" ("Aquilo em que creio", em tradução livre). A fé é sobretudo um problema de confiança de fundo. Confiança na vida. Gostaria de convidá-lo a admitir Deus pelo menos como hipótese. Tome a questão filosófica mundial: por que uma coisa existe no lugar de não ser, ou a inexplicável origem das fundamentais constantes da natureza ou da velocidade da luz. Mas também o problema do infinito na matemática, os rastros da transcendência na música - tudo isso pode ser um convite a crer em Deus.

O cientista Richard Dawkins lhe responderia a essas palavras que ressoam tão belas...

... Eu diria, ao invés, que ressoam tão verdadeiras!

Ele diria: todas as religiões ensinam coisas sem sentido e são perigosas para a humanidade.

Não me fale aqui desses novos ateus! Dawkins é um ideólogo que reage a uma imagem de Deus superada e argumenta de modo extremamente polêmico, sem porém levar a novas consequências. É um estudioso de ciências naturais, sem abertura a problemas filosóficos. Eu me ocupei dos grandes ateus clássicos, analisei Feuerbach, Marx, Nietzsche, Freud. Eles constituem um desafio para mim, não esse...

"A religião", diz Marx, "é o suspiro da criatura oprimida, a alma de um mundo sem coração, o espírito de situações sem espírito. É o ópio do povo. A abolição da religião enquanto felicidade ilusória do povo é a condição necessária para a sua verdadeira felicidade: a condição necessária para renunciar às ilusões da sua situação, a condição necessária para renunciar a uma situação que precisa de ilusões".

Marx tem razão: a religião pode ser o ópio do povo. A religião pode ser um meio de aquietamento e consolação social. Mas não deve ser isso. As análises de Marx também expressam, talvez contra a sua vontade, algo positivo, isto é, que a religião pode ser muito mais - um protesto contra as condições que temos, protesto contra as circunstâncias por causa das quais sofremos.
Essa é a uma interpretação arriscada. "A crítica da religião", diz ainda Marx, "é o germe da crítica do vale de lágrimas do qual a religião é a auréola".

Religião só reverbera? Nisso, Marx - como Feuerbach - provoca um curto-circuito. A religião é mais do que uma projeção. Como a fé, a esperança e o amor, ela não se exaure só no fato de fazer suportar a miséria dos homens consciente ou resignadamente! Não, a religião pode ser um motivo excepcionalmente forte, como diz Marx, não só para interpretar o mundo de forma diferente, mas para mudá-lo.

Meu Deus, mas que mundo o seu Deus criou. Enquanto nós estamos aqui falando, crescem sem parar as montanhas de cadáveres. A cada cinco segundos uma criança com menos de 10 anos morre de fome ou de sede. Estamos falando de míseros trinta minutos - 360 crianças mortas!

Por que Deus não impediu o mal? O filósofo grego Epicuro já volta essa pergunta contra a religião no ano 300 a.C. Mas talvez devemos nos perguntar antes: por que os homens não impediram o mal? Com relação ao mal, toda pessoa que crê em um Deus bom e vivo é confrontado neste mundo a um mistério que...

O senhor chama de mistério a morte de crianças pela fome?

Não. O mistério é por que Deus não impediu o mal. A dor imerecida de crianças não pode ser justificada com nenhuma argumentação. "Por que sofro? Essa é a rocha do ateísmo" é dito na tragédia de Büchner "A morte de Danton". Sim, por que sofremos? Essa é a pergunta original do homem. Você, senhor Luik, sabe dar uma resposta?

O senhor, professor Küng, o senhor é o cristão crente. Eu espero ansiosamente a sua resposta.

Que não é fácil. Também pertence ao mistério por que os homens não fazem mais contra a dor. De todos os modos, não podem atribuir toda a culpa a Deus. A humanidade, justamente no "avançado" século XX, experimentou o mal em uma medida até então desconhecida: extermínios de Estado, Auschwitz, a industrialização do massacre. Como Deus pôde permitir isso? O mistério do sofrimento não pode ser explicado com os meios da razão.

Muito fácil.

Nem por meio da psicologia, nem por meio da filosofia, nem por meio da moral a escuridão do sofrimento se deixa transformar em luz. Deus permanece incompreensível.

Senhor Küng, além das palavras difíceis: o seu Deus estava em Auschwitz?

Palavras difíceis? Deus não é responsável pelo horror do holocausto. Certamente, se Deus existe - e eu acredito nisso -, então Deus estava também em Auschwitz.

Mas que Deus é esse que está em Auschwitz e não impede Auschwitz?

Esse é um grito de protesto que eu compreendo. E é minha convicção que a monstruosa realidade de Auschwitz não pode ser liquidada mesmo com ardentes especulações sobre um Deus que sofre. A isso se dedica uma teologia do silêncio. Mas até em Auschwitz a fé era possível: crentes de diversas religiões voltaram a Deus a sua oração até na fábrica da morte, porque estavam convencidos de que, apesar de tudo, Deus existia. E você, de sua parte, deve se perguntar: o seu ateísmo explica o holocausto? A sua falta de fé explica o mundo, consegue consolar quem está no sofrimento sem sentido? Não! Nenhum dos grandes espíritos da humanidade que eu li resolveu o problema original do sofrimento e do mal.

Mas nem o cristianismo que - é quase absurdo - fala do Deus bom, benévolo, indulgente. Um Deus que tudo sabe, que tudo guia.

Essa é uma representação medieval do Deus onipotente, que guia todos os eventos cósmicos.

Então eu estudei mal a religião!

Não. Deus é espírito, que age dentro, com e no meio dos homens, mas que respeita a sua liberdade. E essa liberdade também compreende inevitavelmente o mal. O homem que sofre não pode chegar ao segredo dos projetos do criador sobre o mundo. O sofrimento, enorme, insensato - tanto individual quanto coletivo - não pode ser compreendido teoricamente, mas, no melhor dos casos, superado praticamente. Os judeus - os cristãos também - têm, como sofrimento extremo, a figura de Jó diante dos olhos. Esse homem perde tudo, sem culpa alguma: o patrimônio, a família, a saúde, torna-se mendigo, é atingido pela lepra. Lamenta-se com Deus e rejeita todos os argumentos a favor de Deus. Com isso, mostra que o homem não necessariamente deve acolher o sofrimento. Ele tem o direito de insurgir, de protestar, de se rebelar contra um Deus que lhe parece cruel, pérfido e astuto - e por meio dessas provas, Jó reencontra Deus!

Isso é uma fábula.

Isso é literatura mundial altamente dramática. Mas ainda mais do que Jó, para mim, como cristão, é Jesus, aquele Jesus que é abandonado, flagelado, que é caçoado, que morre lentamente na cruz, aquele que participou da terrível experiência do holocausto.

Para o senhor, como cristão, essa morte é certamente uma morte salvífica que...

... que remete para além da miséria, da dor, da morte! Até para céticos como o marxista Horkheimer era insuportável acreditar que a miséria tivesse a última palavra. Deve haver uma última justiça justamente para os pobres, os miseráveis deste mundo! E as crianças que sofrem sem culpa podem ter o conforto de que essa vida não é tudo, mas que têm diante de si uma vida sem dor.

É o senhor mesmo quem diz: a fé é ópio.

Não, não é ópio. É conforto.

O senhor tem agora mais de 80 anos e...

... Estou consciente do fato de que o meu fim terreno está próximo. Antes eu pensava - a minha vida foi uma vida cansativa - que não chegaria aos 50 anos. Agora, faço as contas com a morte, cada hora pode ser a última. Quem tem a morte diante dos olhos todos os dias tem menos medo dela. Estou pronto. Vivi sete vidas. Não me permito nenhuma nostalgia de velhice, não me fixo espasmodicamente em querer ser jovem. Às vezes me perguntam: "Como gostaria de morrer?". Sorrindo, respondo: "Durante uma viagem de trabalho!". E então acrescento: "De todos os modos, não em uma casa de saúde".

O seu amigo, o professor de retórica Walter Jens, afundou-se em um mundo além do pensamento, além das palavras, está louco. Foi um defensor da ajuda ativa a morrer. Sua mulher Inge diz: "Não aproveitou o momento certo em que poderia passar da vida para a morte".

Para mim, a vida é um dom de Deus do qual sou responsável. E isso até o último suspiro. Está entregue à minha responsabilidade, e não à da Igreja, ou do Papa ou de um padre, de um médico, de um juiz. É minha responsabilidade, e, definitivamente, sou responsável da mais alta instância: Deus. Digo apenas que não gostaria de perder o momento certo.

O que espera do fim da vida?

Como disse, estou curioso. A morte é a primeira para todos. Tenho a fundada confiança de não cair no nada. "Isso é tudo", disse Kurt Tucholsky, que se tirou a vida em 1935. Ele escreveu: "Se tivesse que morrer agora, diria 'Isso é tudo?' - e 'Não entendi muito bem'". E: "Foi um pouco barulhento". Mas não, eu não penso assim! Não é tudo. Eu acredito na vida eterna.

Walter Jens me dizia uma vez que encontraria com prazer Heinrich Böll e Willy Brandt lá em cima.

Naturalmente, eu também me encontraria com muito prazer com determinadas pessoas. De todos os modos, preferiria Mozart a Brandt, e gostaria de conhecer Thomas Morus. Mas o que eu sei? As fantasias não tem nada a ver com a seriedade do morrer.

E o que o senhor dirá a Deus, no caso de que exista, quando lhe perguntar: "O que fez para tornar o mundo melhor?"

Sei que ele não me fará essa pergunta, porque ele sabe disso sem perguntar.